A fuga aconteceu na noite do dia 29 de dezembro, quando o empresário realizava uma festa em casa
Como o brasileiro Carlos Ghosn fugiu? Essa é a pergunta que o mundo está se fazendo

Desde que foi preso em 2018, os passos do brasileiro Carlos Ghosn vêm sendo acompanhados com enorme atenção. O homem que ficou famoso pelas estratégias de crescimento das empresas automobilísticas que dirigiu, passou a ser visto também como um verdadeiro espertalhão. As principais suspeitas contra o executivo giram em torno das mirabolantes formas que ele encontrou para sonegar impostos.

Os japoneses, indignados com as trapaças que descobriram, mandaram Carlos para a cadeia no dia 19 de novembro daquele ano, sob acusação de quatro crimes financeiros. O primeiro seria sobre os ganhos não declarados de Ghosn. Entre os anos de 2010 e 2015, ele teria recebido um total de R$ 334 milhões, mas deixou de declarar R$ 167,4 milhões.

O empresário também teria usado indevidamente bens da Nissan, repassado despesas particulares de US$ 16,6 milhões para a contabilidade da montadora japonesa e causado um rombo de US$ 5 milhões em transferências de fundos para Omã.

Encarcerado, o brasileiro foi retirado da presidência do conselho das três montadoras que comandava: Nissan, Mitsubishi e Renault.

No dia 6 de março de 2019, os advogados de Carlos conseguiram que ele fosse solto depois de pagar uma fiança de 1 bilhão de ienes, cerca de R$ 37 milhões. O empresário deixou a Casa de Detenção do bairro de Kozuge às 16h32, de acordo com a televisão japonesa. Mas a liberdade do ex-poderoso chefão das marcas automobilísticas durou pouco. Em abril, Ghosn voltou para atrás das grades devido a novas acusações. Para sair teve que pagar outra fiança, agora de US$ 4,5 milhões, cerca de R$ 18 milhões.

Em prisão domiciliar, o executivo aguardava o julgamento previsto para esse ano. O ex-presidente da aliança Renault-Nissan tinha uma série de restrições no Japão. Portador de quatro passaportes (um brasileiro, um libanês e dois franceses), ele teve que entregar três para as autoridades.

Carlos permaneceu com apenas um dos documentos franceses com um visto de curta duração. A autorização foi concedida porque, de acordo com a legislação japonesa, os estrangeiros precisam de passaporte ou um documento de identidade fornecido por um governo para que possam se deslocar pelo arquipélago.

Ficou definido ainda pela justiça que o passaporte francês ficaria guardado em uma mala trancada. Só o advogado de Ghosn teria a chave e poderia abri-la caso seu cliente necessitasse. Segundo a imprensa francesa, essa é uma condição comum a todas as pessoas que estão em algum regime de liberdade condicional no Japão.

 

O que se sabe até agora

 

O sumiço do empresário Carlos Ghosn de um país onde se encontrava em liberdade provisória sob condições rígidas e vigilância severa virou um mistério. O governo ainda tenta entender o que realmente aconteceu no dia da fuga. As informações divulgadas pela imprensa não são oficiais.

A versão repetida por vários sites libaneses dá conta de que, naquela noite, o brasileiro teria recebido em casa um grupo de músicos. O concerto privado terminou com o empresário escondido dentro de uma caixa de instrumentos musicais.

Em seu esconderijo, Ghosn foi levado a um aeroporto de Kansai, no oeste do Japão. Ele teria embarcado em um jatinho com a ajuda de uma empresa privada de segurança. Segundo a imprensa local, uma aeronave particular deixou o país no dia 29 de dezembro, às 23h, em direção a Istambul. A aterrissagem teria acontecido no aeroporto de Atatürk, fechado para voos comerciais. Mas a esposa do empresário nega com veemência essa possibilidade. "É ficção pura", disse Carole, à agência Reuters.

Nos círculos diplomáticos e jurídicos outra teoria vem sendo cogitada. A fuga teria sido planejada durante três meses. O executivo poderia ter contratado uma firma privada de segurança para ajudá-lo a despistar a polícia. Como não usava tornozeleira eletrônica, Carlos conseguiu chegar ao aeroporto internacional de Osaka sem problemas, onde embarcou num jato privado.

Especialistas em segurança acham que seria improvável Ghosn ter dado no pé sem um passaporte falso. O empresário ainda teria contado com ajuda internacional na organização e planejamento da fuga.

O advogado Junichiro Hironaka, que coordenava a equipe jurídica de Carlos no Japão, acredita que "uma organização muito grande deve ter agido para possibilitar isso". As autoridades asiáticas não têm registro de que Ghosn tenha apresentado sua real identidade aos controles de fronteira.

O voo que levou o agora foragido executivo até o Líbano fez uma conexão em Istambul, na Turquia. Depois a aeronave seguiu para Beirute. Uma autoridade libanesa confirmou que Ghosn entrou no país com um passaporte francês.

Como também tem cidadania libanesa, o empresário pode se beneficiar da legislação local e do prestígio que possui junto ao governo. Pessoas próximas a Ghosn disseram que ele já foi recebido pelo presidente do Michel Aoun. A Direção-Geral de Segurança do Líbano disse não haver motivos para adotar procedimentos legais contra ele, segundo informou a agência estatal de notícias NNA.

Em Beirute, Ghosn divulgou um comunicado em que afirmou que não precisará "mais ser refém de um sistema judicial japonês fraudulento em que se presume culpa, onde direitos humanos básicos são negados. Não fugi da justiça. Escapei da injustiça e da perseguição política. Agora posso finalmente me comunicar livremente com a mídia e estou ansioso para começar na próxima semana", afirmou.

Se quiser, Carlos pode seguir para território francês, onde também não corre risco de ser extraditado. A secretária de Estado para a Economia do país europeu, Agnès Pannier-Runacher, declarou nessa quinta-feira que "a França nunca extradita seus cidadãos, então aplicaremos a Ghosn as mesmas regras que aplicamos para todos. Não é por isso que achamos que ele não deva ser julgado pela Justiça japonesa", declarou ao canal BFMTV.

Também hoje, o Líbano recebeu uma ordem de prisão da Interpol contra Carlos. Na Turquia, sete pessoas foram presas, suspeitas de participação na fuga do ex-CEO da aliança Renault-Nissan. De acordo com a agência de notícias DHA, entre os detidos estão quatro pilotos que podem ter ajudado Ghosn a chegar a Beirute depois de realizar uma conexão em Istambul, onde ele chegou em um voo procedente do Japão.

Veja também

Olá, deixe seu comentário para Como o brasileiro Carlos Ghosn fugiu? Essa é a pergunta que o mundo está se fazendo

Enviando Comentário Fechar :/