Essa é uma história rara, mas que mostra que a internet não pode ser tratada como "terra de ninguém"
Britânica pode pegar dois anos de cadeia por chamar mulher do ex de cavalo no Facebook

A baita confusão aconteceu em Dubai. Primeiro é preciso que você guarde os nomes para não se perder no meio da briga das duas mulheres.

Laleh Shahravesh, de 55 anos, é uma britânica-iraniana que foi casada com o banqueiro português Pedro Manuel da Costa dos Santos por 18 anos. Nos últimos oito meses da relação, eles moraram nos Emirados Árabes. Manuel foi trabalhar no HSBC de Dubai.

Um dia o marido se enrabichou com Samah Al Hammadi, uma tunisiana de 42 anos que trabalha em um clube de arco e flecha onde conheceu o português. O affair deles engrenou às escondidas.

Sem saber da traição, Laleh retornou com a filha Paris para o Reino Unido e ficou a espera do marido. Manuel nunca voltou para a casa. Ele já tinha em mente se casar na sequência com Samah.

Mais surpresa ainda Shahravesh ficou ao receber os papéis do divórcio que Pedro enviou para ela. 

Pouco tempo depois aconteceu a grande confusão. Isso foi em 2016. Manuel se juntou em definitivo ao novo amor. As fotos da cerimônia de casamento foram parar no Facebook.

Laleh tomou conhecimento que o ex tinha se casado novamente através da rede social. Tomada de ciúmes, ela partiu para ofensas no espaço reservado aos comentários das fotos. Entre as "patadas" que deu na dupla, uma delas foi a de dizer que Samah Al Hammadi parecia com um "cavalo". Shahravesh escreveu seus posts em farsi (idioma persa): "Você se casou com um cavalo seu idiota".

Os insultos não pararam por aí. Abominando o antigo companheiro ela desejou o pior para Manuel: "Espero que você morra, seu idiota. Maldito seja. Você me trocou por este cavalo".

Em fevereiro de 2017, o novo casal procurou uma delegacia de crimes cibernéticos em Dubai e deu queixa contra as grosserias de Laleh.

"Ela usou de abuso cruel e linguagem ofensiva para assediar a nós dois, causando-nos extrema angústia e tormento mental", explicou Samah.

"Sou residente nos Emirados Árabes Unidos há 15 anos e nunca antes em minha estada aqui enfrentei o tipo de abuso agressivo que a senhora Shahravesh nos submeteu. Nessas circunstâncias, meu marido e eu fomos forçados a abrir um processo com a Polícia de Dubai para buscar proteção contra suas ações extremamente vis", justificou a mulher ofendida.

 

Britânica pode pegar dois anos de cadeia por chamar mulher do ex de cavalo no Facebook Samah Al Hammadi

 

E não é que o Manuel morreu?

 

A praga rogada por Laleh parece ter dado certo. No dia 3 de março, três anos depois de ter se casado com Samah, Pedro Manuel faleceu. Um ataque fulminante de coração matou o banqueiro com apenas 51 anos.

Mesmo com toda a bronca que ainda tinha da infidelidade, a antiga mulher decidiu ir ao enterro do ex levando a filha Paris, que já tem 14 anos. Mas quando elas desembarcaram em um dos aeroportos de Dubai, no dia 10 de março, veio a surpresa. Shahravesh foi imediatamente detida. É que de acordo com as leis de crimes cibernéticos nos Emirados Árabes Unidos, uma pessoa pode ser multada ou presa por insultar ou difamar alguém nas redes sociais.

 

Britânica pode pegar dois anos de cadeia por chamar mulher do ex de cavalo no FacebookPedro Manuel com a primeira família

 

Deu ruim...

 

Os comentários feitos por Laleh, mesmo tendo sido escritos no Reino Unido, foram considerados ofensivos e difamatórios e se transformaram em um processo contra ela. A pena prevista é de até dois anos de prisão, mais o pagamento de uma multa de 50 mil libras (R$ 251 mil).

