Enquanto o Brasil se chocou com a inaceitável fúria de um segurança, nos Estados Unidos outro cão era reverenciado pela fidelidade a seu dono ilustre que morreu na semana passada
A morte do cachorro do Carrefour: até quando o homem vai continuar com a sua estupidez

Os dois episódios ganharam manchetes e destaque na imprensa. O primeiro a ocupar grande parte do noticiário foi Sully, um cachorro da raça Labrador que acompanhou George H.W. Bush nos últimos meses de vida depois que a esposa do ex-presidente norte-americano morreu em abril. Sully era muito mais do que uma companhia. Treinado para obedecer a comandos como atender telefone, buscar itens, abrir e fechar portas, o cão ganhou um lugar especial no funeral de Bush, sempre próximo ao caixão. Já o cachorro do Carrefour, Manchinha, apareceu em cena depois de denúncias que um segurança da rede de supermercados havia batido no animal até a morte. Os dois fatos envolvem animais igualmente inofensivos – a diferença é que um nasceu com pedigree e de uma raça selecionada. O outro era um reles vira lata jogado a sorte, apenas tentando sobreviver. O final da história da semana passada também foi bem diferente para Sully e Manchinha. Enquanto um era tido como um quase herói e viajava no avião da presidência dos Estados Unidos para acompanhar o velório do seu dono em Washington, o sem dono conheceu a barbaridade que o ser humano é capaz.

Não dá para generalizar nenhum dos dois acontecimentos afirmando que se trata de regra de comportamento. Tem muita gente que não sente nenhum tipo de afeto especial por animais, mas isso não quer dizer que pratiquem ou aceitem covardia com os bichinhos. São homens e mulheres que apenas não têm pendor por criar e cuidar de animais. Outra fatia considerável da humanidade, entretanto, pensa muito diferente. Para esse grupo conviver com os bichos é quase uma necessidade, sejam gatos, cachorros ou outras espécies – e que nem sempre tem pedigree.

 

A covardia do mal e da mentira

 

A atitude covarde do segurança do Carrefour extrapola qualquer limite de compreensão. O cachorro que foi espancado por ele tinha aparecido há alguns dias nas proximidades do supermercado. Segundo relatos, estaria sendo alimentado por funcionários do próprio Carrefour e pelos clientes da loja.

Na quarta-feira, dia 28, diretores da rede iriam fazer uma visita àquela unidade, que fica em Osasco, na Grande São Paulo. O segurança teria recebido uma ordem de um superior para "dar um fim" no cão, que vivia na porta da loja e no estacionamento.

A gerência do estabelecimento alega que já havia feito vários pedidos para o Centro de Controle de Zoonoses recolher o animal. Como não foram atendidos, partiram para a irracionalidade. Algumas pessoas ainda tentaram socorrer o cachorro. Segundo a prefeitura de Osasco, o Departamento de Fauna e Bem-Estar Animal teria sido acionado por volta de 9 horas e 24 minutos para prestar socorro a um cão que estava "ferido e sangrando", possivelmente vítima de atropelamento.

A versão de Rafael Leal, da ONG “Cão Leal”, é bem diferente. Em depoimento ao site G1, Leal contou o seguinte: “[Foi] Um segurança do Carrefour que matou o cachorro. Ia ter uma visita de supervisores da matriz e o dono do mercado, da filial de Osasco, pediu para o funcionário dar um fim no cachorro. Ele deu chumbinho no meio da mortadela e agrediu o cachorro”, relata Rafael.

O que é inegável são as agressões com um tipo de bastão por parte do funcionário. As câmeras de segurança mostram-no claramente indo atrás do cão e desferindo violentos golpes. O animal ensanguentado ainda buscou refúgio dentro da loja. Depois apareceu o socorro: primeiro de populares, depois de uma equipe técnica, provavelmente da prefeitura, que levou o animal ainda com vida.

O caso teve uma repercussão muito grande nas redes sociais. Alguns famosos fizeram postagens com grande teor de indignação. A apresentadora Luisa Mell fez questão de mostrar toda a sua revolta. 

 

A morte do cachorro do Carrefour: até quando o homem vai continuar com a sua estupidez


Tatá Werneck também foi as redes sociais expor sua dor.

