A decisão mais esperada da história do futebol argentino colocou frente a frente dois times que se odeiam
Boca Juniors e River Plate. A primeira batalha de Buenos Aires vai começar

Falar em rivalidade é pouco quando se está em jogo uma disputa que reúne Boca e River. O Superclássico, como os argentinos gostam de dizer, jamais aconteceu em uma final de Copa Libertadores. A decisão que começa hoje vale muito mais do que apenas um título para o campeão. É uma questão de honra que extrapola o futebol, conceitos, cultura e até ideais políticos. Não é exagero dizer que esse é um jogão que tem ares de uma “guerra” portenha.

Buenos Aires anda vivendo dias de muita euforia desde que foram definidos os finalistas da Libertadores, mas também de muito receio. A rivalidade entre os dois clubes é tão grande que não existe um único cidadão na capital argentina que não se preocupe com o que pode acontecer além das quatro linhas. Por medida de segurança mil e quinhentos policiais foram destacados para trabalhar hoje dentro do estádio do Boca e nas imediações da Bombonera. Isso porque o jogo vai ser de torcida única.

Com receio do que poderia acontecer os clubes se recusaram a receber torcida visitante nas duas partidas, mantendo uma estratégia que vem desde 2013. Nem os pedidos do presidente do país, Maurício Macri, que também já foi presidente do Boca, foram convincentes para dobrar as diretorias de Boca e River que se mostraram intransigentes em admitir as arquibancadas divididas.

Mesmo assim, várias medidas foram tomadas por precaução. Apesar da previsão de temporal para a hora do jogo o torcedor não vai poder nem levar guarda-chuva por ser considerado um objeto “perigoso”.

“O guarda-chuva é importante, pois se prevê um dia com chuva, mas não vão poder entrar, pois são elementos que podem ser perigosos para a segurança num lugar onde vão juntar 50 mil pessoas”, explicou o Subsecretário de Segurança do Ministério da Justiça, Juan Pablo Sassano.

Outra preocupação é com ingressos falsos e a possibilidade de invasão, já que muitos torcedores não conseguiram comprar os bilhetes que se esgotaram rapidamente. O temor é tão grande que os responsáveis pela segurança catalogaram quase quatro mil pessoas vinculadas à violência e que não podem entrar no estádio.

 
Boca e River, tão parecidos e tão diferentes

 

A capital argentina respira futebol o ano inteiro. Essa afirmação não tem nada de exagero. Na região metropolitana existem 36 estádios com capacidade para mais de dez mil pessoas. Dos 28 clubes que disputam a Série A, 18 estão na Grande Buenos Aires. A maioria da torcida é apaixonada por Boca ou River. A soma das duas totaliza 71% dos argentinos.

Os grandes rivais tem mais em comum do que torcidas gigantes. Eles nasceram um do lado do outro, nas margens do Rio da Prata, no bairro operário conhecido como La Boca.

  

Boca Juniors e River Plate. A batalha de Buenos Aires vai começar

 

A proximidade com o rio acabou tendo forte influência nas escolhas dos clubes. O Boca não sabia quais cores usaria em seu uniforme e seus fundadores decidiram que a bandeira do primeiro navio que atracasse no porto de Buenos Aires serviria de inspiração. Como foi uma embarcação suéca eles adotaram o azul e o amarelo. A origem do apelido Xeneizes é devido aos fundadores do clube. O Boca foi criado por imigrantes italianos que vieram da região Zeneixi, mas na Argentina os nativos pronunciavam Xeneizes e pegou.

 

Boca Juniors e River Plate. A batalha de Buenos Aires vai começar 


Já o rival foi batizado com esse nome porque um de seus fundadores, Pedro Martínez, ficava admirado em ver no Porto de Buenos Aires enormes caixas de whisky que vinham da Escócia com o rótulo River Plate.

