A fatalidade da morte do jornalista Ricardo Boechat levou o país a conhecer duas cidadãs que conquistaram a admiração de muita gente
As duas mulheres que deram lições ao Brasil

Dona Mercedes Carrascal e Leiliane Rafael da Silva talvez nunca fiquem frente a frente. Mas as duas mulheres acabaram se tornando personagens especiais em meio a uma triste história que envolveu as duas. Cada uma do seu jeito, em momentos de desespero, tiveram gestos e palavras comoventes: a mãe que soube com dignidade aceitar a partida do filho e a desesperada carona de uma moto que correu para salvar vidas. Sem nenhuma pretensão ambas ficaram conhecidas por milhões de brasileiros e mostraram valores que a sociedade não tem o direito de desprezar. 

Só quem já passou por isso conhece a exata dimensão da perda de um filho. Imagino que seja a dor mais insuportável do mundo. Não é assim que deveria ser. Se a natureza não sofresse tantos imprevistos, a ordem natural seria os pais irem embora sempre na frente. 

Mas como o universo é feito também de imprevisibilidades, as surpresas aprontam constantemente para cima de muita gente. 

Com 87 anos, a argentina Mercedes Carrascal, mãe do âncora Ricardo Boechat, provavelmente "viu" o mundo desabar quando soube que seu filho havia morrido em um acidente de helicóptero ao voltar para casa. 

Poucas horas depois do anúncio do desastre, lá estava ela no velório se despedindo do seu bem mais precioso. 

Quem acompanhava as apresentações de Boechat nos telejornais da Band ou no programa de rádio, talvez tenha ouvido ele falar da mãe alguma vez. Ricardo costumava cita-la em seus comentários quando queria se referir a indignação da população diante de um fato. 

Agora chegara a hora do inverso. Ao ser entrevistada para dar um depoimento sobre o filho, dona Mercedes brindou os telespectadores com diversas declarações marcadas por generosidade, compreensão e ensinamentos, mas também de indignação. 

Sobre o famoso Ricardo, a mãe imaginou que nem ele talvez soubesse que era tão querido:

"Ele ia ficar assombrado com a quantidade de gente que demonstrou carinho por ele. Ele não fazia as coisas solicitando recompensa. Eu fiquei de boca aberta com os depoimentos das pessoas de todas as classes sociais sobre o meu filho". 

"Eu tenho muito orgulho do homem que ele foi. Um homem honesto, correto, sincero. Fazia a verdadeira caridade, sem demonstração, esse respeito de que somos todos iguais".

Muito provavelmente Ricardo Boechat não era uma unanimidade. Mas o coração de mãe não tem dúvidas de que criou um homem de dignidade:

"Era um homem que falava com o faxineiro, com um mendigo de rua, com o mesmo carinho que falaria com qualquer outra pessoa".

Por fim, antes de encerrar a entrevista por conta própria, dona Mercedes mostrou de quem o Boechat herdou o forte perfil politizado: 

"Não existe uma raça superior. Tem tanto valor um porteiro quanto um médico, porque cada um desempenha o seu trabalho com dignidade e cada um é importante para toda a sociedade". 

"Nós não vamos acabar com os problemas sociais enquanto não mudarmos nossas cabeças e exigirmos dos que estão acima de nós, que querem mandar, respeito que o povo tem que ter e merece ter. Tem que nos dar respeito, e não caridade pública, mas respeito".

"Hospitais que nos atendam com decência. Colégios públicos que sirvam para as crianças irem aprender realmente para poder crescer. Trânsito ordenado. Não é porque o meu carro é melhor que o seu que eu vou passar na frente. Eu acho que temos muito o que aprender", concluiu.


A guerreira

 

Leiliane Rafael da Silva já tinha se transformado singelamente em uma espécie de heroína ao ser filmada por celulares tentando abrir à força a porta do caminhão. 

A vendedora de 28 anos merecia com esse único ato de bravura o reconhecimento de toda a opinião pública. Mas ela se tornou ainda mais admirada sem que outros fatos tivessem  nenhum registro de imagem.

Leiliane conta que chegou a se aproximar dos destroços do helicóptero em chamas e pensou em puxar Ricardo Boechat pelo braço. Foi impedida por outras pessoas que passavam pelo local. 

As atitudes de coragem e determinação dela se assemelham a outra grande luta pessoal. 

Leiliane tem uma doença rara, conhecida como malformações arteriovenosas. O portador da MAV apresenta uma ligação anormal entre artérias e veias, geralmente no cérebro ou na coluna vertebral. Os enfermos devem evitar estresse e esforços físicos.

Apesar das recomendações médicas, Leiliane não pensou duas vezes em socorrer o motorista João Adroaldo. "Eu sempre fui forte, não senti o peso da porta do caminhão. Já trabalhei como ajudante de pedreiro e carreguei muito saco de cimento", justificou em entrevista ao site da Veja.

Os pais viram as imagens da filha na cena do acidente com enorme preocupação. 

"Ela não podia fazer esforço, não podia pegar peso. Dei bronca nela que ela não poderia ter feito, mas só de pensar que ela salvou uma vida, fiquei orgulhosa", disse a mãe Luciene da Silva, ao site G1.

"Ela não podia ter feito o que fez porque ela poderia ter ido [morrido] ali também. Mas era uma vida e ela conseguiu salvar essa vida", falou o pai, senhor Humberto dos Santos. 