 

A morte do cachorro do Carrefour: até quando o homem vai continuar com a sua estupidez

 

Diante de tamanha barulheira, e preocupado com a própria imagem, o Carrefour demorou, mas soltou uma nota contando a sua versão para o fato. O texto pretende ser politicamente correto, mas dá uma grande derrapada quando tenta desmentir as imagens que hoje são públicas. Ao escrever que "um funcionário de empresa terceirizada tentou afastá-lo da entrada da loja e imagens mostram que esta abordagem pode ter ocasionado um ferimento na pata do animal" a rede de supermercados agride novamente a sociedade, agora de forma verbal, com sua incapacidade de lidar com um fato horrendo ou assumir sua responsabilidade pelo ocorrido. Se o método de afastar o cachorro é na base de violentas porretadas, imagina-se o despreparo dos responsáveis por essa loja.

Em entrevista à Agência Estadão, o professor de Direito e advogado Rafael Paiva, presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB/Santana, disse que, em tese, o caso é crime de maus tratos aos animais, previsto na Lei dos Crimes Ambientais. A previsão da pena é de três meses a um ano de detenção, com aumento de um terço pela morte do animal. Podem ser culpabilizados o autor do crime e os mandantes.

O Ministério Público de São Paulo anunciou que instaurou inquérito civil para apurar a ocorrência e os responsáveis pelos maus tratos a Manchinha baseado nas imagens.

Enquanto o desprezo pelo vira lata e a presença incômoda dele na frente do supermercado foram motivos para sacrificar o bichinho, o restante do mundo se emocionou com a história do Sully. O Labrador de apenas dois anos foi a maior companhia de Bush em seus derradeiros dias. Com vários problemas de saúde, incluindo um tipo de Mal de Parkinson que o obrigava a utilizar uma cadeira de rodas para se locomover, o ex-presidente se tornou dependente de um cachorro – que, aliás, carregava o nome de um outro herói nacional, o comandante Chesley "Sully" Sullenberger, responsável pelo incrível pouso de um avião em pane no rio Hudson, em 2009, salvando todos os 150 passageiros e a tripulação.


Não é fácil se despedir dos bichinhos


Talvez você não goste de cães ou de qualquer outro bicho e não veja importância em nenhum dos dois fatos. Seu gosto precisa ser respeitado, assim como a vida de todos esses animaizinhos. Quanto ao Carrefour, é irracional atribuir à marca a estupidez de alguns de seus administradores. As instituições muitas vezes também acabam vítimas da irresponsabilidade, despreparo e da incapacidade de quem, momentaneamente, está à frente dos negócios. A justiça precisa ser feita para que os responsáveis sejam punidos por seus atos. Já a rede de supermercados deve assumir sem rodeios os erros por tudo o que ocorreu na unidade de Osasco. Como já sugerido por muita gente nas redes sociais, o episódio pode servir para o Carrefour fazer uma "boa limonada" com os limões que parecem tão ácidos, abraçando campanhas de proteção aos animais ou doando ração para abrigos de cães.

Uma boa dica para quem não consegue entender porque tantas pessoas se apegam e cuidam de animais é a leitura de um artigo publicado no site da Veja.

Resumidamente a explicação é a seguinte: de acordo com pesquisas científicas realizadas com vários grupos, algumas pessoas sentem a mesma necessidade de proteger e cuidar de animais que tem por bebês e crianças, por considerá-los como seres indefesos e que precisam de alguém que zele por eles.

 

Nota do Carrefour


"A rede repudia qualquer tipo de maus-tratos contra animais. Comprometido em manter a todos informados sobre o episódio ocorrido na loja de Osasco, nossa apuração preliminar apontou que o cachorro estava circulando pelo estacionamento há alguns dias.

O Centro de Zoonoses de Osasco foi acionado por diversas vezes, mas não recolheu o animal. No dia do incidente, clientes se queixaram sobre a presença do cachorro, e, novamente, o órgão foi acionado. Um funcionário de empresa terceirizada tentou afastá-lo da entrada da loja e imagens mostram que esta abordagem pode ter ocasionado um ferimento na pata do animal.

O Centro de Zoonoses de Osasco foi acionado novamente e compareceu ao local para recolhê-lo. No entanto, no momento da abordagem dos profissionais do órgão para imobilização, o cachorro desfaleceu em razão do uso de um “enforcador”, tipo de equipamento de contenção.

