A façanha foi realizada no mundial de atletismo em Doha
Corredora sofre discriminação por causa de gravidez, volta a competir e bate recorde de Bolt

Allyson Felix é a personagem dessa história. Uma das maiores corredoras do atletismo americano, ela chegou no mundial com um currículo repleto de medalhas e autora de feitos extraordinários.

Na história dos jogos olímpicos, Felix é a única mulher que já ganhou seis medalhas de ouro. A especialidade dela são as corridas curtas de 100, 200 e 400 metros rasos.

Quando desembarcou no Qatar, Allyson era dona também de outros onze reluzentes ouros em mundiais, mesmo número de conquistas da lenda Usain Bolt. O recorde dela foi estabelecido na prova por equipe 4 por 400 misto (dois homens e duas mulheres).

Felix arrebatou mais uma medalha com o time americano, batendo os jamaicanos na final. Agora a corredora de Los Angeles é a única no planeta que tem 12 ouros.

Só o fato de ter alcançado a marca histórica já era motivo para Allyson estar sendo festejada como uma heroína do esporte, mas essa conquista tem uma simbologia muito maior. A mega atleta foi mãe há dez meses e enfrentou muitos problemas durante a gravidez, um deles o fim do patrocínio.

Antes de falarmos de dinheiro, primeiro é importante explicar os perrengues que Felix enfrentou para o nascimento da filhinha Camryn. Ela teve pré-eclâmpsia durante a gravidez, e mãe e bebê sofriam risco de vida. Diante do quadro, os médicos optaram por fazer uma cesária com 32 semanas de gestação. Isso no dia 28 de novembro do ano passado.

Depois do nascimento, o neném precisou ficar 29 dias na UTI. A mãe também entrou em quarentona. Durante seis semanas ela não pode voltar aos treinos. Felizmente, tudo acabou bem.

Agora vamos à parte esportiva. Mesmo tendo 26 medalhas de ouro, prata e bronze (em Olimpíadas e Campeonatos Mundiais), a rainha das pistas ficou sem patrocínio porque não aceitou receber menos dinheiro por causa da gravidez. O imbróglio envolve a marca de material esportivo Nike.

A gigante companhia americana tinha como regra reduzir em até 70% o valor do patrocínio das atletas que engravidavam. O corte acontecia durante e após a gravidez até que as profissionais do esporte provassem que estavam novamente em grande forma.

Em dezembro de 2017 venceu o contrato de Allyson com a Nike. Como a corredora tinha planos de ser mãe, ela decidiu não renovar o contrato por causa da redução da grana de patrocínio que sofreria.

Conhecida também por ser uma defensora dos direitos das mulheres, em maio Felix escreveu um artigo para o jornal The New York Times. O tema era a discriminação contra as atletas femininas, que quase sempre não recebem pagamentos ou ganham menos durante e após a gravidez.

"Decidi começar uma família em 2018, sabendo que a gravidez pode ser 'o beijo da morte' na minha área. Foi terrível para mim, porque estava negociando o meu contrato com a Nike, que tinha terminado em dezembro de 2017", começou, assim, sua explicação.

"Fui pressionada para voltar à forma o mais rapidamente possível depois do nascimento da minha filha, em novembro de 2018, apesar de ter passado por uma cesariana de emergência às 32 semanas, devido ao sério risco de a pré-eclâmpsia ameaçar a minha vida e da minha bebê. No entanto, as negociações não corriam bem. Apesar de todas as minhas vitórias, a Nike queria pagar-me 70% a menos do que antes. Se for isso que eles pensam que eu valho agora, eu aceito. O que eu não posso aceitar é esse persistente status quo da maternidade. Pedi à Nike para garantir, contratualmente, que não seria penalizada se os meus resultados não fossem os melhores nos primeiros meses após o parto. Queria estabelecer um novo padrão. Se eu, uma das atletas da Nike mais conhecidas, não conseguisse assegurar estas proteções, quem conseguiria?", concluiu.