 

A luta pela vida 

 

O pesadelo de Leiliane começou no final de 2018. Um mês antes ela havia se tornado mãe pela quarta vez com o nascimento da filha Livia. 

"Já tinha tido minha filha e, em novembro, comecei a sentir que estava doente. Começou a adormecer o braço direito, depois a perna direita, depois a voz começou a ficar enrolada, até eu ter a convulsão e ir parar no hospital. Ninguém sabia o que eu tinha", contou a vendedora.

O diagnóstico exato demorou a sair, enquanto a família levava um susto atrás do outro. "O primeiro hospital chegou a chamar minha família e falar que eu tinha um tumor cerebral maligno e que eu não tinha chance de vida", relembra a recente mamãe. 

Até que veio a explicação definitiva. "Os médicos falaram que sentiam muito por mim, por eu ter 28 anos, três filhos. Aí descobri que tinha a doença chamada MAV, que dizem que é mais perigosa que um câncer, porém, tem tratamento", explicou.

Quanto mais se inteirava sobre a doença, mais ela se assustava com o que estava vivendo. "Minha filha nasceu com 4 quilos de parto normal, que durou 25 minutos. Quando sentei numa cama para exames na recepção, a criança nasceu em cima da cama. Os médicos chegaram e ela já tinha nascido. O médico até falou que o esforço do parto poderia ter provocado a minha morte", recorda.

Mas nada tirou a esperança de Leiliane. "Não vou morrer agora, não vou mesmo. Tenho 28 anos e se as veias não estouraram até agora, não vão estourar mais. Quero viver, quero ver meus filhos crescerem, quero ver netos. Tenho de durar muito tempo, pelos menos até uns 70 anos", conta cheia de otimismo.

De novembro até hoje ela se internou cinco vezes para fazer a cirurgia, mas em todas as ocasiões o procedimento foi adiado. A salvação de Leiliane pode ter surgido exatamente por causa do acidente do helicóptero. Um médico que viu as imagens que rodaram nas redes sociais e nas tvs tomou conhecimento da história da "mulher do caminhão".

"Fui procurada por um médico neurocirurgião que se ofereceu para fazer o meu tratamento e até a minha cirurgia. Ele disse que eu só precisaria encontrar um hospital para isso. Passei por consulta com ele nesta quarta-feira", explicou. 

No dia seguinte Leiliane recebeu o apoio também da ONG Amáveis, que auxilia pessoas com MAV. A Organização Não Governamental já ajudou quarenta e oito pessoas a se curarem da malformação. 

Com esperanças renovadas, Leiliane repete sistematicamente a mesma frase quando alguém toca no assunto, sempre com igual coragem: "eu ainda vou viver muito". 

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Rita Nascimento

Rita Nascimento

D. Mercedes me emocionou profundamente. Como mãe tentei mensurar sua dor. Vi a dignidade e serenidade... Lucidez... Admirável a postura dela. Ser humano que nos inspira. Lições vêm de MESTRES. Parabéns! Que venha o consolo por esta perda irreparável.
★★★★★DIA 15.02.19 21h29RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Rita, muito obrigado pelos seus comentários. Participe sempre do blog. Grande abraço.

★★★★★DIA 15.02.19 22h01RESPONDER
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Rita Nascimento

Rita Nascimento

Leiliane em sua fragilidade física demonstrou a grandeza e humanidade que ainda é possível encontrar nos humanos... Coração solidário altruísta não pensou em si e somente na necessidade do outro. O universo providenciou um médico e a cura chegará. O BEM prevalecerá. Parabéns! Há esperança!!!
★★★★★DIA 15.02.19 21h24RESPONDER
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Rita Nascimento

Rita Nascimento

Tem nos faltado notícias alegres . Tem nos faltado esperança nos seres humanos. Ouvindo D. Mercedes em sua dor e dignidade fiquei extremamente sensibilizada e emocionada. Mulher e ser humano incrível! Admirável! Compreende-se ainda mais a indignação de Boechat.
★★★★★DIA 15.02.19 21h19RESPONDER
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Rita Nascimento

Rita Nascimento

Extraordinárias!
★★★★★DIA 15.02.19 21h15RESPONDER
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Jacques Jose Alves Jr.

Jacques Jose Alves Jr.

Todas merecem referências, mais ainda Professora Heley de Abreu Silva Batista que deu a vida para salvar crianças do incêndio em Janaúba. Heroína, merece ser lembrada e homenageada sem medidas.
★★★★★DIA 15.02.19 15h59RESPONDER
Rita Nascimento
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Jacques, muito bem lembrado. São pessoas que deixam suas vidas marcadas nessa existência pelos seus atos de bravura. Obrigado pela recordação. Grande abraço.

★★★★★DIA 15.02.19 16h04RESPONDER
Rita Nascimento
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José Arnaldo Castro

José Arnaldo Castro

GM. Fiquei muito emocionado quando li as histórias de duas mães postadas aqui por você. A conclusão que tirei é que nem tudo está perdido nesse mundo. Um BRAVO em alto e bom som. Viva as duas mães que em posições diferentes, deram uma lição nesse Brasil que ultimamente está tão perdido e desorientado. Um grande abraço a ambas mães. É o que posso fazer a minha maneira, nesse momento.
★★★★★DIA 15.02.19 13h09RESPONDER
Rita Nascimento
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

José Arnaldo, são duas mulheres de muita coragem e dignidade. Abraço.

★★★★★DIA 15.02.19 13h13RESPONDER
Rita Nascimento
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