A novela do novo autódromo do Rio de Janeiro é mais um capítulo de envergonhar uma nação inteira
Brasil, um país que joga bilhões de reais na lata do lixo

Que você já deve estar cansado de ouvir ou ler sobre obras superfaturadas é fácil entender. Esses escândalos estão por toda parte. Na sua cidade, nos vinte e seis estados, no Distrito Federal... pelo Brasil afora. Se bobear, até na sua rua a construção de um viaduto, de uma praça, escola ou hospital público custou um valor muito acima do aceitável.

Os cariocas, então, quase toda semana tomam conhecimento de uma indecência dessa natureza. O estado foi covardemente castigado pelo apetite insaciável de vários secretários e chefes de executivo. Sérgio Cabral e Pezão estão aí, presos, para comprovar do que esses homens são capazes.

Agora surge a história da construção de um novo autódromo na Cidade Maravilhosa. Dessa vez, antes mesmo do primeiro trator iniciar os trabalhos de terraplanagem, a gritaria sobre prováveis fraudes no processo de licitação começaram.

Se você abrir os principais sites de notícias do Brasil vai encontrar um monte de matérias falando sobre a confusão. Se essa história parece cheirar mal, saiba que vem de muitos anos os absurdos sobre autódromos no Rio de Janeiro.

Para entender melhor essa zoeira, vamos voltar um pouco no tempo. Antigamente existia no bairro de Jacarepaguá uma pista para corridas de carros conhecida como Nova Caledônia. Era um autódromo simples, que foi inaugurado em 1966.

Onze anos mais tarde, depois de passar por uma grande reforma, o local abrigou o Autódromo de Jacarepaguá, esse mais moderno e habilitado a receber corridas de Fórmula 1. Entre janeiro de 1978 a março de 1989, o Rio acabou sendo o palco no Brasil de 10 corridas da mais importante categoria do automobilismo mundial.

O autódromo recebeu também provas de MotoGP, Fórmula Indy e uma infinidade de corridas nacionais. Vale ressaltar ainda que, em 1988, Jacarepaguá foi rebatizado com o nome de Autódromo Internacional Nélson Piquet.

Em 1990, as carreiras de F1 voltaram para Interlagos, após a pista paulista ser remodelada com a colaboração do tri campeão Ayrton Senna. Sem a principal corrida no calendário, Jacarepaguá foi ficando de lado. O autódromo ainda ganhou uma sobrevida ao ser adaptado para um circuito oval, que pudesse receber as provas da Indy, mas não foi muito adiante.

O segundo duro golpe veio com a ideia de se construir três arenas para os Jogos Pan-Americanos de 2007 em áreas do circuito. Uma parte da pista precisou ser sacrificada e a curva norte desapareceu do mapa.

 

Brasil, um país que joga bilhões de reais na lata do lixo

 

A mutilação foi suficiente para se enterrar também as provas da Indy, já que a curva que sumiu fazia parte do oval. Por questão de segurança, outros trechos foram abandonados e uma pista menor surgiu para que o autódromo não morresse definitivamente. Do traçado de cinco quilômetros sobrou apenas a parte Sul, com três mil metros.

O tiro de misericórdia foi dado com a escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. O governo alega que estudou várias áreas para construir o Parque Olímpico, mas a melhor opção seria desmanchar o restante do autódromo.

A Confederação Brasileira de Automobilismo bem que tentou brecar o projeto, e chegou entrar na justiça para impedir que Jacarepaguá sucumbisse de vez. Não teve jeito. O que antes era um local de corridas de carro, se transformou em uma moderníssima praça de jogos. E com um preço e bem alto, diga-se de passagem.

Para demolir o autódromo e construir o Parque Olímpico, foram gastos cerca de R$ 1,7 bilhão de reais. Claro que uma parte dessa grana poderia ter ficado nos cofres públicos se não fossem os superfaturamentos.

Nas delações de executivos da Odebrecht na Lava Jato, só o ex-prefeito Eduardo Paes foi acusado de receber 15 milhões de reais em propinas. Ao todo, a Olimpíada brasileira teve um custo estimado de cerca de 40 bilhões de reais.