Levada inicialmente para uma sala de polícia do aeroporto, e três dias depois para à Delegacia de Polícia de Jebel Ali, Shahravesh passou cerca de doze horas prestando vários depoimentos. Ela alega que nesse período, sempre acompanhada da filha, as duas mal beberam água, e ainda foi obrigada a assinar declarações de confissões em árabe sem entender nada que estava escrito. Entre as aberrações que Laleh alega terem feito, uma delas foi a de traduzir nos documentos a palavra cavalo como cadela.

A ONG Detained in Dubai (Detido em Dubai), que presta assistência jurídica no país árabe, está cuidando da defesa de Shahravesh.

De acordo com Radha Stirling, diretora-executiva da DD, as autoridades pretendiam levar a inglesa direto para a prisão, mas como a filha não tinha com quem ficar as duas puderam ir para um hotel, até que Paris embarcasse de volta para casa sem poder acompanhar o enterro do pai. Laleh ainda precisou pagar fiança e teve o passaporte confiscado.

Segundo Stirling, tanto a Detained in Dubai quanto o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido (FCO) fizeram um apelo à autora da denúncia para retirar a acusação.

A decisão "parece muito vingativa", definiu assim a diretora. Stirling contou ainda que Shahravesh está "totalmente transtornada" e que levará muito tempo para superar essa crise. Sobre Paris, a executiva explicou que a jovem está "muito triste" e passando por um verdadeiro "inferno". "Tudo o que ela quer é se reunir com a mãe de novo", afirmou Stirling.

"Nossa equipe está apoiando uma mulher britânica e sua família após ter sido detida nos Emirados Árabes Unidos. Estamos em contato com as autoridades dos Emirados Árabes em relação ao caso dela", garantiu o FCO através de um comunicado.

O secretário de Relações Exteriores britânico, Jeremy Hunt, também expressou sua preocupação por Shahravesh no início desta semana, acrescentando que ela "está recebendo o melhor serviço possível" dos diplomatas britânicos.

Impedida de deixar o país, Shahravesh continua morando em um hotel, mas o dinheiro dela acabou. Sem trabalhar há um mês, Laleh disse que foi despedida, já pegou 5 mil libras emprestados com a família e agora corre risco de perder a sua casa em Richmond, uma cidade que fica no sudoeste de Londres.

Em entrevista ao Daily Mail, ela hoje reconhece que errou nos desabafos: "Eu não tinha ideia de que ele iria se casar novamente, e logo depois que nosso próprio casamento foi quebrado. Eu reagi mal. Eu ataquei e escrevi dois comentários desagradáveis sobre sua nova esposa em sua página no Facebook. Eu sei que não deveria ter feito. Eu deveria ter me comportado melhor, mas me senti brava, traída e magoada. Depois de 18 anos de casamento, uma pequena quantidade de tempo à parte, ele estava se casando tão rapidamente. Ele nem sequer teve consideração suficiente para me avisar com antecedência".

Longe da mãe, Paris dos Santos tomou a iniciativa de fazer um apelo ao primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Rashid Al Maktoum, que também é o governador do Dubai. "Peço gentilmente: por favor, por favor, devolva o passaporte da minha mãe e deixe-a voltar para casa", escreveu a menina.

Britânica pode pegar dois anos de cadeia por chamar mulher do ex de cavalo no FacebookLaleh e a filha Paris

 

Perdão à vista

 

Em outra frente para solucionar o caso, a Detained in Dubai pediu à viúva que retire a queixa. No começo Samah ficou resistente, afirmando que Laleh destruiu o último ano de vida do seu marido.

A tunisiana conta que decidiu fazer a reclamação formal depois de "sofrer em silêncio" por mais de um ano. Ela alega ainda que Shahravesh enviou várias mensagens depreciativas e e-mails até para o chefe de Pedro Manuel no HSBC. "Ele enviou e-mails pedindo para ela parar. Não parou", disse a viúva.

