Se você é mineiro, esteja onde estiver, saiba que o risco de ser uma das próximas vítimas de outra barragem é enorme
A tragédia em Minas Gerais vai ser muito maior

Quando mais se ouve as barbaridades do episódio do rompimento da segunda barragem em Minas Gerais em um período de pouco mais de três anos, mais a gente se assusta com o descaso total das autoridades. A declaração da procuradora geral da república, Raquel Dogde, de que "Minas Gerais tem quase 700 barragens que estão classificadas em razão do risco de rompimento e é preciso garantir que esse risco seja realmente baixo e que essas informações sejam confiáveis", mostra bem o quanto vivemos a margem da sorte. Os tsunamis das barragens mineiras é um verdadeiro caso de polícia. 

O sábado foi medonho. Quanto mais se tomava conhecimento dos detalhes sobre o descaso com a situação das barragens mineiras e o total descompromisso da Vale, que não criou nenhum protocolo para evitar a repetição do rompimento de novos diques, mais a população se convenceu da certeza da impunidade. 

A burocracia brasileira, em conluio com a omissão das autoridades, compõe um verdadeiro lamaçal que nos atola na falta de perspectiva de dias seguros não só em Minas. 

Uma reportagem exibida pelo Jornal Nacional foi de deixar todos os brasileiros apavorados com o que acontece nos estados e com as nossas represas, inclusive as mais próximas a Belo Horizonte. 

O autor do levantamento foi o repórter André Trigueiro. 

O relatório da Agência Nacional de Águas mostra que só três por cento das barragens do país foram vistoriadas por órgãos de fiscalização em 2017. Os números foram divulgadas em novembro do ano passado. 

O Brasil tem hoje 24.092 barragens espalhadas pelas cinco regiões (norte, nordeste, sul, sudeste e centro-oeste. 

De acordo com o último relatório da Agência Nacional de Águas houve um aumento em relação a 2016. O número de represas era de 22.920. 

Mas não se iluda com esse montante. A agência estima que a quantidade seja três vezes maior porque a maioria das barragens do Brasil ainda não foi cadastrada. 

Das barragens listadas no relatório a maior parte é classificada como para irrigação: 9.827. 

Em segundo lugar aparece de criação de animais: 4.245. 

Seguido de represas usadas para criatórios de peixes: 2.702.

O abastecimento de água teria um total de 1.803 reservatórios.

Aqui começa a surgir o grande problema. 790 barragens são para contenção de rejeitos de mineração. 

Existem ainda outras 4.725 para diversos fins. 

Um dado preocupante é que nada menos do que 42% não tem qualquer autorização, outorga ou licenciamento, ou seja, são irregulares, foram criadas e existem até sem conhecimento oficial.  

No Brasil, trinta e um órgãos estatuais e federais atuam na fiscalização. Em todos eles trabalham apenas 154 funcionários. Isso quer dizer que cada um tem em média cerca de cinco funcionários.

Para piorar, apenas 20 dos órgãos fizeram algum tipo de fiscalização em 2017, menos de 70%. 

Para assustar ainda mais, as fiscalizações alcançaram apenas três por cento das barragens, cerca de 780.

Seguindo a letargia desse índice, seria necessário trinta anos para que todas as 24.092 represas cadastradas fossem vistoriadas pelo menos uma vez. 

Alberto Sayao, professor de engenharia de geotécnica da PUC Rio, acha que "falta gente a nível federal e estadual. É preciso compor os quadros de fiscais, aparelhar com carros, aeronaves, helicópteros, equipamentos para se fazer a fiscalização de forma eficiente". 

Sobre os riscos das barragens, Sayao é bem enfático: "Não existe nenhuma estrutura de engenharia com risco zero. Sempre vai haver. É um problema de custo. Quanto você quer pagar para melhorar, diminuir o risco?"