Muitos defendem os gastos com o Parque Olímpico com o argumento de que ficou maravilhoso o complexo esportivo. Isso é fato. Bonito ficou, mas três anos depois da realização da competição parte das instalações está fechada ou abandonada. O governo hoje fala em prejuízos de milhões por ano. Ou seja, virou o que se convencionou chamar de elefante branco.

O atraso com contas de água chega a R$ 11 milhões. A companhia de energia elétrica cobra uma dívida de R$ 136 mil. O Velódromo, que recebeu as provas de ciclismo e custou R$ 152 milhões, já sofreu dois incêndios e terá que passar por reformas no telhado. O valor estimado dos gastos que a Prefeitura do Rio terá é de R$ 10 milhões. Por causa de infiltrações, o Centro Olímpico de Tênis está fechado. As obras de recuperação foram interrompidas no começo do ano.

A Arena do Futuro, que pelo projeto original deveria ser desmontada para ser transformada em quatro escolas, continua do mesmo jeito. A demora na execução do projeto ameaça a estrutura.

Segundo cálculos feitos na época da criação do projeto, para desmanchar a Arena seriam necessários R$ 80 milhões e mais R$ 106 milhões para levantar as escolas. Detalhe: tudo com dinheiro público.

 

Brasil, um país que joga bilhões de reais na lata do lixo


Deodoro e o novo autódromo


Os argumentos da importância do Brasil sediar uma Olimpíada, e o legado que o parque deixaria para o país, não foram suficientes para convencer a todos os desportistas. Desde que Jacarepaguá foi anunciado como o local escolhido para o sonho olímpico, centenas de pessoas ligadas ao automobilismo colocaram a boca no trombone para reclamar sobre a morte do autódromo.

Para acalmar os ânimos, o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, assumiu o compromisso de construir uma nova pista na cidade. Em comum acordo com o Exército, foi escolhida uma área em Deodoro, na zone oeste do município, que pertencia às Forças Armadas.

No projeto inicial, o autódromo terá capacidade para 80 mil lugares fixos. Em corridas de maior público, poderão ser usadas estruturas provisórias, o que aumentaria a capacidade para 135 mil pessoas. A pista tem um desenho com 4,5 km de extensão, 36 boxes para equipes, paddock que comportariam 5 mil convidados VIP’s e centro de imprensa para mais de 400 jornalistas. O tempo de construção previsto é de pouco menos de um ano e meio.

 

Brasil, um país que joga bilhões de reais na lata do lixo

 

Essa é outra fábula que se arrasta desde 2012. Lá se vão 7 anos de embromação de uma promessa de político. Recentemente, o juramento aos pilotos começou a andar e, mesmo assim, cheio de contestações com a licitação.

Se realmente o processo acelerar nos próximos meses, saiba que serão gastos mais cerca de 700 milhões de reais para erguer no subúrbio carioca um suntuoso autódromo. De acordo com as regras criadas pelo governo, a construção se daria em regime de Parceria Público-Privada (PPP). Quem topar fazer a obra bancará os custos e terá direito de explorar o novo Autódromo Ayrton Senna por 35 anos.

Isso se o grupo que aceitar entrar no negócio não jogar a toalha no meio do caminho por causa de prejuízos. Vide estádios da Copa do Mundo, que nunca pagaram o que foi gasto com a remodelação das Arena. O Consórcio que assumiu o Maracanã, por exemplo, já pulou fora.

Recuperar um investimento dessa monta não será nada fácil. A maior parte das corridas realizadas no Brasil tem púbico baixíssimo e dão pouco retorno financeiro ou quase nenhum. Apenas a Fórmula 1 entope as arquibancadas, mas não dá para imaginar que em 35 provas os "donos temporários" do autódromo teriam um lucro superior a R$ 20 milhões a cada Grande Prêmio.

A conta parece difícil de fechar.

Enquanto isso, os paulistas estão se rebelando com a ameaça da F1 deixar Interlagos. O governador João Doria assumiu o papel de protetor número 1 da manutenção das corridas em São Paulo.

