Na Copa do Mundo o futebol do continente já tinha dado sinais de que a bola anda meio murcha por aqui

A derrota do River Plate ainda vai doer muito na alma dos hermanos durante um bom tempo. Essa ressaca é difícil de passar. Se os Milionários chegassem à decisão iriam tentar repetir o feito de 1986, quando derrotaram o Steaua Bucaresti, da Romênia, por um a zero. Os atuais campeões da Libertadores já estiveram em outras duas decisões, em 1996, diante da Juventus, e em 2015, frente ao Barcelona. Perderam as duas. Mas nenhuma derrota foi tão surpreendente como a eliminação diante do Al Ain, dos Emirados Árabes, em uma semifinal. Imagina se os torcedores do Boca comemoraram. 

Tem um velho ditado popular que diz o seguinte: "quem vive de passado é museu". Isso no futebol é uma dura verdade com um agravante, o imediatismo que a bola costuma cobrar. 

Há pouco mais de uma semana o River Plate estava no céu, comemorando o título da Libertadores contra o maior rival. Para ser mais exato, foi no dia 9 de dezembro. O calendário correu e no dia 18 os Milionários entraram em campo para uma partida que parecia bem mais simples. Afinal, não tinha aquele clima de guerra e era ainda contra um adversário sem uma camisa de peso. 

O Al Ain é um clube dos Emirados Árabes fundado exatamente há cinquenta anos. O título mais importante levantado pela equipe foi a Liga dos Campeões da Ásia em 2003. 

Tite, Alexandre Gallo e Toninho Cerezo já treinaram o time que tem o mesmo nome da cidade onde atua. 

Essa foi a quarta vez que a FIFA escolheu os Emirados Árabes para sediar o Mundial de Clubes. Os jogos estão sendo realizados em duas cidades, Abu Dhabi e Al Ain. Por isso, o algoz do River entrou na disputa como representante do país e por ser o atual campeão nacional. 

Antes de pegar os argentinos os árabes precisaram enfrentar outros dois adversários. Na primeira fase passaram pelo Team Wellington, da Nova Zelândia, só nos pênaltis. Os anfitriões chegaram a estar perdendo no tempo normal por três a zero. Na sequência, confrontaram nas quartas de final com o Espérance, da Tunísia, e venceram bem, três a zero. 

Aí chegou a vez de se deparar com um bicho papão chamado River Plate. Nas bolsas de apostas na internet dava para se medir bem o favoritismo dos nossos vizinhos. Cada real apostado no Campeão da Libertadores em media pagaria 1,36. Já o empate daria 4,75 e vitória do Al Ain 8 reais. 

 

A eliminação do River Plate foi um reflexo do futebol sul-americano em 2018(Foto: Site da FIFA) 

 

Mais uma zebra para cima dos sul-americanos

 

A eliminação do River não foi o primeiro golpe em cima de um time sul-americano desde que a FIFA assumiu a organização da competição e ampliou o número de equipes. Em 2010, o Internacional sofreu uma derrota marcante para o Mazembe, da República Democrática do Congo, por dois a zero, na semifinal em Abu Dhabi. Depois foi o Atlético que experimentou o gosto amargo de uma eliminação precoce. Em 2013, o marroquino Raja Casablanca eliminou o time brasileiro por 3 a 1 em Marrakesh. 

Agora foram os argentinos que viram o que é desembarcar no Mundial cotado como finalista, mas cair antes de chegar a decisão. O tropeço histórico do River aconteceu no mesmo ano em que o futebol sul-americano naufragou feio também na Copa do Mundo da Rússia. Nenhuma seleção do continente alcançou sequer a semifinal. Brasil e Uruguai foram eliminados nas quartas de final diante de Bélgica e França, respectivamente. 

 

A eliminação do River Plate foi um reflexo do futebol sul-americano em 2018Brasil e Bélgica, Copa da Rússia (Foto: Site da FIFA)

 

As explicações de quem já viveu tudo no futebol

 

Humberto Ferreira é um dos mais experientes assistentes do futebol brasileiro. A carreira dele é repleta de títulos. Um dos mais importantes foi o da Libertadores com o Inter em 2010. Mas ele também já conheceu o lado drástico da bola, como a derrota para o Mazembe. 

Na visão de Beto não se pode apontar um único motivo para entender o que anda acontecendo com o futebol do continente. A fase ruim vai desde aspectos financeiros até a necessidade de reciclagem de treinadores. Com a palavra um profissional que conhece todas as faces do futebol.

