A garota de programa foi condenada à prisão perpétua. Mas depois de cumprir quinze anos da pena, um governador mandou tirá-la da prisão
A prostituta que matou seu "dono" nos EUA vai sair da cadeia

O caso Cyntoia Brown virou até documentário nos Estados Unidos. A menina que fugiu de casa e se entregou à prostituição acabou indo parar na cama de um homem que a teria ameaçado severamente. O que levou a jovem a disparar um tiro na cabeça do algoz seria o medo dela morrer antes. A justiça não aceitou a versão de Cyntoia de legítima defesa e condenou a garota a passar o resto da vida em uma cela. Mas quinze anos depois o governador do Tennessee autorizou dar liberdade a Brown. 

 

História de vida conturbada

 

Para conhecer bem essa história vamos começar pelo dia 29 de janeiro de 1988. Essa é a data do nascimento de Cyntoia Denise Mitchell. A mãe, que acabara de dar à luz, Georgina Mitchell, era uma mulher viciada em álcool e drogas, como cocaína. Durante a gravidez ela se tornou usuária de crack. O pai é desconhecido. 

Dois anos mais tarde, Georgina colocou a filha para adoção. Quem abrigou a menina foi uma professora de nome Ellenette Brown. A garotinha passou a ser chamada de Cyntoia Brown.

No novo lar a pequena Brow encontrou apoio familiar e condições financeiras para ter uma vida decente. O que teria levado a moça se tornar uma prostituta e assassina, segundo alegam seus advogados, seriam pressões emocionais causadas pela Síndrome do Alcoolismo Fetal. 

Artigos científicos definem esse tipo de transtorno como uma doença que se desenvolve devido ao uso de álcool pela gestante durante a gravidez. As consequências são várias, como anormalidades estruturais e/ou funcionais do sistema nervoso central do bebê. 

Se foi isso ou não que levou Cyntoia a ter problemas emocionais nunca se comprovou. O certo é que com 16 anos ela saiu de casa. Nas ruas Brown conheceu Garion McGlothen Jarvis. Começava a vida marginal da menina. 

 

Uma garota de programa

 

Garion era um cafetão em Nashville, no Tennessee, famoso pelo apelido de "Corta Garganta". Ele tinha 24 anos quando transformou Brown em uma nova escrava sexual. A convivência entre os dois durou cerca de três semanas. Nesse período a garota sofreu vários tipos de mau trato. As agressões físicas eram constantes. O cafetão ainda passou a estuprar Cyntoia seguidamente, além de obrigá-la a se prostituir e a consumir drogas.  

No dia 6 de agosto, a garota foi “vendida” para fazer programa com Johnny Allen. O "Corta Garganta" cobrou US$ 150 pelo serviço de sua serva. 

Allen, com 43 anos, era um corretor de imóveis e veterano do exército dos Estados Unidos. Os dois se encontraram no estacionamento de um Drive-In e depois de jantar foram para a casa de Johnny, em Mossdale Road. Foi lá que aconteceu o assassinato. 

A única versão que existe é a de Brown. Ela conta que já estava amedrontada ao ver várias armas de fogo por toda casa quando se assustou com um gesto de Allen. 

"Johnny estava me acariciando, depois me agarrou entre as pernas muito forte. Ele me olhou de um jeito, tipo, um olhar muito feroz, e eu senti um calafrio. Achei que ele ia me bater ou fazer alguma coisa assim comigo. Mas aí, ele rolou para o lado e se esticou. Então, achei que ele não ia me bater, achei que ele ia pegar uma arma", afirmou a garota em seu testemunho. 

Enquanto esteve na casa, a meretriz conta que sofreu vários abusos e foi violentada. O crime se deu em um momento que Allen poderia estar dormindo. Ela sacou um revólver calibre 45 e apertou o gatilho. A bala entrou na cabeça da vítima. Antes de se mandar do local, Cyntoia ainda pegou a carteira do homem com US$ 172, duas armas de fogo e a camionete dele, uma Ford Modelo F-150. 

A adolescente acabou presa e acusada de assassinato premeditado. O homicídio foi agravado com o roubo de bens materiais. 

Com base na posição em que o corpo foi encontrado, os investigadores defenderam a tese de que o ex-combatente dormia, já que estava deitado com as mãos debaixo da cabeça. 

 

                       A prostituta que matou seu "dono" nos EUA vai sair da cadeia                           
                           O ex-militar Johnny Allen assassinado por Cyntoia Brown

 

A promotoria também sustentou que o ato era um homicídio motivado pela intenção de Brown roubar Allen para não voltar ao encontro do cafetão de mãos vazias. O latrocínio teria sido premeditado. 

Cyntoia nunca negou ter atirado propositalmente, mas sempre se defendeu alegando ter sido um ato em legítima defesa. Ela afirmou que foi ameaçada pelo homem que a maltratou fisicamente, e confirmou que pretendia penhorar os rifles que carregou da casa. 

Sobre a vida como prostituta, a jovem explicou que sofria ameaças do traficante Garion, dizendo que a mataria se ela tentasse fugir. A garota alegou que não o abandonou também porque o cafetão sabia onde a mãe adotiva morava e temia que algo acontecesse a ela.