A luta dela surtiu efeito. No mesmo mês, após a divulgação do artigo, a Nike anunciou que não aplicaria reduções de pagamento às atletas grávidas por um período de 12 meses. Era só o começo de mais uma vitória.

Em setembro, a empresa aumentou este período para 18 meses. Ficou estabelecido ainda que o prazo começará a ser contado oito meses antes da data prevista do parto.

Apesar de a Nike rever a sua política, Allyson Felix já tinha decidido trocar de uniforme. A recordista de medalhas preferiu assinar um contrato inédito com a marca Athleta.

Com 33 anos, e dois meses após se tornar mamãe, a corredora voltou aos treinos. A reestreia nas pistas aconteceu em julho. Allyson não passou de um sexto lugar na prova dos 400m. Mas para quem tinha retomado as atividades há menos de seis meses era uma grande realização.

"Houve muitos dias em que eu não tinha certeza de que isso seria possível. Eu trabalhei mais do que sabia que podia. Havia lágrimas, frustração e dúvida. Às vezes parecia que tudo estava contra mim", escreveu em um post na rede social.

Em uma entrevista à revista People, Allyson foi mais além, e falou sobre a nova fase na vida. "É diferente, é definitivamente mais desafiante. Penso que qualquer nova mãe, quando volta ao trabalho, sente-se exausta e tem de conciliar com a família. Para mim não é diferente", disse.

No dia 29 de setembro, a super mulher entrou novamente em uma pista com o time americano do revezamento 4 por 400 misto. Na plateia estavam o marido dela e a filha.

"Eu tive que lutar muito este ano – pela minha saúde, pela minha filha, pelas mulheres e mães, pelo que eu mereço e pelo meu condicionamento físico. Estou realmente orgulhosa de estar no meu 9º campeonato mundial e este é mais especial, porque minha bebê está no estádio para assistir a tudo", escreveu no Instagram antes da prova.

Um dia a pequena Camryn vai entender o significado daquela noite histórica. Allyson foi a segunda corredora a carregar o bastão. A equipe teve um desempenho fantástico e, além de vencer a prova, estabeleceu o novo recorde mundial com o tempo de 3:09.34.

 

Corredora sofre discriminação por causa de gravidez, volta a competir e bate recorde de Bolt

 

Mas o feito americano proporcionou algo muito maior do que um tempo incrível para quatro atletas. Doha acabara de presenciar uma marca extraordinária. A medalha que Allyson recebeu a coloca no Olimpo dos imortais no esporte.

Pela primeira vez, desde a criação do Campeonato Mundial de Atletismo, um ser humano conquistava a décima segunda medalha de ouro.

"É tão especial, ter a minha filha assistindo significa tudo para mim. Tem sido um ano de louco", comentou no final da corrida. "Tudo o que passei ao longo deste ano... É muito maior do que eu", explicou.

 

Outra mamãe de ouro

 

O mundial de Doha vai ficar marcado também pela participação de outra incrível mãe. A jamaicana Fraser-Pryce levou a medalha de ouro dos 100 metros. Com 32 anos, ela registrou o impressionante tempo de 10.71 segundos, conquistando o oitavo título mundial da carreira. A comemoração foi com o seu filho de dois anos.

 

Corredora sofre discriminação por causa de gravidez, volta a competir e bate recorde de Bolt

 

Fraser-Pryce contou em várias entrevistas como se sentiu devastada ao descobrir que estava grávida, porque temeu pelo fim da sua carreira. Não foram poucas as pessoas que a aconselharam a parar, mas a jamaicana continuou a correr. "Aqui estou eu, quebrando barreiras e inspirando uma nação de mulheres a continuarem a sonhar. Acreditar que tudo é possível se você acredita, sabe?", disse ela logo após a vitória.

"O que ela fez foi incrível", comentou a colega americana. "Ela também teve um caminho difícil até aqui. E me encoraja muito. O seu primeiro ano não foi o melhor, mas no segundo ano ela está melhor do que nunca. As mulheres são fantásticas e ela está abrindo caminho para nós", finalizou a gigante Allyson Felix.

 

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