Em um país de tradição conservadora foi a solução que elas encontraram para ajudar a família
As irmãs que se passam por homem para trabalhar em barbearia na Índia

O pai das meninas Jyoti e Neha Sharma é o dono de uma barbearia na zona rural de Banwari Tola, uma cidade do estado de Utar Pradexe, no norte da Índia. Em 2014, o senhor Dhruv Narayan adoeceu depois de sofrer um severo ataque de paralisia, e não pode continuar trabalhando. Os problemas financeiros logo tomaram conta da casa. Foi aí que as garotas decidiram assumir o sustento da família. Mas além de dominar o ofício elas precisaram superar o preconceito, já que no país só homem corta o cabelo de homem. Depois de 4 anos, as duas viraram uma espécie de orgulho indiano.

Jyoti e Neha Sharma tinham 13 e 11 anos, respectivamente, quando a família delas mergulhou em um drama. O pai das meninas foi acometido de uma doença que começou a paralisar o corpo e o deixou de cama. Não teve jeito. O senhor Dhruv Narayan teve que se afastar do trabalho. Com a forçada aposentadoria do chefe da casa, era preciso fazer algo para eles não morrerem de fome.

No começo, a barbearia permaneceu fechada, mas à medida que as economias da família evaporavam, as meninas decidiram assumir a missão de atender aos tradicionais fregueses do pai. Não deu muito certo. Enquanto alguns homens se mostraram céticos em fazer a barba com garotas, outros as tratavam mal. Afinal, aceitar uma mulher que aparasse bigodes e cortasse o cabelo era algo inimaginável para os indianos de Banwari Tola.

A caçula conta que uma vez um cliente perguntou seu nome. "Eu disse: Neha Sharma. Ele se desculpou, mas disse que não me deixaria cortar seu cabelo se soubesse que eu era mulher", lembra.

Rapidamente, o declínio dos Narayan se tornou visível para todo mundo.

Era preciso fazer algo rápido para colocar comida na mesa da família e sobreviver. Além das despesas normais do dia a dia as adolescentes tiveram que absorver os custos do tratamento do patriarca, e a barbearia continuava sendo a única fonte de renda que elas ainda tinham.

A solução encontrada pelas corajosas empreendedoras nasceu dentro do próprio negócio que elas tocavam. As duas decidiram cortar o cabelo bem curto para se parecerem com homens. A caracterização masculina de Jyoti e Neha para que pudessem "enganar" os frequentadores da barbearia prosseguiu. Elas passaram a andar com um tipo de pulseira de aço inoxidável, normalmente usada por homens indianos. A terceira mudança foi no nome. As garotas assumiriam os codinomes masculinos de Deepak e Raju.

"Os clientes não se comportaram bem conosco e, por isso, decidimos mudar toda a nossa apresentação para que ninguém nos identificasse", contou Jyoti em uma entrevista ao The Guardian.

Mesmo assim, continuou difícil a vida delas. A maioria dos moradores da aldeia com cerca de 100 casas conheciam bem a verdadeira identidade dos "novos barbeiros", e zombavam das irmãs.

Elas prosseguiram decididas e resolveram ignorar a tudo se concentrando no trabalho, já que não tinham outra escolha.

Deu certo. Aos poucos, os homens das comunidades vizinhas, que não conheciam a dupla de barbeiros, passaram a frequentar o salão de Deepak e Raju.

 

As irmãs que se vestem de homem para trabalhar em barbearia na Índia

 

Graças ao disfarce as meninas não só mantiveram o negócio em funcionamento como passaram a faturar cerca de 400 rúpias por dia. O dinheiro era suficiente para sustentar a família, pagar o tratamento do pai e ainda bancar os estudos.

Durante quatro anos as jovens viveram esse teatrinho. Mas com o passar do tempo elas se sentiram confiantes em assumir suas verdadeiras identidades. Recentemente, as barbeiras começaram a revelar o segredo delas.

"Agora, conquistamos confiança suficiente e não tememos ninguém", disse Jyoti Kumari. "A maioria das pessoas já sabe que somos meninas, completou a irmã mais velha.

A história delas começou a esparramar pela região. Um jornalista da cidade vizinha de Gorakhpur ficou sabendo da ousadia da dupla e publicou uma reportagem contando como Jyoti e Neha fizeram para superar a desconfiança dos clientes.

Para surpresa de quem temia a descoberta da verdadeira história, a barbearia se transformou em um sucesso. As empreendedoras passaram a ganhar elogios no país todo. Em janeiro elas receberam uma homenagem das autoridades locais pela "coragem e determinação" que tiveram diante da adversidade.

"Sem se incomodar com insultos vindos da sociedade, elas levaram a responsabilidade da família sobre seus ombros e arranjaram meios de subsistência para seus pais, desafiando todas as probabilidades. Esta é uma história maravilhosa, da qual a sociedade deve saber e, de fato, merecem honras. As irmãzinhas são uma inspiração para a sociedade e sua história deve ser contada às massas", disse Abhishek Pandey, funcionário público local, aos repórteres. "Elas são um exemplo brilhante do empoderamento das mulheres e nós recomendamos ao governo do estado para que recebam recompensas adequadas".

O pai das meninas, que só recentemente começou a andar novamente, contou sobre o orgulhoso que sente das filhas. "Elas dirigem a família mostrando o nível mais alto de coragem. Sinto muita dor quando as encontro no trabalho, mas tenho muito orgulho das minhas filhas. Eles retiraram a família da crise", disse Dhruv Narayan.

Atualmente, Jyoti Kumari tem 18 anos e Neha Sharma 16 anos. Para continuar com seus estudos, as irmãs abrem a loja somente à tarde. Jyoti já se formou, mas Neha ainda está na escola.

"Sou uma mulher fazendo o trabalho que seria de um homem. Não gosto, mas não tenho escolha. As pessoas fazem todo o tipo de comentário, mas eu estou focada no meu trabalho", completa Neha Sharma.

 

As irmãs que se vestem de homem para trabalhar em barbearia na Índia

Veja também

Olá, deixe seu comentário para As irmãs que se passam por homem para trabalhar em barbearia na Índia

Enviando Comentário Fechar :/