A empresa americana aposta em atrair mais consumidores com campanhas menos elitistas
Em crise, Victoria’s Secret investe em manequins plus size para recuperar vendas

Aquela ideia de "sonho de consumo" levou marcas importantes a investirem durante décadas em manequins de corpos perfeitos. Assim como produtos de qualidade, o público feminino sempre desejou também encantar exibindo belas silhuetas.

Mas os tempos mudaram. Os antigos desejáveis padrões de beleza se enfraqueceram. Hoje as damas querem ser aceitas com os corpos que têm, sem terem que se sucumbir ao estereótipo de deusas de "curvas perfeitas".

O mercado captou essa nova realidade, e no mundo dos negócios em que todo tipo de consumidor é bem-vindo, a propaganda teve que se adequar. Foi nessa "vibe" que a marca americana de lingerie, antes resistente em usar modelos com corpos mais diversos, mudou radicalmente seus conceitos publicitários. Resta saber se não foi uma medida tardia.

 

Últimos desfiles e decadência

 

Os desfiles anuais da Victoria’s Secret estavam entre os mais famosos do mundo. O que chamava tanto a atenção do público eram os produtos da marca e as modelos famosas como Gisele Bündchen, Bella Hadid, Kendall Jenner e Winnie Harlow que apareciam nas passarelas vestidas de lingerie e como anjos, usando asas de penas.

Em mais de vinte anos, a apresentação da nova coleção da Victoria’s Secret fazia parte ainda do calendário dos comemorados desfiles que tinham também transmissão de TV para várias partes do mundo.

Mas em 2019 a marca americana não esteve nas passarelas. Em maio, em um memorando da empresa, o CEO Leslie Wexner anunciou que o evento seria "repensado", que o grupo estava "dando uma nova olhada em cada aspecto do negócio" e que deveria "evoluir e mudar para crescer". Por fim, Wexner afirmou que "um novo tipo de evento em diferentes plataformas no futuro" estava por vir.

Coincidência ou não, o comunicado foi feito exatamente depois que a Victoria’s Secret sofreu uma enxurrada de reivindicações de modelos e consumidoras para que a marca se tornasse mais diversa. O canhão usado pelos críticos para atingir a empresa foi a devastadora rede social.

A "campanha" surtiu efeito. No ano passado, pressionada a Victoria’s Secret avisou que o pedido para atender a diversidade estava na pauta. A brasileira trans Valentina Sampaio e a modelo plus size americana Sofia Jamora fizeram parte das seletivas para o desfile de 2018, mas as duas acabaram sem aparecer na passarela.

O público de novo reagiu. Foi aí que o ex-diretor de marketing, Edward Razek, deu um tiro no pé. Ao declarar que não enxergava o tradicional desfile anual com modelos transexuais, ele assinou a própria sentença de morte na Victoria’s Secret. "Não acho que podemos representar todos os consumidores. O desfile é uma fantasia. É um programa de entretenimento de 42 minutos", disse em entrevista à revista Vogue.

A declaração teve uma grande repercussão nas redes. Abalado, Razek precisou pedir desculpas e depois entregou a demissão.

"Foi uma conversa difícil, pois como muitos de vocês sabem, nós dividimos muitas coisas ao longo de tantos anos. Incluindo um amor profundo pelo negócio. Ainda assim, é hora de se despedir", escreveu na carta de saída.

Antes de ir embora, Razek viu em 2018 a audiência do desfile na TV despencar. "Apenas" 3,3 milhões de pessoas acompanharam a apresentação. Um número irrisório se comparado, por exemplo, a 2013, quando 9,7 milhões de seguidores da marca ficaram grudados nas telinhas para ver as novidades da marca.

 

Queda também no faturamento

 

O dinheiro ainda anda farto nos caixas da varejista líder de lingerie nos Estados Unidos, mas não como nos bons tempos. A empresa tem enfrentado perdas significativas no mercado, como a queda na venda de ações e o fechamento de lojas. Só esse ano já foram cerca de 50.

O que tem impactado nas vendas da Victoria’s Secret seria um número crescente de mulheres entre 18 e 49 anos que têm uma percepção negativa da marca, de acordo com uma pesquisa de mercado realizada pela YouGov.

Analistas vão mais além na explicação do declínio nas vendas. As mulheres não estão se importando mais em usar roupas íntimas que sejam apenas sexy. A prioridade agora é o conforto.

A concorrência já tinha percebido essa tendência e partiu na frente. Uma delas seria a ThirdLove, uma marca nova lançada no mercado por startups. Seus produtos se caraterizam por uma variação de tamanhos.

