O perigo iminente foi documentado em abril de 2018. Além do risco de desmoronamento, relatório apontava para diversas falhas na construção das instalações
A omissão da Vale. Diretoria sabia que barragem podia romper e não fez nada

Chega a ser inacreditável que a empresa tenha desenhado esse modelo para a mineradora. No alto uma represa construída com uma técnica arriscada. Abaixo, no rumo do que poderia ser despejado da barragem, estavam as instalações da empresa, refeitório, setor administrativo e mais a frente a pousada. Até a sirene de alerta estava abaixo do nível dos rejeitos. Uma combinação perfeita com um risco elevado para uma grande tragédia se algo desse errado. E deu.

As informações foram divulgadas inicialmente pela Folha.

Em abril do ano passado, a Vale encomendou um estudo para um plano de emergência. O documento foi nomeado como Plano de Ações Emergenciais (PAEBM), apontando os prováveis danos em caso de rompimento e de inundação.

Segundo o relatório deixava claro: o refeitório e o centro administrativo se localizavam em zona de perigo caso a barragem se rompesse.

O Plano de Emergência da barragem I da Mina Córrego do Feijão apontava também que um eventual rompimento da barragem destruiria outras áreas industriais da mina.

No documento que previa os danos em caso de acidente com a represa, há um "mapa de inundação" que projetava quais seriam os possíveis estragos e definia medidas para aliviá-los, segundo a portaria do Governo Federal.

A extensão da lama chegaria a 65 quilômetros da barragem.

Os especialistas deixaram claro que devido à proximidade, os profissionais que trabalhavam no local teriam pouca chance de escapar, mesmo que o alerta sonoro fosse disparado.

O fajuto plano, previa que "diferentes mecanismos de comunicação seriam utilizados, com o uso de acionamentos sonoros".

Ou seja, a Vale foi informada que em caso de estouro de barragem em Brumadinho pontos essenciais como o restaurante e a sede, por exemplo, seriam atingidos. A escolha dos pontos de fuga definidos pela mineradora tinha sido um enorme equívoco.

A Vale simplesmente ignorou, mesmo sabendo que a inundação das áreas seria inevitável.

Procurada desde o início da semana passada para explicar sobre o relatório a mineradora se recusou a comentar.

O rompimento da estrutura na sexta-feira, 25, matou até responsáveis pela comunicação em caso de ruptura.

Muitos deles estavam no restaurante da mina, a cerca de um quilômetro da barragem. O rompimento ocorreu na hora do almoço.

Segundo a PF, a escolha do ponto que levava os funcionários a uma rota de fuga foi equivocada. Esse local que deveria ajudar a salvar vidas ficou completamente coberto pela lama.

Os hóspedes que estavam na pousada Nova Estância, cuja inundação também estava prevista no plano, igualmente se tornaram vítimas.

A Vale se defende afirmando que o plano de ações emergenciais foi elaborado com base em um estudo de ruptura "hipotética", diante da mancha de inundação que já existia.

Alegou também que a estrutura tinha sistema de vídeo monitoramento e sistema de alerta por sirenes e que todas tinham sido testadas.

Para aumentar o grau de ridicularização do documento, a empresa informou também que havia feito o cadastramento da população abaixo da barragem.

A Vale declarou ainda que tinha feito uma simulação em junho do ano passado, sob a coordenação das defesas civis.

Ainda conforme a mineradora, a barragem passava por inspeções quinzenais, que não detectaram nenhuma alteração na estrutura.

O presidente da Vale, Fábio Schvartsman, já teve o peito de admitir que as sirenes não funcionaram porque elas foram engolidas pela lama.

"Houve um rompimento muito rápido da barragem e o problema da sirene é que a sirene que ia tocar foi engolfada pela barragem, antes que ela pudesse tocar, só isso".

A engenheira geotécnica, Rafaela Baldi Fernandes, especialista em barragens e em planos de ação, afirmou para a TV Globo que mesmo com a falha a Vale, obrigatoriamente, deveria ter um outro plano.

"A sirene podia até ter ido embora. Mas tinha que ter um plano "B", sabe? No plano "A" a gente estabelece alguns dispositivos. A gente não fica só preso a um. E, por exemplo, a gente nunca põe uma sirene só. Agente põe duas, porque o dispositivo mecânico ele pode falhar. A gente nunca põe um telefone de uma pessoa só para ligar. A gente põe o telefone de várias pessoas, porque essa pessoa pode não atender".

Hoje a Vale admite que a escolha do ponto que levava à rota de fuga, onde funcionários chegaram a fazer treinamento em junho do ano passado, foi equivocada.

E a pergunta que não vai se calar enquanto não tivermos uma resposta: não vai acontecer nada com esses (ir)responsáveis?

 

Foto capa: Divulgação Site Corpo de Bombeiros

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Raquel Ayres

Raquel Ayres

É estarrecedor! Faltam palavras para tantos absurdos em sequência. Mas creio que se houvesse uma inversão da lógica - em que o primeiro a ser preso em casos como este é o presidente da companhia, que ganha bônus milionários, anualmente - teríamos um grau maior de comprometimento com a segurança física e ambiental. É indignante!
★★★★★DIA 04.02.19 12h56RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Os brasileiros só vão acreditar no Brasil no dia que houver justiça para todos, às claras, sem decisões monocráticas tomadas de madrugada e com igualdade de direito. Abraço.

★★★★★DIA 04.02.19 14h17RESPONDER
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Marco Carvalho

Marco Carvalho

Sobrevivemos graças à natureza. Não comemos dinheiro.
★★★★☆DIA 03.02.19 21h20RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Marco, a natureza faz muito pelo homem. Infelizmente, nós fazemos muito contra a natureza. As agressões que impomos ao meio ambiente diariamente será nos cobrará um preço. Grande abraço.

★★★★★DIA 04.02.19 11h10RESPONDER
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