 

Boca Juniors e River Plate. A batalha de Buenos Aires vai começar

 

Mas o River Plate ficou pouco tempo no subúrbio da capital e acabou se mudando para Belgrano, onde os moradores pertencem a classe média alta. Por isso, o clube passou a ser conhecido como Milionários. O Boca permaneceu no mesmo lugar e se tornou o representante do povão.

Foi o estopim para uma rivalidade histórica entre as equipes.

As diferenças financeiras e sociais dos adversários é sentida até na política do país. Em 1976, a Argentina viveu um dos momentos mais turbulentos da história quando o general Jorge Videla, o almirante Emílio Massera e o brigadeiro Orlando Agosti formaram a junta militar que governou o país após o golpe de Estado que derrubou a presidente Isabelita Perón. Os três militares eram torcedores e sócios do River Plate.

Por quase 20 anos a sanguinária ditadura tomou conta da Argentina. Calcula-se que cerca de 10 mil pessoas tenham desaparecido no regime que durou até 1981.

Os Milionários nunca se manifestaram contra ou a favor dos militares, mas o clube acabou tendo a imagem ligada à direita, enquanto a fama de esquerda ficou associada ao Boca Juniors. 

 

Tragédia no clássico 

 

Em 1968, o Superclássico foi disputado no estádio Monumental de Nuñez e terminou em 0 a 0. Após o jogo, por um motivo que até hoje não se sabe, os portões de saída da torcida do Boca não foram abertos, o que provocou uma enorme confusão. Ao forçar a saída os Xeneizes provocaram uma trágica avalanche. O saldo foi a morte de 71 pessoas e 113 feridos. O episódio ficou conhecido como Puerta 12.

 

Boca Juniors e River Plate. A batalha de Buenos Aires vai começar

 

Títulos e muitas brigas 

 

Boca e River tem uma história também marcada por grandes conquistas. Os Xeneizes ergueram seis vezes a Taça Libertadores e ganharam três mundiais de clubes, em 1977, 2000 e 2003. O River tem um pouco menos, três competições sul-americanas e um mundial, disputado em 1986.

O que mais pesa na acirrada rivalidade entre os dois não é nem tanto a diferença na quantidade de troféus, mas a pecha do River Plate ter sido um dia rebaixado para a Série B. Foi em 2011. Entre os clubes da elite da Argentina apenas Boca Juniors e Defensa y Justicia nunca caíram.

Sempre que podem os torcedores do Boca aproveitam para tirar uma casquinha nos rivais. Na Libertadores de 2015, as duas equipes se enfrentaram também e no jogo na Bombonera os Xeneizes ergueram um drone no estádio que sobrevoou as arquibancadas com um fantasma simbolizando a Série B.

Pela primeira vez Boca e River vão decidir uma Libertadores. Os Milionários tem uma pequena vantagem em poder jogar a segunda partida em casa e, lembrando, será só com torcida vermelha e branca no fogaréu do Monumental de Nuñes. A favor dos azuis tem um retrospecto bem mais favorável. Até hoje, em 370 confrontos, os Xeneizes venceram 134 jogos e perderam 121 vezes para os Milionários. Tem ainda 115 empates o embate entre eles. 

Os dois times chegaram a final ainda carregando a desconfiança se realmente são os melhores América do Sul. Os grandes rivais avançaram até a decisão com várias lances a favor dos argentinos sendo decididos através do árbitro de vídeo. Aqui, não cabe a discussão se foram corretos ou não. Esse assunto já foi vastamente comentando. Para a história do futebol o que vai ficar é o resultado derradeiro da competição. 

Então, se ajeite na cadeira porque daqui a pouco a bola vai rolar e não será apenas para mais um clássico, mas, com certeza, para a maior guerra que Buenos Aires já presenciou no futebol. É esperar para ver.

 

Boca Juniors e River Plate. A batalha de Buenos Aires vai começar

 

Por causa das fortes que caíram em Buenos Aires hoje, sábado, dia 10 de novembro, o trio de arbitragem não deu condições para a realização da partida. O primeiro jogo foi remarcado para o domingo, dia 11 de novembro, às 17 horas. 

 

 

 

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