A ideia de se criar um árbitro assistente de vídeo (Video Assistant Referee) é reivindicada por um espanhol e por um boliviano que até hoje não ganharam nada pela invenção
Afinal, quem inventou o VAR e como os lances polêmicos são analisados

Se a regra é clara, como diria Arnaldo Cézar Coelho, quem revolucionou a avaliação dos lances polêmicos de um jogo não está muito certo.

De dois continentes, que devoram futebol 24 horas por dia, surgiram os prováveis pais desse filho prodígio. Um tá lá na Europa. Outro é nosso vizinho na América do Sul. O espanhol garante que em 1999 apresentou a ideia do recurso visual para o Ministério de Educação e Cultura do país dele. Já o boliviano afirma que a proposta original foi desenvolvida por ele em 2004.

A FIFA nunca admitiu abertamente ter adotado as sugestões de um ou de outro. A entidade máxima do futebol alega que desenvolveu um sistema próprio. Como se tornou um sucesso - em algumas partidas tem sido mais vedete do que os próprios jogadores -, o VAR virou motivo de guerra sobre a sua verdadeira paternidade.

Francisco López foi o primeiro a dar o grito quando a tecnologia passou a fazer parte dos jogos da Copa do Mundo. Assim que viu a repercussão do uso das imagens para dirimir as dúvidas dos árbitros na Rússia, ele se apresentou na imprensa com uma história cheia de detalhes.

López conta que há 20 anos bolou um sistema de comunicação entre os árbitros e experimentou o modelo com vários profissionais de futebol. O espanhol fez até uma apresentação na Cidade Universitária de Madrid. A inspiração dele surgiu a partir da observação de outras modalidades esportivas que "tinham sistemas de comunicação para falar com os desportistas", como o ciclismo e o automobilismo.

Convencido de que poderia revolucionar o esporte mais popular do mundo, Francisco levou seu projeto ao Ministério de Educação e Cultura com um título bem audacioso: O futebol no século XXI (Tecnologia de futuro para as equipes de arbitragem).

Para que o trabalho de López tivesse ainda mais credibilidade, e fosse adotado no mundo inteiro, ele alega que procurou o ex-árbitro José Maria García Aranda, que na época fazia parte da FIFA e era ligado ao antigo vice-presidente da entidade, Ángel María Villar. Mas a tentativa não teve sucesso.

"Registrei a ideia no Registo de Propriedade Intelectual, em 1999, e a sua ampliação foi inscrita em 2006. Apresentei as ideias à FIFA, UEFA e Federação Espanhola de Futebol (FEF), e posso comprovar pelo meu correio eletrônico. Enviei a ideia em 1999 e, desde então, todos os anos até 2007", conta.

A bronca de Francisco extrapola a falta de sequência nas conversas. O patrono do VAR reclama que o estudo dele foi quase todo plagiado no maior descaramento. "Eu desenvolvi o sistema e a única coisa que García Aranda fez foi copiar toda a informação. Tenho cópias de um monte de e-mails que troquei com ele. Recordo-me que ele me disse que para apresentar o projeto inicial à FIFA, teria que retirar todos os logotipos da minha empresa. Quando lhe disse que tínhamos que fazer um contrato de confidencialidade, este deixou de existir. Toda a informação que enviei é exatamente igual ao VAR atual”, explicou.

López admite que apenas uma sugestão não foi adotada. "É tudo igual. Só há uma diferença. Para detectar um gol ‘fantasma’, eles utilizam um microchip dentro da bola, e eu planejava colocar câmaras de alta resolução nas balizas para saber, com exatidão, se a bola entrava ou não", argumentou.

Francisco ainda inscreveu o projeto no Espaço Schengen, que abrange 26 países. Como a FIFA mesmo assim adotou o VAR, sem dar nenhum crédito ao espanhol, ele resolveu entrar na justiça. López quer uma baita indenização. "Vou exigir 15 milhões de euros, cinco anos a três milhões por ano. Tenho todas as provas. Não queria nada, nem um euro, mas o egoísmo com que age a FIFA... Com uma só chamada para mim eles teriam resolvido tudo, mas o ego é maior", afirmou o espanhol ao jornal Marca.

 

O boliviano que também reclama

 

A versão do engenheiro civil Fernando Méndez Rivero tem algumas coincidências. Ele também reclama de pouco caso da FIFA, que não deu nenhuma bola ao projeto que o boliviano desenvolveu.