 

Aspecto financeiro 

A parte financeira influencia muito no futebol. Os jogadores vão se formado com a mentalidade de jogar na Europa. Eles preferes jogar na Europa e na Ásia e permanecem muito pouco no clube e no país de origem. Argentino, brasileiro, uruguaio, paraguaio... Nós somos por excelência formadores de jogadores. Nós ainda formamos grandes jogadores, mas eles não atingem nem a maturidade no Brasil e jovem já vão embora. Eles perdem o vínculo com o país, com o estado, com a cidade deles, com essa raiz. Lá fora eles também têm menos pressão, que não é tão alta quanto aqui. E só voltam quando estão mais velhos. 

 

Mentalidade agravada com a crise na América do Sul

Nós vivemos uma crise econômica na América do Sul. Nós temos a crise na Venezuela, o problema financeiro da Argentina e no Brasil o desemprego. Fica muito difícil fazer investimentos. Tem muito clube com salário atrasado. O nosso jogador é oriundo de um meio onde vive com o incentivo de um amigo, de um tio que dá uma força até que ele consiga sobreviver, até que ele tenha aquela chance na vida. Muitos passaram fome, passaram necessidade. Essa é a nossa clientela. 

 

Perdemos a originalidade 

Nós somos muito copiadores, e eu acho que a gente anda copiando treinamentos que estão fazendo mal ao nosso futebol. O ex-zagueiro alemão Hans Briegel falou isso: "estamos copiando a metodologia de treinamento que não tem nada a ver com o nosso futebol". O Brasil sempre foi uma escola que tocou a bola, tinha times que tocavam excessivamente a bola. Nós começamos a acompanhar uma metodologia de treino que não combina muito com a nossa tradição. É preciso melhorar os nossos treinamentos. Talvez com esse curso que a CBF está fazendo aí a gente consiga melhorar um pouco. 

 

O nivelamento no futebol

O que acontece é que hoje tem muita informação. A parte tática evoluiu muito. Ninguém entra mais em campo se não tiver informação do adversário. Tudo é muito detalhado, tudo é muito marcado, tudo é muito visto. Às vezes acontece um imprevisto. Tenho certeza que o River viu o jogo que o Al Ain ganhou de 3 a 0 [no mundial contra o Espérance]. Tudo isso é estudado. É passado vídeo para os jogadores, é treinado em campo e às vezes, em um erro técnico, acontece um gol. 

Nós [Internacional], quando fomos jogar o mundial, mandamos uma pessoa ver os jogos do Mazembe, na África. Nós tínhamos a informação de que eles eram rápidos, que o goleiro jogava daquele jeito e que eles eram muito bons fisicamente. A gente tinha essas informações, e mesmo assim não conseguimos vencer. A informação tem sido um aliado muito grande dos treinadores e tem afetado o nosso desempenho também. 

Os times europeus ainda sabem tudo que a gente faz e tem jogadores de seleções do mundo inteiro. Aí fica muito difícil a luta.

 

Falta criatividade e talentos no futebol brasileiro 

O Brasil sempre teve time de muita técnica e hoje a gente não vê isso. Nem nos nossos times, nem dos nossos vizinhos sul-americanos. Nós temos um problema grave de formação de jogadores, de mentalidade. A gente vê o jogo e não vê jogador com qualidade, técnica, habilidades, com dribles, a gente não vê isso. A gente nota também que alguns jogadores não fazem muita questão de jogar na seleção, a coisa mais importante para eles não é isso. O objetivo já foi alcançado [realização financeira], e às vezes jogar na seleção acarreta uma responsabilidade muito grande. O futebol realmente tá vivendo um momento muito difícil. 

 

Técnica e tática 

Antigamente nós tínhamos jogadores habilidosos, que desmanchavam esquema. Hoje não temos mais. É a parte tática pura. O segredo tá no banco, é o treinador, como é que vai jogar. É muita tática, muita informação e isso afetou também a performance e a nossa habilidade. A gente tá jogando muito em cima do sistema, muito em cima do esquema, e isso afeta um menino já na base. É feito para ganhar. 

O futebol mudou, a parte física evoluiu. Toma um drible, levanta vai lá e marca de novo, como aconteceu com o lateral japonês [Shiotani] que marcou o River.

 

Inter e River sofreram com problemas diferentes 

Nós estamos geograficamente muito longe dos países sedes do Mundial de Clubes. Sair da América do Sul e jogar na Ásia, é sabido por todos na fisiologia, um problema muito grande em relação ao sono, ao descanso, alimentação... é tudo muito diferente. Isso afeta bastante a performance. 

E quando se ganha uma Libertadores vive uma euforia muito grande. No nosso caso, o Internacional vendeu dois jogadores muito importantes que era o Sandro e o Tyson, e isso desequilibrou o time. Com o River já foi diferente. Nós ainda continuamos jogando o Brasileiro. O River não. Acabou o mundial e ele já ficou na Europa para jogar o Mundial e perdeu também. 

