A ordem para as mortes no estado parte de presídios federais
 A guerra de facções de Manaus levou à execução de 57 presos em 2 dias

Desde domingo a capital amazonense voltou a viver momentos de terror com as mortes nos presídios. No final de semana, o macabro cenário escolhido foi o do Complexo Penitenciário Anísio Jobim, conhecido como Compaj. Segundo nota divulgada pela Seap, os 15 executados estavam nos pavilhões 3 e 5 e foram mortos após uma "briga entre presos".

O confronto entre os detentos teria começado durante o horário de visitação. Usando escovas de dentes que foram transformadas em armas pontiagudas, ou aplicando técnicas de asfixia com golpes mata-leão, os presos cumpriram as ordens para eliminar os rivais. Três ainda tiveram as cabeças decepadas. No final do dia, a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária chegou a informar que a situação tinha sido controlada pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar.

Na segunda-feira a baderna foi ainda maior. Em outras três unidades mais 40 presos acabaram mortos. A carnificina aconteceu no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP) e no Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM I). Novamente os assassinos usaram as mesmas "armas" para colocar fim a vida dos adversários.

As autoridades de segurança ainda não quiseram cravar o motivo para a nova onda de execuções nos presídios, mas em se tratando de Manaus é bem fácil imaginar o que ocorreu. Quase todas as guerras entre os bandidos acontecem pelo controle do tráfico de drogas na região. Há anos uma disputa entre duas grandes facções vem provocando baixas dos dois lados. 

O maior estado da região norte vive há anos uma guerra entre duas grandes facções. Uma delas tem raízes locais e é conhecida como Família do Norte, uma organização amazonense com forte relação com o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro.

A FDN nasceu da união de dois traficantes famosos no Amazonas - Gelson Lima Carnaúba, o Mano G, e José Roberto Fernandes Barbosa, o Pertuba. Segundo a Polícia Federal, hoje trata-se da terceira maior facção do país.

Quem duela com a FDN é o Primeiro Comando da Capital, facção com origem em São Paulo, e que tem uma rixa pesada com o CV. Em 2017, os dois grupos tiveram o primeiro choque nos presídios. No dia primeiro de janeiro, uma revolta que durou 17 horas terminou com a morte de 56 presos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim. Todos os executados foram escolhidos a dedo pelos líderes da Família do Norte.

 

O que as facções disputam

 

O que está por trás da guerra envolvendo os dois grupos é a briga pelo controle do tráfico na região. A droga que vem da Bolívia e do Peru é a principal causadora das desavenças.

A cocaína segue através de rios da região amazônica na chamada "rota Solimões", e desembarca no Brasil para ser distribuída pelas facções. Anos atrás, quando CV e PCC tinham ligação, o negócio era quase todo comandado pelas duas organizações. A FDN não aparecia como uma ameaça.

Mas os criminosos paulistas e cariocas se desentenderam e a Família do Norte se juntou ao Comando Vermelho. Os novos aliados se tornaram grandes.

Nesse cenário, a FDN pôs em prática o plano de acabar com a facção paulista no Amazonas. Um ano antes, o PCC havia empregado estratégia parecida em presídios de Roraima e Rondônia.

Em outubro de 2016, as rebeliões causadas pela guerra entre os dois inimigos resultaram em 18 mortes em presídios dos dois Estados. De acordo com o governo de Roraima, 10 detentos foram mortos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo após uma ordem vinda do Rio.

 

De onde partem às ordens

 

Apesar de estarem isolados em presídios federais de segurança máxima, os principais líderes do tráfico ainda continuam dando as cartas sobre como as facções devem agir.

Eles utilizam o que na linguagem policial é conhecido como "salves". São mensagens enviadas até as unidades prisionais com ordens específicas. Para a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (Seai/SSP-AM), os mensageiros são pessoas que mantêm contato com os presos, como familiares, advogados e até agentes penitenciários.

Na maioria dos "salves", as facções tratam de assuntos ligados a rixa entre elas, a disputa de área do tráfico e ordens para eliminar desafetos.

O ex-instrutor do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar)
Paulo Storani não tem dúvidas sobre os pretextos para a guerra entre as quadrilhas.

"O que alimenta esta rivalidade entre os bandidos é a economia que gira em torno do tráfico internacional de drogas, geradora de intensos lucros. Faz parte deste quadro, de ambição pelo poder, o controle das unidades carcerárias pelas lideranças das facções. E é justamente esta disputa, pelo controle do tráfico e dos presídios, com ameaças, inclusive, aos funcionários do sistema prisional, que alimenta a violência dentro dos estabelecimentos penais".

Desta vez as autoridades trabalham também com a possibilidade das últimas mortes terem ocorrido por um racha pelo comando de uma das facções. 

 

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