O número das agressões durante o período de carnaval foi assustador
Dia internacional da mulher: data para comemorar ou protestar contra a violência

O dia 8 de março de 2019 chegou carregado de perplexidade pelos acontecimentos dos últimos dias. Do sábado de carnaval até a quarta-feira de cinzas, pelo menos quinze mulheres foram vítimas de feminicídio ou tentativas de morte. A escalada de violência impressiona. É raro o dia em que os noticiários não trazem uma manchete com um caso novo. Mais triste ainda é saber que o Brasil está entre os cinco países com mais casos de assassinato de mulheres. A brutalidade acontece em todas as classes sociais, sem distinção também de cor e idade.

Está escrito no relatório da ONU divulgado no ano passado: "No mundo todo, em países ricos e pobres, em regiões desenvolvidas e em desenvolvimento, um total de 50 mil mulheres são assassinadas todo ano por companheiros atuais ou passados, pais, irmãos, mulheres, irmãs e outros parentes, devido ao seu papel e a sua condição de mulher".

Pela toada dos dois primeiros meses de 2019, pelo menos no Brasil esse índice tem tudo para crescer. Desde as primeiras horas do ano o país vem registrando assassinatos.

Ainda na madrugada do dia primeiro de janeiro, a manicure Iolanda Crisóstomo da Conceição de Souza, de 42 anos, foi morta a facadas pelo ex-marido que não aceitava o fim do relacionamento. O fato aconteceu em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, durante a festa de ano novo.

Na noite daquele mesmo dia, Rejane de Oliveira Silva, de 24 anos, também morreu com golpes de facas na zona rural de Casinhas, no agreste de Pernambuco, porque se recusou a se relacionar com o agressor.

Era só o começo de um mês de barbaridades. Pelo levantamento do professor Jefferson Nascimento, doutor em Direito Internacional pela USP, pelo menos 100 mulheres foram assassinadas em janeiro. Em apenas três semanas, foram registradas ocorrências em 94 cidades e 21 estados do país. Ainda de acordo com o estudo, mais da metade dos casos aconteceu nos finais de semana.

Ainda não existe uma contagem oficial sobre os episódios no mês de fevereiro, mas os ataques dos homens enfurecidos às suas parceiras ou ex no período de carnaval mostram outros números de perplexidade.

 

Dia internacional da mulher: data para comemorar ou protestar contra a violência

 

Carnaval de horrores

 

Durante a festa de momo e na quarta-feira de cinzas, pelo menos quinze casos de feminicídio ou tentativas foram registrados no país.

Em Belo Horizonte, duas mulheres foram atacadas na Praça da Estação. Uma foi internada depois de ser esfaqueada no abdômen e a outra acabou morta por estrangulamento.

No interior de São Paulo, em Borborema, Anderson Dornelles, de 25 anos, foi preso suspeito de estrangular a namorada Thais Andrade, de 29 anos. Segundo parentes, os dois discutiram após retornarem de uma festa de carnaval.

Em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, Isabela Miranda de Oliveira, de 19 anos, foi queimada pelo namorado em um conturbado churrasco no domingo. Willian Felipe de Oliveira Alves, de 21 anos, teria visto Isabela em um ato sexual com o cunhado.

Existem versões diferentes sobre o fato. Algumas testemunhas dizem que ela estava embriagada e foi estuprada. O namorado e uma amiga afirmam que não, a relação teria sido consensual. Enlouquecido com a cena, Willian ateou fogo em um colchão. Isabela foi queimada viva. A jovem morreu na quarta-feira à noite no hospital em que estava internada.

O município de Toledo, no interior do Paraná, acompanhou com perplexidade o caso do policial aposentado Jean Carlos Ferreira da Costa, que matou a mulher Débora Karen de Jesus com oito tiros e depois cometeu suicídio. O crime foi na frente de uma filha de Jean Carlos, de 6 anos.

Em Fortaleza, outro policial militar atirou na mulher dentro de casa. A vítima foi levada para o hospital com um ferimento grave na cabeça. O autor do crime se apresentou às autoridades.