No segundo semestre, a Victoria’s Secret deu passos surpreendentes para uma marca que, até então, se recusava a apostar em mudanças.

Primeiro, a empresa divulgou em agosto que finalmente Valentina Sampaio faria parte de suas novas campanha. A brasileira é a primeira modelo trans a integrar a empresa.

No dia 4 de outubro, em outro anúncio, o grupo americano disse que concluíra uma parceria com a marca britânica de roupa íntima Bluebella. Agora, modelos que fazem parte de um público mais identificado com as diversidades estarão nas fotos da campanha chamada "Love Yourself" ("Ame a si mesma", na tradução livre).

A primeira escalada nesse time foi Ali Tate-Cutler, uma ex-jogadora de futebol profissional que virou modelo e usa manequim 46. Ela vai estrelar o lançamento de uma coleção.

Tate-Cutler divulgou a novidade em sua conta no Instagram. "Acredito que eu sou a primeira modelo que veste 46 na Victoria's Secret. Estou muito feliz por trabalhar com uma marca que idolatrava quando era adolescente. Grande passo na direção certa para os corpos", postou ela.

"O número 46 é, na verdade, o tamanho médio das mulheres nos Estados Unidos, e acredito que ele precisa ser mais visto na mídia e na moda, porque é usado pela maioria", disse Ali Tate-Cutler em entrevista ao site E! News.

"Eles estão ouvindo o público que pediu para ver mais mulheres de diversas formas e tamanhos. Eu acho que se eles continuarem nessa direção, eles ganharão um jackpot, porque isso reflete o que a mulher média é na América", concluiu.

 

                Em crise, Victoria’s Secret investe em manequins plus size para recuperar vendas

 

Não será um adeus a todas as modelos supermagras da Victoria’s Secret, mas não resta dúvida que a empresa finalmente passou a enxergar com bons olhos o potencial do bilionário mercado das consumidoras plus-size. "Estamos assistindo a uma mudança na cultura dominante, uma afirmação de que pessoas maiores merecem dignidade e merecem ter as mesmas opções que todo mundo tem. É mais do que simplesmente aumentar o tamanho de uma roupa originalmente criada para tamanhos menores. Empresas estão fazendo roupas especificamente com corpos maiores em mente e clientes estão comprando essas roupas. Todo mundo ganha", afirmou Bruce Sturgell, editor-chefe do Chubstr.

 

Modelos contra o assédio

 

Mesmo se abrindo para outros públicos, a vida da Victoria’s Secret não anda nada fácil. Em agosto, um grupo de mais de 100 modelos fez um abaixo-assinado para pedir que a grife proteja suas angels. A manifestação aconteceu depois que vieram a público denúncias de casos de assédio sexual, estupro e tráfico de modelos e aspirantes a profissão. Muitas mulheres que assinaram o documento já desfilaram pela marca.

A carta aberta foi escrita pela ONG Model Alliance, que trabalha por melhores políticas na indústria da moda, e direcionada ao CEO da Victoria’s Secret, John Mehas. No texto, as modelos alegam que os graves crimes estão associados à pessoas que tinham algum tipo de conexão com a grife. Entre eles estaria o empresário Jeffrey Epstein, que aliciava meninas dizendo que era um recrutador da Victoria’s Secret.

Apesar de não trabalhar na marca, Jeffrey tinha uma relação próxima com os dirigentes do grupo L Brands, dono da grife.

Os participantes ainda cobram que a Victoria’s Secret adote o programa RESPECT, da Model Alliance, com a implantação de um código de conduta. A proposta envolve treinamento contra assédio sexual, além de criar um ambiente aberto para denúncias e investigações de casos do tipo.

"Enquanto essas denúncias podem não estar diretamente ligadas à Victoria’s Secret, é claro que a sua companhia tem um papel crucial em resolver essa situação. De manchetes sobre Jeffrey Epstein, amigo próximo do CEO da L Brands, Leslie Wexner, a acusação de má conduta de fotógrafos como Timur Emek, David Bellemere e Greg Kadel, é preocupante que esses homens tenham usado sua relação de trabalho com a grife para abusar e ludibriar de garotas vulneráveis", diz parte da carta.

Doutzen Kroes, que já foi uma das angels, e a atriz e ativista Milla Jovovich foram algumas das que assinaram o documento, que denuncia ainda maus tratos no ambiente de trabalho.

 

Veja também

Olá, deixe seu comentário para Em crise, Victoria’s Secret investe em manequins plus size para recuperar vendas

Enviando Comentário Fechar :/