Bunker de 8 andares tinha sido erguido como uma retaliação de Escobar por ter sido impedido de frequentar um clube da elite de Medellín
A implosão do prédio construído por Pablo Escobar põe fim ao maior símbolo de ostentação do traficante

Uma torre suntuosa no luxuoso bairro El Poblado com piscinas, uma dúzia de apartamentos e uma cobertura com 1.600 metros quadrados. Pablo Escobar se refugiou durante muitos anos em um dos endereços mais caros da cidade. A construção obedeceu a rigorosos critérios de segurança. Pelo menos em duas ocasiões atentados a bomba e dinamite visaram jogar o edifício no chão. O famoso Mônaco continuou de pé e seu dono jamais foi atingido. Mas desde a morte de Escobar o prédio virou um ponto turístico. Ao implodir as estruturas e transformar em pó todos os andares o governo colombiano quis fazer desaparecer uma espécie de memorial do tráfico.

Em 1986, Pablo Escobar tentou frequentar o Clube Campestre, mas a entrada dele foi negada. Irritado com a barração o traficante comprou duas mansões vizinhas e executou uma vingança maquiavélica.

Como as casas ficavam a poucos metros do clube, ele mandou erguer no local um prédio de 8 andares, que fizesse sombra no Campestre e prejudicasse a vista dos sócios. Em apenas cinco meses as casas foram demolidas e erguida a famosa torre quadrada de cor marfim, batizada de Mônaco. O endereço entraria para a relação dos mais famosos da cidade: 15 sul-31 da avenida 44.

A construção tinha 8.000 metros quadrados. No porão Escobar guardava sua coleção de carros esportivos e clássicos. Nos sete andares superiores foram construídos 12 apartamentos com banheiras de hidromassagem. O prédio tinha ainda três elevadores, um caixa-forte, quarto de pânico, duas piscinas, quadras de futebol e de tênis.

Escobar morava na cobertura com a mulher e dois filhos. O apartamento de dois andares, com 1.600 metros quadrados, era decorado com pinturas de Botero, Grau e Obregón.

Enquanto abrigava o traficante o Mônaco foi alvo de um violento ataque idealizado pelo grande rival, o cartel de Cáli. Às 5h e 15 minutos do dia 13 de janeiro de 1988, um Toyota verde, transportando 80 quilos de dinamite, explodiu no lado oeste do bunker. O estrago foi grande. Uma cratera de mais de dois metros de profundidade por seis de diâmetro se abriu e rompeu uma tubulação de água. O barulho foi ouvido em toda a cidade. Três pessoas morreram e dez ficaram feridas.

Escobar e sua família dormiam no andar mais alto naquela noite. A explosão afetou o ouvido da filha do magnata da droga. Parte das valiosas coleções de carros e artes também foi perdida.

"Medellín amanheceu como Beirute", disse William Jaramillo, o prefeito da época. Era só o começo de uma guerra.

O frustrado plano de matar o barão da coca acabou dando início a uma sangrenta disputa entre os dois maiores grupos de produção e venda da droga. Milhares de pessoas morreram na briga dos cartéis.

Até sexta-feira da semana passada o Mônaco permaneceu imponente. Já o traficante tombou em 1993, quando tentava fugir de uma perseguição da Polícia Nacional da Colômbia.

Nos anos seguintes o prédio teve várias finalidades e foi ocupado por diferentes empresas e instituições.

A Divisão Nacional de Entorpecentes assumiu o controle do edifício e alugou espaços para empresas de bananas, publicidade, assistência médica, escritórios de advogados, para uma companhia naval e um centro de reabilitação de viciados. Depois o Mônaco foi parar nas mãos da Procuradoria.

Preocupados com novos ataques e com receio de serem vítimas os vizinhos protestaram. Eles tinham razão. Dois meses depois, no dia 19 de fevereiro de 2000, homens armados entraram atirando no Mônaco. Ao se retirar do local detonaram 40 quilos de dinamite. Mesmo assim, a construção, um verdadeiro forte, não ruiu.

Nos últimos anos, mesmo desocupado, o edifício continuou sendo uma atração. Os "roteiros do turismo" da droga por Medellín, chamados de narcotours, incluíam uma visita à frente do imóvel. Os turistas ouviam dos guias histórias sobre o fantasma de Pablo Escobar, que rondava a propriedade. A situação passou a incomodar as autoridades.

Em 2018, a prefeitura começou a pregar mensagens na fachada do prédio com a intenção de conscientizar os visitantes dos horrores que os colombianos viveram nas décadas de 1980 e 1990. Um dos cartazes lembrava o sofrimento de milhares de famílias, vítimas dos cartéis: "Respeite a nossa dor, honrem nossas vítimas (1983-1994). 46.612 vidas a menos".

