Todo ano tem pelo menos um grande escândalo ou uma grande tragédia. E como reagimos? Há tempos incorporamos o papel de impotentes e assistimos a tudo como se fosse um filme de ficção
A lama de Brumadinho não é nada perto da lama do Brasil

Imagine se você fosse dono de uma micro empresa, que resolveu fazer um empréstimo em um banco estatal, mas para obter juros baixos e um longo prazo propôs uma "jogadinha" com o gerente? E o cara topou.

Vamos pensar em outra hipótese. Você resolve construir uma mansão no alto de um morro, um lugar que tivesse a imagem de um mirante. Aí o material usado não era de qualidade e tudo desmorona na cabeça de quem mora lá em baixo.

Agora você é um pequeno construtor e se aventura no ramo de pequenas e médias obras públicas, mas sabe que vai ter que participar de licitações. No meio do caminho alguém te avisa: isso aqui é um jogo de carta marcada, se não rolar um por fora você não ganha nada.

Em qualquer país sério você hoje já estaria na cadeia. Conforme a nação, estaria condenado ainda a prisão perpétua. Tudo o que esbanjou com as suas falcatruas vai para o ralo.

Já teria perdido seu status de executivo e de homem de negócio, a receita federal estaria te vasculhando de cabeça para baixo e todas as suas empresas seriam fechadas.

Tornozeleira eletrônica? Só se fosse pesando uma tonelada para você nunca conseguir escapar do arcabouço que seria jogado.

Mas como você vive no país do Vampeta, a gente só finge que está sendo enganado e a viola continua tocando no mesmo tom.

O estouro da barragem de Brumadinho, três anos após o rompimento de Bento Rodrigues, sendo que até hoje milhares de ações de indenização continuem sendo discutidas na justiça, só nos remete a um sentimento: o de que não vai dar em quase nada.

O desmantelamento de outras represas em Minas é questão de tempo. Vários estudos apontaram nos últimos meses o risco de que a desgraça de Mariana fosse se repetir.

Da mesma forma, equipes de engenharias de São Paulo estão há anos alertando para o iminente risco dos viadutos da cidade. O que aconteceu na marginal Pinheiros não foi uma fatalidade.

Dezenas de outros viadutos vivem dias perigosos pelo país afora. Uma das explicações é que muitas dessas obras foram projetadas há 5, 6 décadas, quando não se imaginava o tráfego de carretas absurdamente pesadas, bitrens e um movimento descomunal de veículos.

Mas se fosse só o desgaste das construções ultrapassadas, obras que precisam ser escoradas ou refeitas, ainda se acreditaria que o Brasil é um país que poderia sobreviver com seus "remendos".

Mas quando se lê tudo o que a JBF fez e continua operando normalmente, sem parar um único dia de enriquecer a máquina parruda dos irmãos Batista.

Quando se ouve falar que a inesgotável corruptível Odebrecht aprontou por aqui, distribuindo malas, presentes, pagando campanhas e não aconteceu nada com as portas da empresa.

Que a agora a empreiteira tá envolvida na execução de pelo menos dois executivos no Peru e a empresa continua participando de licitações e ganhando contratos, só no resta uma humilhante constatação.

O problema é que o dinheiro dos ricos compra tudo, principalmente a dignidade do ser humano. Todos os anos centenas, vou repetir, centenas de chineses morrem nas minas de carvão do país e não acontece nada. O último levantamento oficial foi em 2017, quando foram registrados 219 acidentes com 375 mortes.

A temporada 2019 já começou quente por lá. No primeiro acidente no ano, no dia 6 de janeiro, já morreram mais 11.

Você prestou bastante atenção nas palavras do diretor presidente da Vale Fabio Schvartsman quando ele disse que recentes levantamentos apontaram os riscos da barragem da Mina Córrego do Feijão como de pequenos?

Segundo o presidente o relatório de auditoria feita por uma empresa alemã realizada em setembro considerou a barragem estável.

Se Feijão estava entre as represas de baixo risco imagina as outras?

E sabe o que vai acontecer hoje? As unidades da Vale vão trabalhar normalmente porque a máquina não pode parar. Ou seja, para os homens de negócio não perderem mais dinheiro é importante que se honrem os mortos em discursos emocionais e siga o jogo.

Detalhe que ao assumir o cargo em 2017 o senhor Fabio Schvartsman garantiu que o lema dele era "Mariana nunca mais".

O que hoje todas as autoridades ambientais responsáveis deveriam no mínimo exigir agora era a suspensão imediata de todas as atividades da Vale, reincidente em tragédias ambientais, até que uma nova rigorosa avaliação seja feita em todas as unidades e testando fartamente não existir risco algum.

Mas não vai acontecer nada além de uma semana de noticiário até que um novo desastre aéreo, uma chacina, uma nova lava jato chame ainda mais atenção.

O Brasil está há milhares de dias de ser uma nação justa, que seus malfeitores realmente paguem pelo que fazem e sejam literalmente varridos da atividade pública.

Pobre Brumadinho, sua fama de cidade flagelo vai durar um bom tempo, mas as deliciais da sua mineiridade jamais serão a mesma, da mesma forma que nunca esqueceremos o Paraopeba e o São Francisco.

 

A lama de Brumadinho não é nada perto da lama do Brasil

 

Enquanto a ganância do homem e a impunidade prosperar nesse país continuaremos a ver os filmes de terror de Barraginhas, Gameleira, Bento e Brumadinho se repetirem como se fossem fatos inéditos. Do valor de R$ 785 milhões em multas pelos desastres ambientais que deveriam ser cobradas da Samarco e da australiana BHP pelo acidente de 2015, apenas 3,4% já foram quitadas. 

Não foi atoa que um dia Renato Russo cantou: que país é esse.

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Marcia Mendes

Marcia Mendes

Enquanto não nos indignarmos realmente continuaremos cantando que país é este...
★★★★★DIA 26.01.19 10h43RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Perdemos a vergonha e o escrúpulo. Ficar vendo as reportagens pela tv é uma coisa, mas convido a cada um ir até o local e ver com os próprios olhos o que aconteceu com centenas de famílias. o Dourtor Presidente da Vale deveria ser o primeiro.  

★★★★★DIA 26.01.19 10h48RESPONDER
Marcia Mendes
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Ivan Silva

Ivan Silva

Infeliz título, se pensarmos que vítimas e parentes de centenas de vítimas estarão lendo este veículo de comunicação.
★☆☆☆☆DIA 26.01.19 13h17RESPONDER
Ivanil Silva
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Laércio Silva Porto

Laércio Silva Porto

Idem,idem com a mesma data
★★★★★DIA 26.01.19 13h58RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Estamos perdendo o sagrado valor da indignação. Aprendemos a ser intolerantes com um monte de bobagem, mas coisas quer nos afetam duramente se tornaram insignificantes diante de nossa frieza. 

★★★★★DIA 26.01.19 14h19RESPONDER
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Ivanil Silva

Ivanil Silva

Pensei o mesmo na hora...li e reli e nada entendi.
★★★★★DIA 27.01.19 02h10RESPONDER
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Ivanil Silva

Ivanil Silva

Pensei o mesmo na hora...li e reli e nada entendi.
★★★★★DIA 27.01.19 02h10RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Ivanil, o Brasil hoje vai para as redes sociais discutir um monte de assuntos que não afetam a nossa sobrevivência. A sobrevivência é o nosso maior instinto, desde que nascemos. Perdemos tempo em discutir azul e rosa e não partimos para a defesa da nossa sociedade de assuntos que são muito mais relevantes.Abraço.  

★★★★★DIA 27.01.19 02h19RESPONDER
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