O apresentador da Globo News passou os últimos meses de 2019 longe das câmeras, se tratando da grave doença
2020 começou com uma ótima notícia para o jornalismo. Curado de um câncer, Burnier está de volta

Tive a honrar de participar de grandes trabalhos jornalísticos ao lado do Burnier. Quando fui contratado pela TV Globo Minas em 1990, José Roberto já era um profissional consagrado. Naquele ano, estivemos juntos na cobertura das eleições estaduais.

Foi um momento especial. Pela primeira vez na história do país, os eleitores de todos os 27 estados brasileiros foram às urnas escolher seus governadores. Eu e Burnier tivemos a missão de acompanhar em Minas Gerais o candidato Hélio Garcia votando.

Em 1992, na tragédia da Vila Barraginha, estivemos novamente lado a lado. Nos dois momentos, José Roberto veio de São Paulo reforçar a equipe de BH.

Em coberturas assim, os jornalistas trabalham muito. Além de fechar matérias para os telejornais, os repórteres precisam produzir flashes para a programação. É necessário ter agilidade, criatividade, rapidez e uma boa dose de controle emocional.

Naquela época, quase todos os textos passavam antes pela aprovação do editor e precisavam ser decorados. Imagina quando o flash tinha duração de dois minutos.

Pacientemente, Burnier me deu várias dicas para enfrentar aqueles momentos de sufoco.

Sai da TV Globo em 2006 e nunca mais tive a felicidade de rever o José Roberto pessoalmente. Mas a minha admiração por ele continuou crescendo a cada reportagem que assistia do Burnier nos telejornais de rede. Há um ano e meio, meu companheiro se transferiu para a Globo News, onde foi apresentar o jornal Em Ponto.

Todas as manhãs, das 6 às 9 horas lá está ele trazendo as principais notícias do Brasil e do mundo. Sem pensar duas vezes, "abandonei" os outros telejornais matutinos para acompanhar o Burnier.

Tudo parecia ir bem com o âncora do canal à cabo até que fomos surpreendidos com a notícia da doença. O mais assustador foi saber que não se tratava de uma enfermidade que se cura com poucos dias. Era um câncer na língua que acabara de ser descoberto.

Pelas primeiras previsões, Burnier deveria ficar três meses afastado do trabalho. Acabou sendo um tempo um pouco maior. Só agora, depois de cinco meses de tratamento, ele recebeu o sinal verde para retomar seu posto.

A luta contra a temível doença começou no dia 30 de julho, quando o câncer diagnosticado passou a ser combatido com 33 sessões de radioterapia e três de quimioterapia. Quem já acompanhou um parente ou amigo se submetendo a esse tipo de tratamento sabe o quanto o paciente sofre. Burnier chegou a perder 18 quilos.

Em dezembro, em uma entrevista ao site G1, o jornalista contou detalhes de como ficou sabendo que o HPV, uma doença sexualmente transmissível, tinha sido responsável pelo seu tumor. "Nunca soube que eu tinha [antes do câncer]", explicou. "O HPV a gente pega às vezes na adolescência, ele fica no nosso organismo anos, décadas, inerte, e de repente ele aparece e infecta uma célula. E pode provocar esse tumor".

O âncora relatou ainda que a doença poderia ter sido bem pior. "Por incrível que pareça, é uma ótima notícia, porque quando é provocado por HPV tem a melhor resposta ao tratamento. Álcool e cigarro é mais difícil combater", continuou.

Ao tomar conhecimento de seu drama, o jornalista lembra que levou um susto, mas encarou o problema de imediato: "Qual é o próximo passo? Quero começar o tratamento ontem. A minha experiência em coberturas mostra que, quanto mais rápido você andar, mais chance você tem de se livrar desse negócio".

Mas não foram dias nada fáceis. "Era uma agonia por dia. Sempre me concentrava na próxima agonia. Comecei a engasgar muito, porque a garganta estava sendo bombardeada pela rádio. Engasgava com qualquer gole de água. Enjoos frequentes, vômitos", descreveu. "Foi sem dúvida o maior desafio da minha vida suportar o tratamento".

A solidariedade de pessoas próximas ajudou muito a superar os piores momentos. "Uma das coisas mais importantes do tratamento de câncer é você ser abraçado. É perceber que você não está sozinho", lembrou.

Na segunda-feira, dia 06 de janeiro, José Roberto reapareceu no vídeo bem mais magro, mas com o mesmo estilo único de comandar um telejornal. Burnier nunca foi afeito à sensacionalismo, estardalhaços e espetacularização de notícias, algo muito valorizado hoje. Seu estilo simples, que retrata na medida certa o peso da informação, continua intocável.

Ao iniciar a apresentação do jornal Em Ponto, Burnier começou agradecendo o carinho dos telespectadores que se preocuparam com ele durante o período de afastamento. "Antes de ir para as notícias do dia, queria agradecer do fundo do meu coração as mensagens que recebi de vários de vocês, mensagens de carinho, força e solidariedade. Estava afastado desde 17 de julho do ano passado para me tratar de um câncer. Agora felizmente está tudo bem, então com saúde vamos continuar levando adiante essa experiência fantástica que é a vida", disse na abertura do programa.

Em 2006, depois de acompanhar o tratamento do vice-presidente José Alencar contra um câncer perto do abdome, Burnier escreveu um livro. Os últimos passos de um vencedor – Entre a vida e a morte, o José Alencar que conheci, é uma obra que relata a visão jornalística do âncora sobre a luta de um dos mais importantes homens da República daquela época.

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