A notícia da sentença dos cinco capangas do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman foi divulgada às vésperas do Natal
A hipocrisia da condenação à morte dos executores do jornalista Jamal Kashoggi

Demorou pouco mais de um ano para os sauditas encontrarem os “culpados” pela morte do colunista do jornal Washington Post, o jornalista Jamal Kashoggi, de 59 anos. Nessa segunda-feira, dia 23 de dezembro, um tribunal do país condenou cinco pessoas à morte. Outras três receberam sentenças de 24 anos de prisão, de acordo com a televisão estatal saudita Al-Ekhbariya. Todos os oito julgados podem recorrer de suas penas.

Jamal Kashoggi foi morto em outubro do ano passado, no consulado saudita em Istambul, na Turquia. Uma equipe de agentes sauditas foi responsável ainda por dar fim aos restos mortais do jornalista.

Entre os executores do crime estão vários agentes que trabalhavam diretamente para o príncipe saudita. Como Jamal era um crítico ferrenho da monarquia, o mundo sempre desconfiou que o mandante do assassinato era Mohammed bin Salman. Assim, foi fácil apontar o dedo na direção do herdeiro do trono, mas apesar das críticas de várias organizações e governos internacionais até hoje o reino saudita jura de pés juntos que o príncipe não teve nenhuma participação ou conhecimento da operação.

Além de não citar nenhum envolvimento de Salman, a investigação do procurador-geral da Arábia Saudita, Shalaan al-Shalaan, concluiu ainda que duas pessoas muitos próximas ao príncipe, e que também apareciam como suspeitas, não tiveram responsabilidade na morte do jornalista. O ex-conselheiro-chefe, Saud al-Qahtani, não teve vínculos comprovados com o assassinato, segundo a televisão estatal. O tribunal também considerou o cônsul geral saudita em Istambul, Mohammed al-Otaibi, inocente.

Logo após os veredictos serem conhecidos, Saud al-Qahtani e Mohammed al-Otaibi foram libertados com outras nove pessoas que não tiveram os nomes revelados. Segundo o tribunal que se reuniu em nove sessões, o assassinato não foi premeditado. Os julgamentos dos réus foram mantidos em sigilo quase total. Apenas alguns diplomatas - incluindo turcos - e parentes de Kashoggi puderam participar das sessões.


Um julgamento suspeito


Para a comunidade internacional que seguiu todos os desdobramentos do caso Jamal Kashoggi, o julgamento dos "envolvidos" não passou de uma tentativa de melhorar a imagem do governo saudita. A relatora especial da ONU, Agnes Callamard, que acompanhou as investigações, afirmou que o sistema judicial saudita não deveria ser "tão vulnerável à interferência política".

A forma como o julgamento foi realizado, sob portas fechadas e sem seguir padrões internacionais, gerou ainda mais desconfianças, segundo a Human Rights Watch. Para a organização que fiscaliza o respeito aos direitos humanos, o tribunal saudita "obstruiu responsabilizações significativas".

A ONG Repórteres Sem Fronteiras, que defende a liberdade de expressão, considerou as condenações uma "zombaria da Justiça". O secretário-geral do RSF pediu um novo julgamento com mais transparência. "Esperamos que a Arábia Saudita retifique e realize um julgamento com provas. Porque fazendo justiça dessa maneira, eles não reconstruirão sua imagem", disse Christpohe.

Para o serviço de inteligência dos EUA não há dúvida que o príncipe herdeiro foi o mandante, posição que é compartilhada por chefes de estado de alguns países.

Em junho, a ONU divulgou um relatório que diz ter encontrado "provas confiáveis" do envolvimento do príncipe herdeiro na morte do jornalista, classificando o crime como um "um assassinato extrajudicial pelo qual o Estado da Arábia Saudita é responsável sob a lei internacional dos direitos humanos".

A relatora especial Agnes Callard, disse que cinco pessoas poderiam ser condenadas à morte: Fahad Shabib Albalawi, Turki Muserref Alshehri, Waleed Abdullah Alshehri, Maher Abdulaziz Mutreb, um funcionário da Inteligência, e Salah Mohammed Tubaigy, um médico forense do Ministério do Interior.

O príncipe herdeiro chegou a assumir a responsabilidade pela morte de Kashoggi em setembro de 2019. "Aconteceu sob minha guarda. Eu assumo toda a responsabilidade, porque aconteceu sob minha guarda", disse Mohammed bin Salman. Mas pouco tempo depois ele mudou o discurso e voltou a se eximir.


O que se sabe sobre o crime


No dia 2 de outubro de 2018, Kashoggi entrou a pé no consulado de seu país em Istambul. Ele tinha ido ao local buscar a documentação necessária para se casar com sua noiva turca. Hatice Cengiz ficou do lado de fora esperando por Jamal. Seu noivo nunca reapareceu.

De acordo com áudios que foram encontradas por investigadores (o consulado estava grampeado pela inteligência turca, e o planejamento e a execução do crime foram gravados), o jornalista foi morto ainda dentro do consulado. Depois Khashoggi teve o corpo esquartejado para ser removido. Seus restos mortais nunca foram encontrados.

A advogada Helena Kennedy foi uma das poucas pessoas que tiveram acesso a gravação. Em entrevista à BBC, a britânica contou que pode ouvir os momentos finais da vida de Jamal Khashoggi

"O horror de ouvir a voz de alguém, o medo na voz de alguém, e o fato de você estar ouvindo aquilo ao vivo fazem um arrepio percorrer seu corpo", afirmou.

Helena relata o sadismo dos carrascos. "Dá para ouvi-los rindo. É um negócio assustador. Eles estão lá esperando, sabendo que aquele homem vai entrar e vai ser assassinado e esquartejado", contou a advogada. "Eles se perguntavam se o corpo e o quadril dariam dentro de uma bolsa".

A relatora da ONU Agnes Callamard, que também ouviu a gravação, disse que Khashoggi perguntou a seus carrascos: "Vocês vão me dar uma injeção?". A resposta foi aterrorizante: "sim".

"Você ouve Khashoggi passar do sentimento de confiança ao medo, depois a uma agonia crescente, ao terror e, finalmente, à percepção de que algo vai acontecer" completa a advogada.

"O que ouvimos depois mostra que ele está sendo sufocado, provavelmente com um saco plástico na cabeça. Algum tempo depois, alguém diz: 'É um cachorro, ponha isso na cabeça dele, envolva-a'.Só podemos entender que eles cortaram a cabeça dele", contou à BBC.

Os relatos seguem de forma ainda mais revoltante. O médico legista, acusado de ter cortado o corpo em pedaços, teria dito: "Costumo ouvir música ao cortar cadáveres. Às vezes com um café e um cigarro na mão", relembrou Kennedy.

"Ele disse: 'É a primeira vez na minha vida que tenho que cortar pedaços no chão. Até um açougueiro que quer cortar um animal o pendura' continuou o médico", segundo a advogada. "Você os ouve rir, é arrepiante", afirma Helena.

De acordo com o procurador-geral saudita, Shalaan al-Shalaan, o objetivo da operação era repatriar o jornalista. Uma "equipe de negociações" tinha sido enviada a Istambul pelo serviço de inteligência para levar Khashoggi de volta à Arábia Saudita "por persuasão" ou, se necessário, "pela força".

No meio do caminho os agentes entenderam que seria impossível tirar o jornalista do consulado e continuar a negociar. Nesse instante, eles decidiram matar Jamal ali mesmo

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