 

A eliminação do River Plate foi um reflexo do futebol sul-americano em 2018Beto Ferreira em trabalhos no Inter, Criciúma e Vasco (Fotos: site dos clubes e arquivo pessoal)

 

* o último time sul-americano a vencer o Mundial foi o Corinthians em 2012, diante do Chelsea. O último argentino a conquistar a competição foi o Boca em 2003, frente ao Milan.

 

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Fernando Lima Torres

Fernando Lima Torres

Guilherme Mendes, gostaria que você, se puder, me passasse informações do que é necessário para eu me tornar um profissional das categorias de base, como é o mercado, quais são as qualificações técnicas exigidas, etc. Se puder entre em contato comigo através do meu e-mail.
Obrigado.
★★★★★DIA 19.12.18 15h47RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Fernando, eu não trabalho mais com futebol, mas no site dos clubes você deve encontrar informações. Abraço e boa sorte.

★★★★★DIA 19.12.18 16h18RESPONDER
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Fernando Lima Torres

Fernando Lima Torres

Guilherme Mendes, ótimo post, bem explicativo. Alguns aspectos do que você mencionou eu já vinha percebendo isso já há algum tempo. É a questão das categorias de base, não se formam jogadores como antes, dificilmente aparece alguma revelação aqui em Minas e tanto o Cruzeiro como o Atlético investem milhões na base e revelam muito pouco e os que sobem para o profissional a grande maioria são medianos.
Eu vejo que na maioria dos casos carece competência dos profissionais da base. Os jogadores não tem habilidade, dificilmente fazem alguma jogada que desmonta a defesa, é raro ver algum jogador que chuta de esquerda e de direita. Enfim, são muito mal treinados.
★★★★★DIA 19.12.18 15h44RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Fernando, obrigado por nos visitar e deixar a sua opinião. O aproveitamento de jogadores da base também pode ser atribuído a dois fatores: qualificação competente e aproveitamento no profissional. Tem treinadores que preferem trabalhar com jogadores mais experientes. É o estilo de cada um. O parece claro é que os nossos times estão se afastando muito da condição de enfrentar em igualdade de condições as equipes da Europa. O Humberto foi muito feliz em apontar os motivos. Grande abraço.

★★★★★DIA 19.12.18 16h27RESPONDER
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Gilney Guimarães

Gilney Guimarães

O lado psicológico nestas semi finais de mundiais interclubes, é fundamental. Estes times menores jogam muito a vontade em seus países. Não sentem pressão e jogam naturalmente o favoritismo para os sul-americanos. O favoritismo do campeão europeu é forte demais além do que a distancia técnica é colossal. Ainda aposto no Real Madrid.
★★★★☆DIA 19.12.18 13h22RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Boa, Gilney! Detalhe relevante o que você colocou aqui. Sem dúvida a responsabilidade é muito maior dos times sul-americanos e europeus. É quase uma obrigação eles chegarem à final. Mas não podemos esquecer que a qualificação das nossas equipes é muito maior. Além do mais, temos tradição em jogar Copas e outras grandes competições, o que deveria pesar muito a nosso favor. Mas como estamos falando de seres humanos e não de máquinas, vários fatores podem interferir. Venha sempre nos visitar. Abraço.

★★★★★DIA 19.12.18 16h23RESPONDER
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Juarez Oliveira

Juarez Oliveira

Nada mais fácil no mundo do que comentar futebol. O cara perdeu um penalti, a classificação e tem desculpas plausíveis pela derrota. O Boca tem q ficar de "boca fechada". O River campeão da Libertadores parece não valer mais. Enfim, Raja Casablanca, esse time de ontem e o Mazembe ... quem são? Onde estão? O q ganharam? Se futebol fosse obrigado a ganhar, para q ter o jogo? Essa mídia transformam pernas de paus em craques e hj qq um o é. Haja saco para ouvir a mesma lenga lenga todos os dias.
★★☆☆☆DIA 19.12.18 12h05RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Juarez, a eliminação do River não se trata de um fato isolado no futebol sul-americano. O River tem um time superior tecnicamente? Penso que sim, apesar da zaga cometer muitos erros. os argentinos tiveram 120 minutos para ganhar sem depender de pênaltis e não foram capazes. Desde 2013, só um time do nosso continente conseguiu vencer no tempo normal uma partida de semifinal do Mundial. Mas opinião cada um tem a sua. Por isso que digo sempre: ter opinião não é ser dono da verdade. Tomara que no ano que venha a gente vença de novo. Abraço e obrigado por visitar sempre o nosso site. 

★★★★★DIA 19.12.18 12h26RESPONDER
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