Sem pedir autorização, os abusados simplesmente levavam os celulares próximo às pernas das mulheres e registravam o momento
A brincadeira dos ingleses de tirar foto por baixo da saia virou crime

 

A irresponsável ousadia virou uma estranha moda no Reino Unido. Tem até nome próprio. Eles chamam o flagrante de "upskirting".

Nos últimos anos uma pequena legião de inconvenientes rapazes vinha se refestelando com a brincadeira. Eles se aproximavam sorrateiramente de uma mulher com saia. Diante de uma leve distração da vítima, a turma se abaixava e com o celular apontado para as partes íntimas fazia a foto.

Para conseguir seus objetivos, os espertalhões também agiam em transportes públicos e escondendo câmeras em banheiros de escolas e locais de trabalho.

Depois eles publicavam os clicks na internet. Quanto mais visualizações conseguiam, mais se sentiam "vitoriosos". Alguns oportunistas ainda aproveitavam para vender as fotos.

Oficialmente, até hoje já tinham sido noticiados 78 casos de "upskirting" na Inglaterra e no País de Gales entre 2015 e 2018, mas imagina-se que um número muito maior de mulheres tenha sido exposta. Muitas preferiram o silêncio para não ter o nome divulgado ou não tinham como ser identificadas.

 

A brincadeira dos ingleses de tirar foto por baixo da saia virou crime

 


Finalmente, agora vai dar cadeia


Na Escócia a foto sem permissão já era considerada crime desde 2010, mas no restante do Reino Unido não. Desde a semana passada, punições estão previstas na Inglaterra e no País de Gales. A pena pode chegar a dois anos de cadeia.

A Lei de Delitos Sexuais do Reino Unido entrou em vigor em 2003, mas não trazia nenhum artigo que protegesse as mulheres das fotos clandestinas. Quem começou a mudar a legislação foi ativista Gina Martin, de 27 anos.

Em 2017, a jovem sofreu um grande constrangimento depois de ter partes íntimas fotografadas durante o festival de música British Summer Time, em Hyde Park, na capital Londres.

Gina Martin estava assistindo ao show da banda The Killers com sua irmã quando notou que dois homens ao lado dela olhavam imagens da saia de uma garota em seus smartphones. Para seu espanto, as fotos eram dela. Gina ligou imediatamente para a polícia.

O agente que chegou no local exigiu que o homem apagasse as fotos. O policial disse ainda que não podia fazer nada mais, além disso. Diante da situação, a jovem alega que ficou chocada ao saber que a prática do "upskirting" não figurava como crime. Indignada com a violência, ela iniciou uma campanha sob a alegação de que "não tinha nenhum controle sobre seu corpo".

O canal que Gina usou para chamar atenção para a necessidade de as autoridades reverem essa mania bestialógica foi a página dela no Facebook. Em um post compartilhado por muita gente, a senhorita Martin pediu à polícia que reabrisse o caso. Várias mulheres que tiveram desagradáveis experiências similares também se manifestaram a favor. A petição on-line explodiu na rede.

Gina queria que o "upskirting" passasse a fazer parte da Lei de Delitos Sexuais como uma ofensa criminal. Na visão dela seria necessário que se "especificasse claramente que isso é uma ofensa sexual com uma vítima". Em pouco tempo 50.000 assinaturas engrossaram o desejo de Martin.


Durou 18 meses para virar lei


A estratégia surtiu efeito. Uma deputada liberal-democrata, de nome Wera Hobhouse, abraçou a causa e levou o tema para o Parlamento britânico. O projeto de lei apresentado por Hobhouse ganhou o apoio necessário para ser amplamente discutido. Mas não foi fácil a aprovação. Por lá também existem políticos do contra.

Era esperado que a mudança na lei de proposta por Wera passasse facilmente pela Câmara dos Comuns, até que um membro do Partido Conservador, o deputado Christopher Chope, se opôs ao projeto. A atitude dele foi duramente contestada pelos colegas de parlamento aos gritos de "vergonha".

Chope ficou em visível desvantagem. Ele ainda tentou argumentar que, no fundo, apoiava a modificação e apenas queria que houvesse um debate sobre o tema. O político ficou sozinho. Até a primeira-ministra Theresa May apoiou o andamento do projeto. No dia 15 de janeiro a lei foi aprovada na Câmara dos Lordes.

A nova legislação entrou em vigor na última sexta-feira. O Ministério da Justiça descreveu assim o que mudou: "O Ato de Voyeurismo (ofensas) 2019 cria duas novas ofensas criminalizando alguém que opera equipamentos ou grava uma imagem sob as roupas de outra pessoa (sem o consentimento da pessoa ou uma crença razoável em seu consentimento), com a intenção de ver ou permitir que outra pessoa veja suas genitais ou nádegas (com ou sem roupa interior), onde o objetivo é obter gratificação sexual ou causar humilhação, angústia ou alarme".

A ministra da Justiça, Lucy Frazer, também em um comunicado externou a opinião dela sobre o assunto: "Sempre fomos claros - não há desculpas para esse comportamento e os infratores devem sentir toda a força da lei. A partir de hoje, eles o farão".

No mesmo dia, Gina soltou uma nota comemorando a vitória pela criminalização da invasão de privacidade. "Finalmente, temos uma lei adequada que protege contra todos os casos de 'upskirting - como sempre deveríamos ter feito".

A nova lei, que já fazia parte da legislação escocesa, ainda não vale para a Irlanda do Norte. Lá, a estúpida brincadeira ou forma de ganhar dinheiro ainda não são consideradas crimes.

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