A Corte não se sensibilizou com a história. O juiz condenou a garota a uma pena de prisão perpétua, sem direito à liberdade condicional antes de 2055, quando ela já teria 67 anos.  

Brown passou a cumprir a pena na Prisão do Tennessee para Mulheres, um centro de detenção de segurança máxima em Nashville. 

Há quase quinze anos guardada atrás das grades, ela se licenciou em um programa especial para presidiárias e viu sua história se tornar um documentário, Me Facing Life: Cyntoia's Story

 

Condenação injusta?

 

Se o Tribunal não teve dúvida sobre a crueldade da ré, grande parte da opinião pública dos Estados Unidos nunca se conformou com a condenação. Artistas e celebridades questionaram diversas vezes a culpa de uma jovem de 16 anos, menor de idade, ameaçada dentro de uma casa e que teria se defendido para não morrer.

A modelo e apresentadora de televisão Kim Kardashian, a atriz Cara Delevigne e as cantoras Rihanna e Lauren Jauregui são algumas das famosas que saíram em defesa de Brown, sob a alegação que os anos de abuso e a prostituição forçada na juventude nunca foram levados em consideração. 

"O sistema fracassou. É de cortar o coração ver uma jovem ser traficada e, quando toma coragem de lutar, é presa!", disse Kardashian em seu perfil no Twitter.

Rihanna condenou a Justiça dos EUA. "Nós mudamos a definição de justiça? Algo está terrivelmente errado quando o sistema deixa que esses estupradores passem ilesos, enquanto a vítima é presa!", escreveu a pop star no Instagram. 

"Que p#rr@ de justiça é essa? Eu me pergunto se esse homem de 43 anos teria sido preso, se ele enfrentaria o resto da vida dele na prisão. Mas, infelizmente, ele não teria. Nós precisamos parar de punir e envergonhar as vítimas, dizer a elas que a culpa é delas é mentira", tuitou Lauren Jauregui.  

Já Cara Delevingne mandou essa: "o sistema da justiça é tão ultrapassado! Isso é completamente insano".

Assim, o assassinato de Johnny Allen e a pena de Cyntoia Brown estão sempre a ocupar espaço nos noticiários americanos. 

No dia 12 de dezembro de 2017, o detetive da polícia Charles Robinson, que testemunhou no julgamento, enviou uma carta ao governador do Tennessee, Bill Haslam, pedindo para que não fosse concedida clemência a Brown. 

"Em primeiro lugar, Cyntoia Brown não cometeu esse assassinato porque ela era uma escrava sexual infantil, como seus defensores gostariam que você acreditasse. O motivo de Cyntoia Brown ter assassinado Johnny Allen durante o sono foi um assalto", argumentou Robinson. 

No dia 6 de dezembro de 2018, a Suprema Corte do Tennessee emitiu uma decisão sobre o caso, afirmando que Brown seria elegível para liberdade condicional depois de cumprir 51 anos de prisão. 

Mas a comoção para livrar a jovem foi maior. 

Na última segunda-feira, 7 de janeiro, o governador Haslam comutou a sentença de prisão perpétua de Cyntoia Brown para 15 anos de prisão, mais 10 anos de liberdade vigiada a partir de 7 de agosto de 2019. 

Isto é, no segundo semestre ela já poderá deixar a penitenciária, mas ficará sob liberdade assistida e terá de cumprir requisitos e obrigações estabelecidas pela Justiça local.

"Cyntoia Brown cometeu, por sua própria admissão, um crime horrível aos 16 anos. No entanto, impor uma sentença de prisão perpétua a um jovem que exigiria que ela cumprisse pelo menos 51 anos antes mesmo de ser elegível para a liberdade condicional é muito severo, especialmente à luz dos extraordinários passos que Brown tomou para reconstruir sua vida", disse o governador, que finalizou: "Transformação deve ser acompanhada de esperança". 

Ao justificar a clemência, Haslam estava se referindo ao fato de Cyntoia ter conseguido um diploma técnico da Lipscomb University em 2015, que equivale ao ensino médio. Na cadeia ela dá aula para jovens infratores e em maio deverá obter um diploma de bacharel. 

Em um comunicado divulgado por seus advogados, Brown agradeceu ao governador "pelo seu ato de misericórdia em me dar uma segunda chance".  Depois fez as seguintes promessas: “Farei tudo o que puder para justificar sua fé em mim. Com a ajuda de Deus, eu me comprometo a viver o resto da minha vida ajudando os outros, especialmente os jovens. Minha esperança é ajudar outras garotas a não caírem onde eu estive". 

Ativistas e advogados que apoiaram a mulher que hoje tem 31 anos, disseram que seu caso reflete a necessidade de reformas na justiça criminal, particularmente em casos de jovens delinquentes que foram traumatizados e podem ser reabilitados.

Kardashian comemorou no Twitter a clemência concedida a Cyntoia com uma frase de agradecimento: "Obrigado, governador Haslam". 

O ex-cafetão de Brown, Garion L. McGlothen, também conhecido como Gary McGlothen ou "Corta Garganta", morreu em 30 de março de 2005, baleado por um homem chamado Quartez Hines.

 

                A prostituta que matou seu "dono" nos EUA vai sair da cadeia                            
                                        Gary McGlothen ou "Corta Garganta"
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