Governo mexicano ordenou que seu representante em Buenos Aires volte imediatamente para seu país

O fato aconteceu em uma famosa livraria da capital argentina. No dia 26 de outubro, pouco depois de uma e meia da tarde, o diplomata entrou na conhecida loja El Ateneo, que fica na avenida Santa Fé.

Quando Oscar Ricardo Valero Recio Becerra, de 76 anos, deixava o local, um alarme disparou. Um funcionário da livraria foi até a calçada e pediu para que o embaixador retornasse.

Na sequência, os seguranças pediram para ver o recibo da compra.

Becerra, então, apresentou um comprovante de pagamento, mas era de outro produto que ele havia adquirido. Foi aí que a livraria recorreu à gravação das imagens do circuito interno e encontrou o exato momento em que o diplomata retirou o livro da prateleira.

Primeiro, Oscar Ricardo enfiou o exemplar no meio de um jornal que tinha em mãos e depois em uma sacola plástica (veja o vídeo no alto da página).

Os funcionários da livraria decidiram chamar a polícia. Quando os agentes interrogavam o diplomata no local, ele revelou ser um embaixador.

A ocorrência foi levada para o Tribunal Federal número 10 de Buenos Aires, presidido pelo juiz Julián Ercolini. O meritíssimo mandou liberar Oscar Ricardo. Becerra não permaneceu preso porque tem imunidade na Argentina. Pelas regras diplomáticas, ele não pode ser processado, julgado ou preso no país.

O embaixador só poderia permanecer detido se as autoridades argentinas pedissem para que o México retirasse os benefícios diplomáticos de Becerra, mas o governo local abriu mão de fazê-lo.

No último domingo, dia 8 de dezembro, o caso se tornou público quando o site Infobae contou a história. O ministro de Relações Exteriores do México, Marcelo Ebrard, ordenou que Oscar Ricardo retornasse imediatamente para seu país.

Em sua conta no Twitter, Ebrard disse que o Comitê de Ética mexicano investigará o caso e poderá cassar o cargo de Oscar Ricardo.

"Pedi ao Comitê de Ética que analise o caso do embaixador na Argentina, acusado de roubar livros em uma famosa livraria. Por enquanto, pedi para ele voltar para casa. Se for verificado que o vídeo é verdadeiro, ele será afastado da posição imediatamente. Tolerância zero à desonestidade", publicou Ebrad.


A carreira de Becerra e os embaraços diplomáticos

 

O embaixador Oscar Ricardo Becerra chegou a Buenos Aires para assumir seu cargo no dia 15 de julho. Ele foi escolhido pelo presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador.

Antes de se tornar embaixador em Buenos Aires, Becerra integrou a equipe do Instituto de Pesquisa Jurídica da Universidade Nacional Autônoma do México e dirigiu o Centro Latino-Americano de Globalidade. Entre 2001 e 2004, atuou como embaixador no Chile, no governo de Vicente Fox (2000-2006). Ele também foi subsecretário de Relações Exteriores no governo do presidente mexicano Miguel de la Madrid (1982-1988).

Diante da repercussão do caso do embaixador em Buenos Aires, López Obrador pediu "que não haja linchamentos públicos" a Becerra, seu amigo pessoal.

"Todos cometemos erros", disse Obrador. "Esta é uma pessoa com uma carreira, diria limpa em política externa", afirmou o presidente.

"Ele é diplomata de carreira, é homem de muita cultura, esteve nos melhores tempos do Ministério das Relações Exteriores (SRE) como subsecretário da agência. Ele era um legislador, coordenador do grupo parlamentar do Partido da Revolução Democrática (PRD)", continuou em sua fala.

"Nesse caso infeliz, a SRE está atendendo para ver o que é apropriado, para que não haja linchamentos públicos e políticos", explicou López Obrador.

O presidente lembrou ainda que ele próprio já passou por uma situação parecida quando foi eleito chefe de governo. O episódio aconteceu em uma conhecida livraria na Cidade do México.

"Um homem lá dentro me deu um livro. O convidado com quem eu ia conversar não chegou e eu saí com o livro na mão. Então eles me pararam, me pediram para apresentar a nota e eu disse a eles que me entregaram. 'Você pode me tirar' eu disse a eles, 'aí está' e eu deixei (o livro)", contou.

"Uma semana depois voltei, e o dono (da livraria), que já morreu, descobriu e me deu cerca de 10 volumes sobre a Cidade do México, de Fernando Benítez (autor). Eles não sabem o quanto esses livros me serviram, porque meus adversários disseram que eu não conhecia a Cidade do México, que eu era de Tabasco (estado natal de Obrador)", relembrou.

 

O livro

 

O livro que o embaixador mexicano carregava escondido em meio a seus pertences é a biografia de Giacomo Casanova, um autor e aventureiro italiano que viveu no século XVIII. Casanova se tornou conhecido por ter mantido muitas relações amorosas.

Na livraria El Ateneo, o preço de um exemplar é de 590 pesos, cerca de R$ 41.

 

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