Como em quase tudo no Brasil, o primeiro momento das tragédias mobiliza meio mundo, mas logo depois cai no esquecimento. Depois do rompimento de Bento Rodrigues, os órgãos federais dobraram o número de vistorias. 

Em 2015, foram 197 inspeções. No ano seguinte subiu para 412, mas já em 2017, quando começou a fugir da lembrança do brasileiro, despencou para 263 revistas. 

A redução drástica atingiu também o acompanhamento feito pela Agência Nacional de Mineração (antigo Departamento Nacional de Produção Mineral), exatamente quem mais deveria estar atento e fiscalizando. Em 2016, foram 329 revisões, enquanto em 2017 despencou para 211 visitas. A explicação oficial está na redução do número de operações (que coisa mais óbvia).

Segundo relatório da Agência Nacional de Águas, 723 barragens foram classificadas ao mesmo tempo como de "alto risco e de alto dano em potencial associado". 

A política nacional de segurança de barragem determina ainda que todas as estruturas dentro dessa qualificação deveriam ter obrigatoriamente um plano de emergência. Mas 75% não tem nada. 

Em 2016, depois da tragédia de Mariana, uma comissão no Senado foi criada para discutir o assunto e concluiu que a fiscalização era falha. 

A partir daí foi apresentado um projeto de lei para tornar a política de segurança das barragens mais rigorosa, mas a proposta não chegou a ser votada. Na câmera existem cinco projetos sobre o assunto que estão parados. 

Segundo Maurício Erlich, professor de engenharia civil da Coppe/UFRJ, "a legislação é fundamental. Você tem que aprender com os erros e tomar uma posição no sentido de evitar que esses riscos voltem a acontecer. Obviamente, você endurecer a fiscalização melhora, assim como a punição, porque quem aceita fazer uma determinada coisa (sem segurança) vai pensar duas vezes antes de executar". 

Até sábado à noite o número oficial de mortes já era de 34, quase o dobro da tragédia em Mariana, quando oficialmente foram anunciadas 19 perdas fatais.

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Marcelo Oliveira

Marcelo Oliveira

Infelizmente temos uma herança maldita dessa atividade econo mica tão lucrativa... A tecnologia de exploração evolui, a empresa enriquece, mas ainda não se consegue garantir a segurança das barragens ? Acho que o que falta é dar prioridade a essa questão...
★★★★★DIA 27.01.19 21h50RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Marcelo, é a velha questão de se obter o maior lucro com o mínimo gasto. O tipo de barragem que a Vale faz é a mais barata, chamada de montante quando se usa os próprios rejeitos na formação. Para piorar, quase não existe fiscalização. Abraço.

★★★★★DIA 27.01.19 22h07RESPONDER
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Geraldo Alves do Espírito Santo.

Geraldo Alves do Espírito Santo.

Quando querem reduzir custos, cortam cargos e investimentos que segundo os grandes executivos só agregam custos.
Eliminam exatamente os cargos e investimentos que evitariam que eles causassem os piores acidentes da história do Brasil. O fato destes profissionais e projetos não terem resultados tangíveis para apresentar, significa que eles produziram excelente resultado, pois quando eles não estão lá, acontece Mariana e Brumadinho.
Faltou engenharia de processo, faltou engenharia de análise de riscos, faltou planos de ações e planos de emergências, que no mínimo poupariam as vidas humanas ali perdidas.
★★★★★DIA 27.01.19 21h05RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Geraldo, ainda teremos muitos desdobramentos. A Vale é muito importante porque gera milhares de empregos e receita, mas está correndo um sério risco de virar uma empresa desmoralizada mundialmente. Os engenheiros que estão vindo de Israel vão fazer uma análise sobre os riscos nas demais. Os acionistas devem estar desesperados, mas nada que se compare a dor de quem perdeu seus entes queridos. Grande abraço. 

★★★★★DIA 27.01.19 21h24RESPONDER
Geraldo Alves do Espírito Santo.
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