Rivero teria tido a ideia do VAR quando voltava para casa de cabeça quente depois de uma derrota do time de coração, o Oriente Petrolero. O embate tinha sido contra o Blooming, um clássico de tradição no país. Para Fernando, os erros da arbitragem foram decisivos no placar final. Ele queria que os equívocos do trio nunca mais interferissem no resultado. Isso aconteceu em 2004.

"Eu gastei muitos meses da minha vida fazendo esse projeto, usando programas de computador como o Autocad, por exemplo. O VAR, que vocês viram na Copa do Mundo, é uma ideia minha", garantiu Rivero.

Para atestar que não ficou apenas no mundo das ideias, o engenheiro espalhou o conceito do VAR por várias partes do planeta.

"Não é que eu montei o projeto e engavetei. Enviei para 40 federações nacionais de outros continentes e para dez da América do Sul. Então, é claro que as autoridades do futebol conheciam o assunto. Tenho também um documento da Federação Boliviana de quando o apresentei", revelou.

Como nunca recebeu nenhuma sinalização da FIFA de reconhecimento, em agosto do ano passado Fernando alega que foi até a sede da Conmebol, em Luque, no Paraguai, e entregou um dossiê do invento dele. "Seria lindo a FIFA reconhecer que uma ideia que revolucionou o futebol veio de um engenheiro desconhecido da Bolívia. Seria muito bom para toda a América do Sul", explicou.

No caso de Rivero, leia-se também dinheiro. Ser admitido como o “pai” do VAR é apenas um dos pontos que ele reivindica. O boliviano quer também uma "plata" considerável por cada entidade que utilizar o árbitro de vídeo em suas competições. O valor? 500 mil dólares.

"O que eu quero é o reconhecimento do meu trabalho e que a FIFA não roube a minha propriedade intelectual", disse.

A indenização poderia chegar na casa de 100 milhões de dólares, aproximadamente R$ 390 milhões.


A primeira prova de fogo

 

Bem antes da Copa do Mundo de 2018, seja lá adotando qual modelo, o VAR foi experimentado em algumas competições. A primeira vez teria sido em uma partida da Major League Soccer, a Liga americana e canadense de futebol em 2016.

Os jogos do mundial de clubes daquele ano também tiveram um monitor na beira do campo para os árbitros darem uma espiada em lances. Mas foi na Copa do Mundo da Rússia, em 2018, que a engenhoca eletrônica funcionou cheia de requintes, e pegou pra valer.

Para seu conhecimento, no mundial o sistema foi acionando 335 vezes. Mas calma lá se você tem certeza que não viu os jogos terem sido interrompidos tanto assim. É que em apenas 17 lances o árbitro principal interrompeu a partida para consultar o monitor. Isso em 62 jogos. As outras situações foram verificadas pela equipe interna do VAR.

Para entender como funciona o Video Assistant Referee, vão aqui algumas explicações.

Quatro assistentes ficam em uma cabine ou local reservado do estádio. O grupo é formado pelo que se convencionou chamar de VAR, AVAR1, AVAR2 e AVAR3. Antes que você conheça a função de cada um, é preciso dizer que nem todos os lances são examinados. Apenas os gols, faltas na área, aplicação de cartões e identificação de jogadores em caso de confusão merecem a análise através do recurso.

O principal fica de olho em tudo. A missão dele é a de checar os lances e fazer a comunicação com o árbitro de campo.

O AVAR1 dá para a gente chamar de o "assistente do assistente". Ele observa a câmera principal e avisa ao VAR quando percebe algo. Vamos à obrigação do AVAR2. É ele que toma conta dos impedimentos.

O AVAR3 assiste aos lances em ângulos diferentes pelas câmeras espalhadas em volta do campo e auxilia o VAR na interpretação. Mas nem todas as competições têm esse assistente.

 

Afinal, quem inventou o VAR e como os lances polêmicos são analisados

 

Empolgado, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, chegou a definir o uso do VAR com a seguinte declaração: "Interferência mínima, máximo benefício".

Atualmente esse conceito também parece merecer uma revisão. Na Copa do Mundo Feminina, que está sendo realizada na França, o árbitro assistente de vídeo tem sido tão decisivo ou mais do que as jogadoras. Na eliminação da seleção de Camarões pela Inglaterra, a confirmação do segundo gol das britânicas com o uso do VAR gerou tamanha revolta pelas africanas que elas se recusaram, durante um bom tempo, a reiniciar a partida.

A tecnologia foi corretamente usada, mas pela primeira vez o VAR foi acusado até de ser preconceituoso. A interferência não é mais mínima, como disse Infantino. Foi uma mudança que mudou a história do futebol.

 

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