O executivo de um grupo de montadoras escondia do governo o dinheiro que ganhava. No Japão isso dá cadeia rapidinho
Carlos Ghosn, o gênio brasileiro que jogou o nome na lama

A prisão de Carlos Ghosn foi decretada na segunda-feira após ele ser flagrado sonegando impostos. O executivo deixou de declarar seus verdadeiros ganhos, algo em torno de R$ 167 milhões, segundo os promotores japoneses. As fraudes fiscais teriam ocorrido entre 2010 e 2015. Além de ter que se acertar com o governo do país o brasileiro deve perder todos os cargos na direção das montadoras Nissan, Renault e Mitsubishi. O escândalo vai custar também muito caro a imagem desse rondoniense que tinha virado uma celebridade mundial. 

Carlos Ghosn nasceu na quase desconhecida Guajará-Mirim, na fronteira de Rondônia com a Bolívia. Quase porque a carreira dele tratou de dar destaque a cidade quando todo mundo lê o currículo do homem que revolucionou o mercado de automóveis nos últimos anos. Seus feitos não foram poucos. Filho de um brasileiro descendente de libaneses, Carlos começou a se destacar quando entrou para a montadora francesa Renault. Em 2005, chegou ao cargo de presidente executivo da marca. Antes disso, esse engenheiro formado na Escola Politécnica e pela Escola de Minas de Paris, passou pela fábrica de pneus Michelin. Ocupou cargos na França e no Brasil no período em que esteve na empresa. Trocou as borrachas pelos motores. Em 1999, quando a Renault comprou uma fatia considerável da Nissan, Carlos ganhou mais espaço. Dois anos depois já era o principal executivo da montadora. 

 

 

Um mito no Japão

 

No início do século a Nissan passava por uma grave crise e corria risco de fechar as portas. Ghosn colocou em prática seus métodos de recuperação que são considerados de extrema rigidez: corte de pessoal e fechamento de unidades. As estratégias dolorosas renderam a Carlos a fama de "eliminador de custos", mas que sempre deram certo. A Nissan sobreviveu. 

O brasileiro, que a essa altura também já tinha cidadania francesa, virou uma espécie de herói no Oriente. A história dele foi parar nas revistas de quadrinhos japonesas, que são chamadas de mangás. O prestígio era tão grande por lá que, em 2011, Carlos viu o nome dele aparecer em sétimo lugar em uma pesquisa para saber quem os japoneses gostariam que governasse o país, à frente de outras ilustres figuras como o ex-presidente dos EUA Barack Obama, apenas o nono na lista. 

Quando é perguntado sobre como conseguiu se tornar um executivo de ponta em países tão diferentes, Ghosn atribui o sucesso a raiz dele. A origem o teria deixado com um sentimento de ser diferente, o que facilitou a sua adaptação a novas culturas.

E não era só no Japão que o nome Carlos Ghosn aparecia como um potencial presidente. No Líbano também, mas ele descartava alegando que já tinha "muitos empregos".

Muitos no passado, mesmo. O escândalo da sonegação fiscal vai fazer o executivo perder várias cadeiras de uma só vez. Atualmente, ele era presidente do conselho da Nissan e CEO da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi.

 

Na cadeia e desempregado

 

Bem diferente do que acontece no Brasil, quando nossos executivos são presos em operações da Polícia Federal e continuam exercendo seus cargos, no Japão as tradições são inapeláveis com algumas práticas. Poucas horas depois da prisão de Cralos, a Mitsubishi soltou uma nota afirmando “que a má conduta está relacionada com um problema de governança corporativa", e pedirá à junta diretiva que afaste Ghosn do cargo de presidente do Conselho de Administração. A montadora afirmou ainda que vai fazer sua própria investigação interna para saber se o brasileiro "esteve envolvido em uma conduta indevida" parecida dentro da companhia.

A Nissan foi ainda mais dura em seu comunicado à imprensa. A montadora afirmou que está realizando uma investigação interna há meses e já sabe que Ghosn "subnotificou seus rendimentos" ao governo. E prosseguiu: "Numerosos outros atos de conduta indevida foram descobertos, como uso pessoal dos ativos da companhia", diz a nota. No final a montadora se desculpou: "A Nissan pede desculpas por causar grande preocupação aos nossos acionistas e parceiros."

Junto com Carlos Ghosn rodou também outro executivo poderoso do grupo, Greg Kelly, que igualmente teria participado de fraudes. 

Até o estouro do escândalo Ghosn era considerado o CEO brasileiro mais bem pago do mundo. Entre seus projetos atuais estava o de ser responsável pela produção em larga escala do carro elétrico Leaf. 

Desde 2009, a revista Forbes cita o brasileiro como "o trabalhador mais assíduo na altamente competitiva indústria automobilística". Seu estilo direto e prático agora é só dor de cabeça no mundo dos negócios. A prisão de Carlos aconteceu na segunda-feira, depois que a bolsa de valores no Japão já tinha fechado. Na reabertura na terça, as ações das montadoras que ele administrava despencaram. As da Nissan fecharam em queda de 5,45%. O golpe nos investidores de ações da Mitsubishi atingiu 6,03%.

O homem que tinha fama de ser o salvador de grandes montadoras pode estar saindo de cena agora jogando as mesmas marcas novamente no buraco. 

 

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