Dois anos e meio depois da queda do avião da LaMia, única mulher que escapou com vida tenta retomar a carreira profissional
Aeromoça que sobreviveu ao acidente da Chapecoense vai voltar a voar

A boliviana Ximena Suárez foi uma das seis pessoas que milagrosamente sobreviveram ao trágico acidente aéreo. No dia 28 de novembro de 2016, ela se juntou a delegação da Chape em Santa Cruz de la Sierra. Até a cidade boliviana, jogadores, comissão técnica, dirigentes e jornalistas brasileiros tinham viajado em um voo comercial da companhia BoA, que partiu do aeroporto de Guarulhos às 15h15.

De Santa Cruz em diante, o percurso em direção a Medellín foi feito em uma aeronave fretada da empresa LaMia. Ximena trabalhava como aeromoça para os donos do avião que caiu. Apenas duas mulheres estavam a bordo, Suárez e a copiloto Sisy Arias.

O pouso estava programado para o Aeroporto Internacional José María Córdova, em Rionegro, nos arredores de Medellín. Minutos antes de chegar a pista, o avião se despedaçou ao trombar com o cume de uma montanha depois que os motores pararam de funcionar por falta de combustível. Das 77 pessoas a bordo, setenta e uma morreram.

No dia em que o acidente completou um ano, Ximena Suárez lançou um livro com o título "Voltar aos céus". A comissária de bordo narrou episódios da infância e da adolescência, a experiência dela como tripulante e o contou detalhes da tragédia do voo 2933.

"Era um ambiente de festa, tão feliz. As pessoas estavam muito eufóricas, com vontade de vencer a partida", relembrou.

Como o avião já estava em procedimento de aterrissagem, Suárez se sentou na parte de trás da aeronave, ao lado do técnico de voo Erwin Tumiri, que também escapou da morte.

"Eu estava na parte posterior da cabine. Não chegaram a nos avisar de nada. A gente também não chegou a escutar se havia ou não problemas. Eu esperava uma aterrissagem segura que, infelizmente, não aconteceu. Sentimos em uma fração de segundos apagando os motores, as luzes e veio tudo", relatou.

Ximena foi encontrada consciente em meios aos destroços com múltiplos ferimentos pelo corpo e fraturas na mão direita e no tornozelo direito.

"Eu senti que Deus disse: 'tiro você e agora lutamos'. Foi assim que senti. Tinha que lutar pelos meus filhos, pela minha família, para voltar a vê-los. É um momento que ninguém pode imaginar", disse a aeromoça à BBC Mundo.

Durante dois meses ela precisou ficar hospitalizada. Além dos problemas físicos e emocionais, a boliviana teve dificuldades para pagar as despesas médicas. A companhia seguradora da LaMia cobriu apenas parte do tratamento. Ximena chegou a abrir uma conta para receber doações. Depois que teve alta, ela ainda precisou continuar com fisioterapia no pescoço e no tornozelo, passou por uma cirurgia no nariz e fez implante dos dentes que perdeu na queda do avião.

Suárez explica que contou também com a ajuda dos pais para pagar as contas com o tratamento e para sustentar dois filhos pequenos, que tinham dois e seis anos. Ela é mãe solteira.

"Agora preciso de remédio para dormir. As imagens do acidente vêm à minha mente. Acordo com pesadelos, me vêm imagens da tripulação, dos passageiros que estavam tão felizes", explicou quando já estava em casa.

Mesmo com todos os problemas, Ximena ainda teve que enfrentar a desconfiança de muita gente. Nas redes sociais ela foi chamada de oportunista, e acusada de estar se beneficiando por ser vítima do acidente.

"Disseram que era melhor que eu tivesse morrido, que eu estava me aproveitando de pessoas de bom coração, perguntavam por que eu não ia trabalhar", disse.

Não foi tão fácil assim retomar a rotina. Suárez tinha voado durante oito anos, mas depois do desastre ela encontrou dificuldades em encarar novamente os aviões.

"Meu sonho sempre foi voar. É nisso que estou trabalhando com a ajuda de um psicólogo, porque não sei se consigo voltar a entrar num avião. Essa é a minha paixão", explicou a angústia.

 

Finalmente, o reencontro

 

A volta ao trabalho aconteceu em outra empresa aérea. A comissária primeiro atuou na função de agente de tráfego aéreo na companhia Amaszonas. Foram meses em terra firme, mas já convivendo de novo com o ambiente de aviões e aeroportos. Essa semana Ximena usou a conta dela no Facebook para fazer a revelação sobre o retorno à antiga atividade. Antes, ela terá que passar por um período de treinamento para receber a promoção.

"Voltando! Treinamento!", escreveu Suárez. Ela ainda postou três fotos ao lado de um piloto e outras aeromoças da empresa aérea boliviana. Nas imagens é possível ver Ximena usando o uniforme da empresa.

O escritório local da companhia parabenizou a nova comissária de bordo também em uma postagem no Facebook.

"Ximena Suarez volta a voar e sonhar.

A Amaszonas parabeniza Ximena Suarez Otterburg por se encontrar em estágio de capacitação, treinamento e certificação para tripulante de cabine em nossos aviões. Ximena cumpre o seu sonho de retornar a voar, porque quando amamos o que fazemos, o amor se impõe à adversidade. #Soñemosjuntos", diz a nota 

 

Aeromoça que sobreviveu ao acidente da Chapecoense vai voltar a voar

Antes de voltar a trabalhar com aviação, Suarez se arriscou também na carreira de modelo. Ela chegou a fazer fotos para lojas de roupas e empresas.

 

Aeromoça que sobreviveu ao acidente da Chapecoense vai voltar a voar

 

Em homenagem aos mortos da Chape, a aeromoça fez uma tatuagem. "É um símbolo do que passei. Uma ferida aberta. Ferida que, lamentavelmente, nunca vou curar por completo, sempre vai estar aí. E também uma forma de homenagear cada pessoa que estava neste voo. Afinal, o avião está indo para o céu, que é onde Deus quer que eles estejam", disse ao site O Lance.

 

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