A Delegacia especializada de Osasco (D.I.I.C.M.A.) abriu inquérito e está investigando o caso. Estamos colaborando com as autoridades, disponibilizamos todas as informações e imagens para que o fato seja solucionado".

 

Nota da prefeitura de Osasco

 

"Em resposta à nota divulgada pelo Hipermercado Carrefour, esclarecemos que o Departamento de Fauna e Bem Estar Animal esteve no local em atendimento a solicitação da Central 156 (Protocolo 2726381), cadastrada às 9h24 do dia 28/11/2018, para prestar atendimento a um cachorro ferido e sangrando. O comparecimento da equipe no local da ocorrência foi por volta das 10h.
A equipe esteve no local e constatou a existência de um animal de espécie canina com sangramento intenso. O manejo foi realizado por um oficial de controle animal qualificado e o animal foi encaminhado ao departamento para atendimento emergencial.

O animal deu entrada consciente no departamento em decúbito lateral (deitado de lado), mucosas anêmicas, hipotensão severa (pressão baixa), hipotermia intensa, hematêmese (vômito com sangue) e escoriações múltiplas. Apesar do tratamento instituído o animal veio a óbito.

No dia 1/12/2018, o Departamento de Fauna e Bem Estar Animal passou a receber informações que se tratava de um caso de maus tratos e foi iniciado a apuração do caso com solicitação de inquérito policial.

O inquérito policial está sob responsabilidade da Delegacia Especializada de Osasco. Somente o inquérito poderá indicar as causas da morte e a quem cabe a responsabilidade".

 

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Uma dor que não passa

 

* Hoje está completando um ano que perdemos a nossa querida Ária. A cachorrinha da raça west highland terrier foi atropelada na porta do nosso prédio. O motorista seguiu sem prestar socorro.  

 

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Jose Tonioli

Jose Tonioli

Este procedimento irracional de um segurança, que diga se de passagem somos refens deste tipo de pessoa, o Carrefour, deveria sofrer retalhiação, não devemos mais comprar neste rede, pois só assim irão tomar vergonha, a resposta da rede, evasiva. A direção do grupo vem com a mesma resposta de sempre, estamos fazendo isto ou aquilo, porem tá cheirando pizza.
★★★★★DIA 06.12.18 13h27RESPONDER
Guilherme Mendes
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maria Castro

maria Castro

Não posso olhar para a foto do cachorrinho assassinado sem sentir um profundo mal-estar e um grande sofrimento no coração. Um olhar tão manso e confiante...Será que essas pessoas de coração empedernido não sentiram um mínimo de piedade que as teria impedido de cometer ato tão covarde e cruel? Gostariam que um dos seus filhos recebessem esse tratamento? Pensem bem, meditem, e verão que estão manchando suas próprias almas e se rebaixando da condição de seres humanos. E isso quando haveria outras soluções, pois aí existem muitos abrigos e instituições que cuidam de animais abandonados. A tristeza e desencanto que me veio de tudo isto estragou o meu fim de ano, o meu Natal e sugiro a quem for de direito, proclamar o manchinha como Mártir do Ano , neste malfadado 2018 !!!
★★★★★DIA 06.12.18 13h14RESPONDER
Guilherme Mendes
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Infelizmente, o mundo tem se tornado frio e egoísta para muita gente. O valor da vida para esses seres humanos virou algo banal, mesmo que se trate de homens e mulheres ou de animais. 

★★★★★DIA 06.12.18 13h24RESPONDER
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Tiago Fernandes

Tiago Fernandes

Até onde vai parar a animolatria e a hipocrisia? Menos, né?

Uma pergunta que não quer calar: vários animais estão sendo atropelados nas rodovias. Você já fez a sua parte?
Obs.: eu já fiz a minha, levando três (vivem no paraíso terrestre) para casa!
★☆☆☆☆DIA 06.12.18 13h01RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Tiago, minha família já dotou vários animais sem pedigree e origem da procedência. Na casa do meu pai tem um cão enorme que foi resgatado de rua por estar sofrendo agressões de homens embriagados em um bar. Claro que existe uma diferença acentuada entre homens e animais, o problema é a banalidade do valor da vida. Não podemos nos manter frios diante da brutalidade e crueldade do ser humano. Obrigado por nos visitar. Volte sempre. Abraço

★★★★★DIA 06.12.18 14h20RESPONDER
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