O autódromo paulistano ainda é administrado pela prefeitura, e tem dado bom lucro. De acordo com informações divulgadas pelo executivo municipal, em 2018 Interlagos obteve uma receita de R$ 7,3 milhões, enquanto as despesas somaram R$ 4,6 milhões. Ainda assim, existe um projeto de privatização.

O prefeito Bruno Covas, como seu antecessor Doria, defende a política de privatização de espaços públicos alegando que eles são deficitários. No balanço sobre as contas de Interlagos, não entraram os custos com as reformas constantes do autódromo, que são quase todas bancadas pelo Ministério do Turismo.

Em 2019, estão sendo empenhados R$ 39,6 milhões na dotação específica de "ampliação, reforma e requalificação" do autódromo. Coube a prefeitura arcar com 1 milhão e 300 mil reais. O restante do dinheiro vem de Brasília. Nos últimos seis anos, os valores para revitalizar Interlagos chegaram a R$ 196 milhões (com recursos municipais e federais).

O GP Brasil de 2019 está marcado para o dia 17 de novembro, e ninguém consegue hoje afirmar se será o último ou não em São Paulo. Além da ameaça de ter a concorrência com o possível autódromo de Deodoro, Interlagos tem contrato só até esse ano com a empresa que administra a atual Fórmula 1. Um contrato que, diga-se de passagem, bem razoável para quem se candidata a receber os maiores nomes das corridas de automóvel.

Somente o Brasil e Mônaco ainda não pagam uma taxa anual à dona da Fórmula 1, cerca de 25 milhões de euros (quase R$ 111 milhões). Com o fim do contrato vigente, ainda não se sabe o que nos espera a partir de 2020.

O prefeito Bruno Covas usa como principal argumento para a manutenção do GP Brasil em suas terras o dinheiro que o município arrecada em um final de semana com a corrida."Esse evento traz 334 milhões de reais para a cidade de São Paulo. Esse é o limite do benefício. E aí a gente analisa os prós e os contras, os custos e receitas de ter um evento na cidade de São Paulo. Por enquanto ele é muito rentável para a cidade. É melhor fazer um evento como esse, gastando o que a prefeitura gasta para fazer as intervenções, porque ele gera emprego e renda para a cidade. Esse é o nosso teto, esse é o nosso limite", afirmou.

O prefeito não incluiu nessa fala a visibilidade que a maior cidade brasileira alcança no mundo. Durante os três dias do GP, São Paulo é falada nos quatro cantos do planeta. Nem sempre com uma exposição positiva. Em 2017, integrantes da equipe Mercedes foram assaltados quando deixavam o autódromo em uma van após os treinos da sexta-feira. Em sua conta no Twitter, o piloto Lewis Hamilton fez o seguinte relato:

"Alguns integrantes da minha equipe foram abordados por homens armados ontem à noite quando deixavam o circuito, aqui no Brasil. Tiros foram disparados, e armas foram apontadas para a cabeça de alguns. Isso é tão perturbador para se ouvir. Por favor, rezem pelos meus companheiros que são profissionais e estão abalados. Isso acontece todos os anos. A Fórmula 1 e as equipes precisam fazer mais, não tem desculpas!”, afirmou o piloto.

Não adiantou muito. No dia da corrida, integrantes da fornecedora de pneus Pirelli sofreram outra tentativa de assalto após o Grande Prêmio. Com medo, a empresa cancelou os testes que faria em Interlagos nos dias seguintes.

Vale ainda lembrar que o tradicional autódromo está longe de ser uma unanimidade entre os pilotos. Muitos o consideram ultrapassado. Mas esse tipo de crítica atinge outras pistas do roteiro da Fórmula 1, como o arcaico e charmoso circuito de rua de Mônaco.

Assim, o Brasil segue sem se entender sobre o que vale a pena ser feito por aqui, e gastando bilhões com autódromos e arenas.

 

Brasil, um país que joga bilhões de reais na lata do lixo

Veja também

Olá, deixe seu comentário para Brasil, um país que joga bilhões de reais na lata do lixo

Enviando Comentário Fechar :/