Na cidade de Barra Mansa, no Rio de Janeiro, uma grávida morreu durante uma cesárea. Maria Edjane Lima, de 35 anos, foi operada com urgência depois de ser espancada pelo ex-companheiro. O bebê, com seis meses de gestação, está na UTI.

Em Goiânia, na noite de segunda-feira, uma mulher de 42 anos, que pediu para não ter o nome divulgado, contou que foi estuprada e agredida durante duas horas. O antigo companheiro só parou com a covardia depois que ela se fingiu de morta.

No Espírito Santo, aconteceram dois crimes. Maikelly Rodrigues da Silva, de 28 anos, foi assassinada com cinco tiros, na cidade de Serra. O corpo da jovem foi encontrado no sábado por pescadores próximo à Lagoa Juara. Ela estava nua e com as mãos amarradas.

Na terça-feira, Jonas Guimarães Amaral Neto, de 34 anos, espancou a namorada Jane Cherubim, de 36 anos, em Dores do Rio Preto (ES). O que motivou a brutalidade foi uma crise de ciúmes.

A vítima foi encontrada pela família horas depois em uma estrada de acesso ao Parque Nacional do Caparaó. Ela está internada em um hospital em Carangola (MG).

Ainda no Espírito Santo outro número chamou a atenção durante o carnaval. Noventa e quatro mulheres solicitaram medida protetiva por agressão física ou por ameaça.

Nem na quarta-feira de cinzas a insanidade da violência diminuiu. Pelo menos quatro casos se tornaram públicos. Em Goiânia, Valdireno de Souza, de 36 anos, foi preso depois de tentar matar a namorada a facadas. Há uma semana o casal tinha reatado um namoro.

Na cidade de Bom Despacho, em Minas, o corpo de uma mulher foi encontrado com 15 perfurações. O namorado suicidou-se após o crime. Ela tinha dois filhos.

Em Guararema, São Paulo, Cíntia de Jesus Silva, uma estudante de 22 anos, foi morta a tiros na frente dos dois filhos pelo companheiro. Ele também se matou.

Claudia Aragão, de 44 anos, foi morta a facadas em Sumaré, (SP), dentro de casa. O autor do crime foi o marido que está preso.

No Pará, na cidade de Barcarena, uma mulher foi morta com golpes de facão desferidos pelo marido. O homem está desaparecido.

 

No Brasil e no mundo

 

As últimas mortes e agressões engordam as estatísticas de uma deprimente realidade. Segundo a mestre em demografia da Unicamp, Jackeline Romio, mais de 4 mil mulheres perdem a vida todos os anos no Brasil por causa da violência. Sessenta por cento são vítimas de feminicídio.

Os dados oficiais do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) de 2018, apontam para uma realidade ainda mais petubadora. As tentativas de feminicídio no Brasil somaram 7.036. Um aumento de quase 200% em comparação ao ano anterior, quando foram registrados 2.749 casos no país.

O Brasil ocupa o vexatório 5º lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres.

É melancólico saber que aqui se mata 48 vezes mais mulheres que o Reino Unido, 24 vezes mais que a Dinamarca e 16 vezes mais que o Japão ou Escócia.

No mundo, seis mulheres morrem a cada hora vítimas de feminicídio, segundo a ONU. Em 2017, nada menos do que 87 mil mulheres foram assassinadas, 58% delas por conhecidos. Isso significa um feminicídio a cada 10 minutos.

Entre os continentes, o africano é o que apresenta o maior índice de violência: de 3,1 vítimas a cada 100 mil mulheres. Nas Américas, o número está em 1,6 vítima. O mais baixo se encontra na Europa: 0,7 a cada 100 mil.

Um documento elaborado pelo Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (Onudd), revela ainda que o "lugar mais perigoso para as mulheres é a própria casa".

 

Dia internacional da mulher: data para comemorar ou protestar contra a violência

 

* as fotos que ilustram a matéria são do Site Pixabay

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