As recentes estatísticas mostram que é maior o número de baixas entre os agentes pelo auto extermínio do que no exercício da função
A escalada de suicídio de policiais nos Estados Unidos

 

Os números são vistos com uma certa cautela. Em muitos casos não é possível afirmar se o que leva o policial americano a se matar está relacionado a profissão ou a problemas particulares. Mas os levantamentos são inquietantes.

De acordo com o Blue Help, um grupo de prevenção de suicídios da polícia de Massachusetts, no ano passado 167 policiais cometeram suicídio. Em 2019, a contagem segue igualmente preocupante. Nos primeiros oito meses, mais 130 colocaram fim à própria vida.

O problema atinge cidades e estados de todo o país. O Departamento de Polícia de Nova Iorque confirmou que em um intervalo de dez semanas, sete policiais se mataram a bala.

No início deste ano, o Departamento de Polícia de Chicago, que tem um efetivo de 13 mil policiais, o segundo maior do país, também enfrentou uma onda de suicídios. Três integrantes praticaram a autodestruição. Em 2018 foram quatro.

Esses números podem ser ainda maiores. Os especialistas que acompanham as ocorrências envolvendo os policiais acreditam que muitas famílias preferem não relatar claramente a causa da morte, ou descrevê-la apenas como acidental.

Os pesquisadores do fenômeno acreditam que os policiais sofram com uma carga emocional maior do que em outras profissões. Essa pressão acontece por causa da combinação de três fatores: estresse intenso, pressão para ocultar sofrimento emocional e acesso fácil a armas de fogo.

Para justificar essa teoria, a Ruderman Family Foundation apresenta um levantamento comparativo. Em cada 100 mil pessoas, 13 morrem por suicídio, quando é considerada a população geral. Mas esse número sobe para 17 em 100 mil se analisado apenas o universo de policiais.

As tragédias levaram a uma mobilização dentro do Departamento de Polícia de Chicago, que dobrou o número de terapeutas disponíveis para cuidar da saúde mental dos agentes.

Os responsáveis pela segurança em Nova Iorque lamentam que policiais se recusem a procurar ajuda para cuidar de seus problemas mentais.

O chefe do Departamento de Polícia (NYPD), James O'Neill, já havia alertado em junho sobre a crise de saúde mental. "Precisamos mudar essa cultura. Precisamos garantir que nossos policiais tenham acesso a cuidados de saúde mental para que possam se manter bem e fazer o trabalho que desejam", afirmou O'Neill.

A BBC News conversou com John Violanti, um professor da Universidade de Buffalo que passou 23 anos na polícia. Hoje o veterano agente se dedica a estudos sobre o estresse policial e saúde mental. Para ele a natureza do trabalho contribui para o suicídio. "Eles veem crianças abusadas, cadáveres, acidentes de trânsito horríveis. Se você tem que vestir um colete à prova de balas antes de ir para o trabalho, isso é uma indicação de que você já tem a possibilidade de ser baleado ou morto, e que sua família tem a mesma probabilidade. Portanto, todas essas coisas pesam muito na mente e, com o tempo, afetam os policiais", argumenta.

Diante dos episódios cada vez mais frequentes, o presidente Donald Trump autorizou o uso de US$ 7,5 milhões (R$ 30 milhões) em subsídios por ano para prevenção de suicídios policiais, exames de saúde mental e treinamento nos Departamentos.

 

Em outros países e no Brasil

 

A grave situação dos policiais suicidas faz parte da realidade de outros países, principalmente entre os que usam armas de fogo. A França também tem números alarmantes.

No ano passado, a taxa de suicídio entre os agentes franceses foi 36% maior do que a população em geral. Em 2019, os casos registrados por lá já chegam a 64 policiais.

No Reino Unido, entre 2015 e 2017, de acordo com o departamento de Estatísticas Nacionais, cerca de 20 policiais tiraram suas próprias vidas. Ao contrário da França, a maioria da polícia britânica não carrega armas.

No Brasil as estatísticas são guardadas a sete chaves, ou quase todas. O site da revista Exame enviou solicitações para as secretarias de Segurança Pública dos 26 estados e do Distrito Federal no início do ano, perguntando sobre o número de policiais que cometeram suicídio e a quantidade de PMs afastados do serviço por transtorno mental.

Apenas onze estados e o DF informaram ter registros de suicídios, e só dois enviaram os dados referentes ao período de janeiro de 2008 a julho de 2018: Pernambuco e Rio Grande do Sul. Os demais estados alegaram falta de informações precisas sobre a solicitação.

Quem apresentou dados mais completos foi o Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção, mesmo assim de apenas dezenove estados.

O GEPeSP fez um levantamento baseado em uma rede de profissionais de segurança pública. Os registros de ocorrências policiais e notificações compartilhadas em grupos de WhatsApp e nas páginas dos principais veículos de mídia do país também foram considerados.

De acordo com o GEPeSP, o número de suicídios entre agentes de segurança no Brasil mais que dobrou em 2018. A soma chegou a 67 casos. No ano anterior foram registradas 28 mortes, uma alta de 140%.

O levantamento coordenado por Dayse Miranda, doutora em Ciência Política, inclui suicídios e homicídios seguidos de suicídios (quando a pessoa assassinou alguém antes de se matar).

O número de tentativas de suicídio informados também aumentou, passando de seis para catorze em 2018.

Os casos relatados envolvem profissionais da Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.

Em outra divulgação realizada pela Ouvidoria da Polícia de São Paulo, trinta e cinco militares tiraram a própria vida no estado em 2018. O aumento foi de 84% em relação a 2017, quando dezenove policiais se mataram.

Esse aumento se deve em parte à quantidade de PMs aposentados que se mataram. O índice de crescimento chegou a 275%, saltando de quatro casos, em 2017, para quinze no ano passado.

A tenente-coronel Soraya Corrêa Alvarez, chefe do Centro de Atenção Psicológica e Social da PM, diz que a corporação faz estudos para tentar compreender o fenômeno que parece também mundial.

"É algo, realmente, que nos preocupa bastante porque faz parte de um sofrimento psíquico muito extenso. Porque não é querer acabar com a vida. Existente a questão do querer acabar com o sofrimento muito grande", disse em entrevista ao Estadão.

Em Minas Gerais, a ONG Defesa Social, que atua em ações de segurança pública e inclusão, fez um levantamento sobre a situação no estado. De janeiro a agosto de 2019, trinta e um profissionais de segurança pública, incluindo policiais civis, militares, agentes penitenciários e socioeducativos, morreram por autoextermínio no estado.

Para o psiquiatra Aloísio Andrade, ouvido pelo jornal O Tempo, o clima de trabalho dos agentes de segurança é a principal causa dos transtornos mentais. "Eles são sobrecarregados tanto pela insuficiência de pessoal quanto pelas características de risco, associadas à convivência com pessoas de alta periculosidade. O ambiente de trabalho é, em geral, insalubre, e o clima sempre pesado e tenso, além de as condições serem precárias. O desenvolvimento de quadros depressivos e de ideias suicidas é só uma questão de tempo", afirmou.

No dia 18 de agosto, o policial militar Francisco Barroso, de 28 anos, se matou em Belo Horizonte. Em uma mensagem de despedida em rede social ele fez o seguinte desabafo: "Foram nove anos na Polícia Militar e vos digo, caros amigos:'cuidem-se'! A polícia é superestressante e pode ser fatal".

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