"Eu gostaria de esclarecer que tanto meu falecido marido quanto eu estivemos enfrentando constante assédio e abuso verbal de Laleh Shahravesh nos últimos anos", prosseguiu sem disfarçar a mágoa.

"Mesmo após a morte do meu marido, Shahravesh continuou a manchar a reputação do meu marido nas redes sociais com mensagens e mensagens ofensivas", continuou desabafando.

Mas essa semana Samah deu uma declaração que pode representar uma esperança para o fim de toda a polêmica. "Uma das últimas mensagens que [meu marido] me deu em lágrimas antes de morrer foi que ele amava profundamente sua filha. Estou disposta a retirar este caso para homenagear o amor de meu marido por sua filha", disse a mulher que se julga perseguida.


O rigor das leis árabes


Os países dos Emirados Árabes tem sido um dos principais endereços turísticos dos britânicos, mas as estritas leis e as penalidades da legislação daquela parte do mundo são desconhecidas por quase todos os turistas. O comportamento inadequado de quem também viaja para lá é rigorosamente punido.

Em 2017, um escocês de 27 anos foi condenado a três meses de prisão em Dubai depois de tocar o quadril de outro homem em um bar lotado. Jamie Harron, de 27 anos, foi acusado de "indecência pública" e só voltou para casa depois que o primeiro-ministro e governante de Dubai o exonerou.

Durante o período em que ficou detido, Harron perdeu o emprego e ainda gastou 30 mil libras com despesas de taxas legais.

"É muito ultrajante que ele tenha sido mantido no país por tanto tempo. Este é mais um exemplo do quão vulneráveis são os turistas à prisão e detenção em Dubai e o quanto os procedimentos legais são prolongados e desorganizados", disse a diretora-executiva Stirling.

A defesa alegou que enquanto segurava uma bebida, o eletricista inglês, que estava de férias no país, caminhava em um bar lotado, com a mão à frente para não derrubar o conteúdo do copo quando "encostou no quadril de um homem para evitar o impacto".

Em maio de 2018, o acadêmico britânico Matthew Hedges foi preso no Aeroporto Internacional de Dubai após uma visita de duas semanas ao país. Ele foi condenado à prisão perpétua nos Emirados Árabes Unidos, acusado de espionar para o governo britânico. Depois de passar meses em confinamento solitário, Hedges recebeu um perdão presidencial e foi libertado em novembro.

Para a diretora-executiva da Detained in Dubai, atualmente "ninguém estaria realmente ciente" das leis de crimes cibernéticos nos Emirados Árabes. Radha Stirling acredita que o FCO não consegue alertar os turistas ingleses a respeito da legislação.

Sobre o caso de Laleh, oficiais de Dubai explicaram que apenas cumpriram um mandado pendente e que ela não está detida sob custódia, mas que permanece em Dubai porque o caso está sendo examinado pelos promotores.

Nessa quinta-feira, 11/04, Shahravesh vai ser ouvida em um tribunal. Na entrevista ao Daily Mail, ela confessou o quanto tem medo do futuro. "Eu fiz aquela postagem quando estava morando na Inglaterra. É impensável que eu tenha essas acusações contra mim por algo que fiz em casa. Eu cheguei aqui como turista, eu não moro aqui. Se eu morasse aqui seria completamente diferente. Eu respeito a lei dos lugares, mas aquela postagem foi feita em casa. Eu realmente não quero voltar para o tribunal, porque tenho muito medo do que pode acontecer. Eu acho que minha família escondeu de mim que eu poderia ser presa por 2 anos, e eu não tinha ideia até recentemente", disse em lágrimas.

 

* Na audiência realizada no dia 11 de abril, Laleh Shahravesh teve o passaporte liberado e foi autorizada a voltar para casa. A britância teve que pagar mais uma multa de 3 mil dirham (moeda dos Emirados Árabes). A foto da capa (imagem do Youtube), mostra o reencontro com a filha.

 

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