Nos últimos meses, completamente deserto e abandonado, o imóvel foi invadido por ratos e as piscinas viviam cheias de larvas. Em uma medida paliativa a prefeitura tirou a água e encheu os buracos com areia.

 


Apagar as lembranças de Pablo

 


Disposto a sepultar de vez a fama do traficante, o governo decidiu tirar da frente de populares e visitantes os símbolos que ajudavam a perpetuar a imagem de Pablo Escobar. Em janeiro, foi retirada da Fazenda Nápoles a réplica da avioneta, o primeiro avião que o traficante usou para levar cocaína para os Estados Unidos.

Em uma conta do Twitter a prefeitura justificou assim a decisão de tombar o bunker: "O edifício Mônaco será derrubado. Não se trata de apagar a história, mas sim de começar a contá-la em honra a nossos verdadeiros heróis: as vítimas".

Na última sexta-feira finalmente chegou à vez do famoso Mônaco desaparecer para sempre das vistas de todo mundo. Uma detalhada operação de implosão foi preparada. Vários edifícios em um raio de 100 metros da fortaleza do capo foram evacuados para segurança dos moradores. Cerca de 1.500 pessoas e 147 animais precisaram deixar 638 unidades.

Como parte da solenidade de se enterrar a fama do narcotraficante na cidade, o presidente Iván Duque esteve no local. O evento foi aberto a 1.600 pessoas, incluindo familiares de vítimas de Escobar.

Cerca de 375 quilos de dinamite e 180 detonadores foram usados ​​para derrubar a construção. Os dois últimos andares do prédio não possuíam explosivos, porque seriam demolidos com a força da queda. Às 11h e 53 minutos, o prefeito de Medellín, Federico Gutiérrez, apertou o botão de disparo. 

 

A implosão do prédio construído por Pablo Escobar põe fim ao maior símbolo de ostentação do traficante

 

A implosão durou apenas 3 segundos. Uma nuvem de poeira ajudou a esconder os escombros da edificação, mas depois de 8 minutos, quando desapareceu completamente, só se enxergava os destroços do que já foi um dos mais luxuosos edifícios da cidade.

No local será construído um parque com 5.000 metros quadrados em homenagem aos milhares de cidadãos que perderam a vida durante a época cruel do chamado "narcoterrorismo". A inauguração está prevista para o fim do ano.

"A demolição do prédio do Mônaco significa a derrota da cultura da ilegalidade e o triunfo da cultura da legalidade. Isso significa que a história não será escrita em termos dos perpetradores", disse o presidente colombiano Iván Duque.

 

O fim de Escobar

 

O barão do tráfico sucumbiu em uma operação policial no dia 2 de dezembro de 1993. Ele estava escondido em um bairro de classe média quando foi descoberto através de uma tecnologia de triangulação de rádio. Junto com seu capataz, Escobar tentou fugir escalando telhados de casas. Não conseguiu ir longe.

Alvejado com dois tiros na perna e no dorso, ele veio a óbito com uma bala na cabeça. Até hoje não se sabe se Pablo foi morto pela polícia ou se matou ao perceber que não conseguiria fugir. Perto de 25 mil pessoas acompanharam seu sepultamento.

Com a saída de cena de Escobar, o Cartel de Medellín se dividiu em partes pequenas. Os rivais de Cali aproveitaram para dominar o mercado de cocaína. Mas em 1990 seus líderes também foram mortos ou capturados.

Apesar da demolição do edifício Mônaco, várias construções do maior traficante da Colômbia vão permanecer em pé. Com a grana da coca Escobar ergueu 443 casas para as famílias que viviam em um lixão de Medellín.

Outra dor de cabeça para o governo é o fato do país ainda hoje ser o principal produtor de cocaína, e os Estados Unidos o maior consumidor da droga que sai da América do Sul.

Para as autoridades norte-americanas e colombianas Pablo Escobar ainda é o mais brutal, impiedoso, ambicioso e poderoso traficante da história.

 

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Martini Cruz

Martini Cruz

Este espisódio mostra as autoridades querem se distanciar de tudo que se refira a conivência com o narcotráfico. Apaga-a memória do terror. Bom exemplo Colômbia.
★★★★★DIA 25.02.19 16h27RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Martini, obrigado por deixar aqui seu comentário. Penso que foi uma atitude visando desmistificar a figura de Escobar. Venha sempre nos visitar o blog. Grande abraço.

★★★★★DIA 25.02.19 16h37RESPONDER
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João Carlos Botinha

João Carlos Botinha

Excelente reportagem.
★★★★★DIA 25.02.19 03h30RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Muito obrigado pelas palavras de carinho. Grande abraço.

★★★★★DIA 25.02.19 10h14RESPONDER
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