A realização do grande jogo da final da Libertadores em outro país é a maior derrota que o futebol da Argentina já sofreu
Argentina, um país que não dá conta nem de organizar uma final de Campeonato

O orgulho dos argentinos, o mundo conhece. Se tem um povo que ama a sua pátria de verdade é aquele lá. Eles são inflamados também para discutir um monte de assunto, mas, principalmente, sobre futebol. E não tem essa de ser somente quando se trata de clássico contra o Brasil ou River Plate e Boca Juniors. Qualquer jogo local é motivo para um acalorado debate. Se você acha exagero, vá a Buenos Aires ver uma partida entre Independiente e Racing ou San Lorenzo e Huracán. Eles são muito inflamados. Quando o tema é a soberania nacional pode ser ainda mais caliente a discussão. O argentino defende com unhas e dentes o que é deles. Essa paixão tem um lado positivo que são as cobranças e as contestações internas. Quando se sentem prejudicado é comum eles irem para as ruas fazerem manifestações. Aí chega a Conmebol e fala que o jogo dos sonhos do país, que envolve 71% da torcida nacional, terá que ser disputado fora da Argentina porque eles não conseguem dar garantias. Imagina como isso dói na alma dos hermanos.  

 

Argentina, um país que não dá conta nem de organizar uma final de Campeonato Boca e River, a grande rivalidade (Foto: REUTERS/Marcos Brindicci)

 

Um país tonto e uma Conmebol perdida

 

A decisão foi tomada quase três dias depois da bagunça em Buenos Aires com o ônibus do Boca sendo apedrejado. A Conmebol, em mais uma atitude incoerente, agora não quer o jogo na capital argentina por questões de segurança. Mas como se no sábado, quando os jogadores Xeneizez já estavam no vestiário do Monumental ela fez de tudo para ter a partida? E não foi a própria Confederação que remarcou o jogo para o domingo?

Vindo de Assunção se pode esperar de tudo. Mas não pensem que isso foi uma decisão equilibrada e espontânea dos dirigentes da Conmebol. Não tenha dúvida de que muita gente se meteu nessa história. Não seria surpresa saber que a FIFA enfiou o dedo dela nessa ferida. Afinal, já imaginou se a decisão é mantida para o mesmo estádio e acontece algo pior? O velho ditado "prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém" deve ter entrado na cuca dos dirigentes. O jogo ainda vai ter o dia e o local confirmados. Agora é esperar que a organização e a segurança estejam a altura do clássico.

Já quanto a Argentina.... O país sofreu um duro golpe. O presidente Maurício Macri andava furioso na segunda-feira. O que ele alega na Casa Rosada é muito parecido com o que se passa no Brasil também.

Macri responsabiliza em parte a demora pela aprovação de um projeto de lei que prevê penas duras para quem comete atos de violência relacionados ao futebol. Mais bravo ainda ele ficou ao tomar conhecimento que 23 pessoas suspeitas da barbaridade do último sábado foram presas e liberadas poucas horas depois.

Olha o desabafo dele:

"Tem de haver um sistema judicial que garanta que quem não cumpra (a lei) vai se dar mal. Como pode ser que detiveram 23 pessoas depois de tudo o que se passou e horas depois essas pessoas estavam livres? Não entendo. Em nome de todos os argentinos, não entendo".

A Polícia tem até os maiores suspeitos em investigação. Eles acreditam que integrantes dos Borrachos del Tablón, uma famosa organizada do River Plate, estejam envolvidos na quebradeira. Na véspera do jogo 300 ingressos da decisão tinham sido apreendidos na casa de Hector Godoy, o Carvena, um dos principais líderes dos barras bravas. A investigação tenta descobrir se dirigentes do clube tem algum envolvimento com desvio.

É por essas e outras que Macri está fulo da vida.

O presidente entendia ainda que a segunda partida deveria ser realizada, sim, em suas terras, o que era o mínimo que o governante de um país tem que defender, mas ele perdeu essa queda de braço com a Conmebol.

A vida de Macri não anda mesmo nada fácil. Uma semana antes da zoeira em Buenos Aires, finalmente os argentinos tinham encontrado o submarino desaparecido há um ano. O sucesso da descoberta foi graças a uma empresa particular americana que tem muito mais equipamentos de busca e tecnologia de ponta do que toda a marinha da Argentina.

Sem dinheiro para continuar bancando as operações de resgate, duas semanas depois do desaparecimento da embarcação em 2017, o governo havia suspendido quase todos os esforços de procura. Mas esse ano as família dos tripulantes do Ara San Juan acamparam em frente à sede da presidência e só se retiraram depois de um novo acordo para que as buscas fossem retomadas.

O governo Macri fez, então, um contrato de risco. Só se a empresa americana encontrasse o submarino eles receberiam algum dinheiro.

Por sorte ou azar do governo o submarino foi localizado e agora os americanos tem direito a sete milhões e meio de dólares, algo em torno de 35 milhões de reais. E pior do que ter que abrir o cofre a Força Armada ainda precisou vir a público para dizer que a Argentina nem desconfia como se faz para tirar ARA de uma profundidade de 905 metros. 

 

Argentina, um país que não dá conta nem de organizar uma final de Campeonato Submarino ARA San Juan (Foto: Fabián Simi)

 

Ser presidente de clube é bem mais fácil

 

Macri deve estar sentindo muita saudade dos tempos em que foi presidente do Boca Juniors. Ele ficou doze anos no cargo e ganhou 17 títulos, sendo 11 internacionais. Por isso, é considerado o maior da história do clube.

Hoje, Maurício Macri é o presidente do segundo mais importante país da América do Sul, mas administra uma estrutura capenga. Uma nação que foi capaz de mandar ao mar um submarino velho, que tinha passado por uma meia sola e com 44 pessoas a bordo, mas que não soube nem procurar a turma quando ela se perdeu.

A economia é outra tragédia, está em frangalhos. A inflação subiu 40% nos últimos 12 meses enquanto as taxas de juros ultrapassaram a 70% ao ano, com o peso desvalorizando cerca de 50% em relação à moeda americana. Em junho, o país foi ao FMI pegar mais 50 bilhões de dólares em crédito.

Se não bastassem todas essas dores de cabeça, agora a Argntina não dá conta de garantir a segurança de uma partida final de Campeonato.

Imagina isso para o orgulho deles. É mais ou menos como se o seu time tivesse perdido de goleada no domingo e na segunda você precisasse ir para a aula ou trabalhar tendo que suportar os rivais debochando da sua cara. Entendeu? O sentimento de humilhação custa para passar, não é verdade?

Eles fizeram de tudo para ter uma final com os dois grandes rivais. Agora vão ter que fazer muito mais para que o mundo volte a acreditar na competência dos hermanos.

 

Argentina, um país que não dá conta nem de organizar uma final de Campeonato Presidente Maurício Macri (Foto: divulgação assessoria de imprensa)

 

*A foto da capa do presidente Maurício Macri é de autoria de Marcelo Baiardi e Tony Valdez

 

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