A manipulação de informação e a fragilidade do país para uma guerra contra a maior potência do mundo estão ameaçando o fim do regime do aiatolá Ali Khamenei
A mentira do Irã pode custar muito caro

A guerra de informação entre adversários em períodos de conflito sempre fez parte do jogo. Se mostrar forte, pronto para os combates e preparado para qualquer situação extrema é imprescindível. Caso contrário, se o inimigo souber que suas forças são insuficientes, você poderá ser esmagado facilmente.

Quem já leu a "Arte da Guerra", livro sobre estratégias militares do chinês Sun Tzu, que nasceu no ano 544 aC, conhece bem sobre essas teorias. A "propaganda" positiva de seu próprio exército é fundamental para desencorajar o oponente.

E o que isso tem a ver com o avião ucraniano derrubado pelo Irã? Muita coisa!

Desde que os Estados Unidos decidiram eliminar o líder da Força Quds, a unidade de elite da Guarda Revolucionária do Irã, os persas prometeram uma retaliação à altura. A represália pela morte do comandante, o General Qassem Soleimani, tornou-se uma questão de honra.

As autoridades do país esperaram apenas o sepultamento do corpo para ir à desforra. Um ataque a duas bases americanas no Iraque, com o emprego de 16 mísseis, foi apenas o início do que o governo do aiatolá Ali Khamenei chamou de "vingança severa".

Em um discurso apaixonado, Khamenei resumiu a reação iraniana: "Na noite passada, foi dada uma bofetada na cara" dos americanos, disse o líder na televisão.

"O que importa é que a presença corrupta dos Estados Unidos nesta região tem que terminar", desabafou.

Para o subcomandante da Guarda Revolucionária do Irã, Ali Fadavi, o ataque de mísseis tinha sido apenas uma demonstração da capacidade de defesa iraniana. Em um discurso na cidade de Isfahan, no centro do país, Fadavi afirmou que foi "uma das manifestações inigualáveis do poderio e da capacidade do Irã no campo da defesa militar".

O mundo se preocupou ainda mais. O receio que a maior guerra do século XXI estivesse prestes a se iniciar tomou conta da mente de milhões de pessoas pelo mundo. Mas Teerã teria realmente força para enfrentar a maior potência bélica do planeta?

A régua que mede o tamanho militar de cada país não é tão nítida. As nações escondem a maior parte de seu poder de fogo. Mas os estudiosos do assunto estimam que o Irã tenha hoje o oitavo exército do mundo em número de combatentes. A conta dos soldados ativos chega a 523 mil. Outros 350 mil estariam na reserva. Ainda de acordo com os números iranianos, o país tem um potencial de quase 40 milhões de cidadãos em condições de lutar.

Do outro lado está a maior potência financeira de todos os continentes, com um exército ainda mais impressionante. São quase 1 milhão e 300 mil soldados na ativa e 860 mil na reserva. A população apta para o serviço militar é de 119 milhões. É o terceiro maior contingente do mundo, atrás apenas de Índia e China.

Além do número de militares, outro ponto importante para se conhecer a envergadura de cada país é o orçamento anual para suas defesas. Nesse quesito, o desequilíbrio entre os Estados Unidos e seu adversário se torna abissal. Enquanto os americanos podem gastar quase 3 trilhões de reais com forças de segurança, os iranianos têm uma previsão de 25 bilhões de reais.

O que deixa esse jogo ainda mais desequilibrado é o armamento de cada lado. Esse registro é o mais difícil de se saber. Esconder o arsenal bélico faz parte das táticas para surpreender o inimigo. Mas os grandes experts sobre o assunto não têm a menor dúvida de que os EUA têm as armas mais poderosas e avançadas do mundo e soldados muito bem treinados.

Segundo dados extraoficiais, as Tropas do Presidente Donald Trump contam com 13.398 aeronaves em serviço, incluindo aviões de transporte e outros. O número de tanques é de 6.287 e são 39.223 os veículos blindados. Os meios navais totalizam 415.

O maior trunfo do Irã em uma possível guerra em seu território seria seu arsenal de mísseis, o mais poderoso entre todos os países do Golfo Pérsico.

As sanções impostas pelos EUA nas últimas três décadas não foram suficientes para impedir Teerã de desenvolver sua própria tecnologia militar. A ajuda veio da China, que durante a guerra do Irã contra o Iraque (1980-1988) exportou tecnologia para o país dos aiatolás.

Estima-se que a República Islâmica disponha de pelo menos uma centena de mísseis de diferentes tipos. Mas nada que se compare com o tamanho do seu desafeto.

Na avaliação final, os americanos ocupam hoje o primeiro lugar no ranking militar enquanto o Irã aparece na décima quarta posição.

Resumindo: essa não é uma briga boa, muito menos conveniente para os persas.

Ao vociferar aos quatro cantos que não iria se intimidar contra os ianques, o subcomandante da Guarda Revolucionária do Irã jamais poderia imaginar que seus comandados fossem capazes de tamanha trapalhada. Ao derrubar um avião comercial lotado de passageiros civis, pensando se tratar de um míssil de cruzeiro, os guardas de Ali Fadavi escancararam para o mundo inteiro o despreparo de seu exército.

Pior ainda foi continuar mentindo para o próprio povo, sem assumir suas responsabilidades. A velha tática de mostrar o ocidente como o grande mal da humanidade e tentar convencer que o acidente aéreo aconteceu por causa de uma falha de motor não colou.

As imagens que mostram o avião da companhia Ukrainian Airlines sendo atingido por um míssil foram fatais na versão fantasiosa dos responsáveis pela aviação civil iraniana.

As consequências não serão poucas. Além de atestar a incapacidade de controlar seu espaço aéreo, a mentira que o governo iraniano contou, apostando que enganaria até a população do seu próprio país, foi uma punhalada na credibilidade do regime dos aiatolás.

Nas últimas horas, diversas manifestações se espalharam pela capital do Irã. Grupos se reuniram em locais públicos em atos organizados pelas redes sociais. Além de lamentar a perda de vidas na queda do avião ucraniano, eles protestaram contra as ações do governo.

Os manifestantes pediam "morte aos mentirosos" e "morte ao ditador", de acordo com a agência Reuters. Não foram poucos os que gritavam "comandante (Khamenei) renuncie, renuncie". Fotografias do General Qassam Soleimani foram rasgadas.

Sem aceitar contestações populares (algo corriqueiro nas ditaduras e entre fanáticos religiosos), o governo iraniano mandou prender as pessoas que estivessem participando dos eventos. Entre os detidos estava o embaixador britânico, que alega ter ido se juntar aos integrantes que faziam apenas uma vigília em homenagem aos mortos na queda do avião.

Em tempos de rede social, flagrantes de câmeras de celular e disseminação de informação, mentir é a pior opção. O Irã está descobrindo a duras penas que muito pior do que perder seu principal General de guerra foi ser derrotado em outro perigoso campo de batalha: o da reputação.

"Dominado pela cólera ou pela vingança um soberano não deve mobilizar as tropas. Aguarde dias serenos para tomar decisões", já alertava Sun Tzu, meio século antes de Cristo. Pelo jeito, os aiatolás subestimaram a lição.

 

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