A duas semanas da votação os eleitores mais se parecem com torcedores passionais, mas não deveria ser assim
A política brasileira virou arquibancada de futebol

Com a aproximação da final do primeiro turno a torcida faz contas e, a cada rodada, vai ficando mais claro quem é o favorito. Em campo, os adversários tentam todas as táticas para derrotar o líder ou, pelo menos, ficar em segundo lugar para também garantir uma vaga na decisão final, de acordo com o regulamento.

O texto acima bem que poderia estar se referindo a uma competição de futebol, mas não é, apesar dos termos familiares a quem acompanha o noticiário de esportes. Na verdade é sobre política e, de fato, os dois temas andam caminhando muito mais lado a lado do que se possa imaginar.

Há pouca coisa no Brasil que inflame mais as pessoas do que um jogo de futebol. Dia seguinte a uma partida os apaixonados pela bola passam horas discutindo se foi ou não pênalti, gols ilegais ou invalidados, faltas inexistentes, cartões indevidos... uma coleção de assuntos que, no fundo, não muda em nada a nossa vida. 

Ou será que alguém acredita que vai se tornar mais poderoso ou ficar rico se vencer um combate desses?

A célebre frase de que "futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes" (vamos deixar de lado a autoria do bordão para não entrar em outra controvérsia), define uma pura verdade. Mas, tudo bem, é delicioso discutir com os amigos esse tipo de polêmica. 

Estupidez é passar do ponto da sadia "mesa redonda" do futebol para o radicalismo da intransigência de opinião. Querer impor sua visão e convicções não é nada mais do que alimentar sua vaidade e orgulho. 

Já na política, quando defendemos o que consideramos ser o melhor para o nosso país, estamos brigando por nossos direitos e, ao mesmo tempo, de olho nas pessoas que podem fazer muita diferença na nossa vida.

Só com uma sociedade politizada vamos poder, de fato, vigiar tudo o que é feito no executivo e no legislativo. Vamos parar de dar as costas para todas as barbaridades narradas constantemente pela imprensa imparcial do país. Mas, tão importante quanto ser um ativista político, é ser também um cidadão justo e equilibrado. 

Viver em uma democracia é saber conviver com ideias opostas. É saber ouvir, debater e aceitar ser convencido do melhor, ou não, se, de fato, você estiver convicto de que fez a melhor escolha. Uma das principais regras para isso atende pelo nome de civilidade.

Esse deveria ser o ponto de partida. Deveria porque, infelizmente, o que estamos vendo nas últimas semanas é uma guerra de simpatizantes de políticos querendo defender com ofensividade seus prediletos dos palanques. As redes sociais se transformaram em uma “selva de Tarzans” lutando nos cipós para romper pela mata dos seus opositores.

Na reta final a campanha ganhou uma polarizaçao clara e acirrada. Se de um lado o candidato da direita pelo PSL, Jair Bolsonaro, se consolidou na liderança das pesquisas, o petista Fernando Haddad foi o que mais cresceu percentualmente nos últimos dez dias. Tentando reagir a turma do bloco intermediário passou a jogar pedra nos dois, devaneando que um deles caia.   

Se não bastasse todo tipo de ataque, uma moda mesquinha virou a vedete dessa eleição, a tal da fake news. As falsas notícias elaboradas com cuidado, usando requintes de detalhes com o propósito de ludibriar a crença do eleitor, se tornaram a estratégia mais nojenta da atualidade. Os capciosos que se dedicam à produção das fakes são verdadeiros mentirosos, desonestos e inescrupulosos nefastos.

Independente do resultado final do pleito eleitoral de 2018, o Brasil vai sair dessa eleição rachado, mais dividido do que ficou em 2014. Será preciso entender e aceitar que a maioria dos brasileiros optou por este ou aquele candidato. O momento seguinte será o de todos se sentarem na mesma arquibancada. Afinal, dali para frente, o fracasso do futuro presidente pode custar muito mais do que outro processo de impedimento nesse país, trazendo reflexos profundos no nosso dia a dia.

A crise já está instalada por aqui. Temos mais de 14 milhões de desempregados, cento e uma mil pessoas morando nas ruas, a terceira maior população carcerária do mundo, com mais de 700 mil presos, e 60 mil assassinatos por ano. A nossa economia, em cadeira de rodas e refém do humor dos acontecimentos internacionais, é incapaz de caminhar com as próprias pernas. Não temos controle de gastos públicos, a previdência está estourada e dólar e gasolina na lua. E sabe quem são os responsáveis? Somos nós, os eleitores, que escolhemos quem nos governa. Ficar mirando em políticos que estão ai não resolve nada. A necessidade é de buscar agora os capazes de nos salvar deixando de lado a paixão.  

Pena que os candidatos e/ou suas equipes de estrategistas também não pensem assim. Ao adotarem modelos de campanhas enfurecidas, com um tiroteio em legendas e nomes, os senhores só nos fazem optar pelo o que se convencionou chamar de “o menos pior”. Essa é a triste fama que vocês fazem questão de alimentar todos os dias, enquanto a fome do brasileiro é por dignidade.

 

 

 

 

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