As operações de buscas estão batendo todos os recordes de esforços já vistos no Brasil. Esses guerreiros jamais poderão ser esquecidos
Enquanto milhões de brasileiros brincavam no carnaval, bombeiros continuaram a procura por corpos em Brumadinho

 

Nunca houve nada parecido na história do país. Desde o dia 25 de janeiro, quando rompeu a barragem da represa de Córrego do Feijão, os bombeiros estiveram presentes diariamente nas operações de buscas. O número de profissionais que se rastejaram no lamaçal, participaram dos trabalhos na base da corporação e em voos já ultrapassa a 1800. Devido ao esgotamento das tropas de Minas Gerais, foi preciso recorrer à ajuda de militares de outros estados. Até de Israel vieram especialistas em resgates. No carnaval não foi diferente. Nos quatro dias mais de uma centena de homens continuaram revirando escombros, entulhos e lama atrás de corpos.

O último balanço divulgado pelos bombeiros trazia a confirmação de 186 mortos na tragédia. As equipes ainda procuram pelos corpos de 122 pessoas. Mas, afinal, até quando esses trabalhos devem continuar? Essa pergunta tem sido feita constantemente pela população e, principalmente, pelos parentes que ainda esperam ter a chance de sepultar os entes que estão soterrados.

Para poder atender a dolorosa expectativa dos familiares, a atuação das equipes de resgate não foi suspensa um único dia desde que a barragem de Brumadinho se rompeu. Quanto mais o tempo passa, maiores se tornam também os números que envolvem a tragédia.

Vasculhar toda a área não é tarefa fácil. As equipes estão revirando 10,5 milhões de metros cúbicos de rejeitos. Segundo comparação feita pelo Corpo de Bombeiros, a quantidade seria suficiente para encher 4200 piscinas olímpicas, ou erguer quatro pirâmides do tamanho de Quéops, a maior do Egito.

O total da área atingida representa 10 quilômetros de extensão, ou quatro milhões de metros quadrados. Isso equivale a uma superfície superior a mais de uma lagoa e meia como a da Pampulha.

Foram empregadas 62 máquinas pesadas, 31 aeronaves e 22 equipes de cães farejadores. As ações de busca e salvamento chegaram a 600 horas.

Outra parte fundamental nos trabalhos é a de inteligência. Os técnicos aplicam modelos matemáticos para entender o comportamento do fluxo de lama. Eles também usam como referência a localização de corpos que foram encontrados, os sinais de celulares e mobílias de locais destruídos.

Um moderno aparato tecnológico também tem sido fundamental. Além de drones com tecnologia de leitura térmica, os bombeiros recorrem a imagens de satélite e de instrumentos de alta precisão no monitoramento. Compreender esses dados exigiu que o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) tivesse profissionais qualificados para interpretarem as informações. Os especialistas da corporação foram treinados no Brasil e em países como Japão, Reino Unido e Portugal.

A sofisticação do trabalho deles incluiu aulas especiais para os aviadores dominarem as atividades com drones e outras demandas aéreas.

Um mês e dez dias depois do rompimento da barragem, mais de 60% dos corpos dos desaparecidos foram localizados. O CBMMG confirma que realizou mais de 378 recuperações de corpos e "segmentos corpóreos". Todo o material recolhido é repassado à Polícia Civil, responsável pelo trabalho de identificação das vítimas.

Pedro Aihara, porta-voz dos bombeiros, explica que apesar das dificuldades não há uma previsão para o fim das buscas. "Só existem duas possibilidades de término: todos os desaparecidos serem localizados, ou não existir mais condição biológica para o resgate dos outros corpos", garante o oficial.

Aihara lembra que a missão deles se torna ainda mais delicada quanto mais os dias passam. "Chega um ponto em que o estado de decomposição é tão avançado que fica impossível fazer a remoção de um corpo porque a matéria orgânica e lama se misturam e não há como fazer o resgate", detalha o porta-voz.

Um recurso para ajudar na identificação dos corpos em decomposição é o teste de DNA, mas nesse caso demanda tempo por causa do procedimento complexo.

Todo o trabalho de identificação é feito por qualificados legistas da Polícia Civil de Minas Gerais.

 

Enquanto milhões de brasileiros passaram 4 dias brincando no carnaval, centenas de bombeiros continuaram a procura por corpos em Brumadinho

 

A árdua batalha dos bombeiros

 

A jornada das equipes de buscas exige um preparo extraordinário dos militares. Os escalados chegam a trabalhar 12 horas por dia. Como o desgaste deles é enorme, o revezamento se torna fundamental.

Na primeira fase a procura por corpos foi concentrada na superfície da lama e em pequenas profundidades do terreno. Os esforços físicos dos homens era muito maior e, por isso, houve a necessidade de se pedir ajuda a outras corporações. Doze estados socorreram Minas Gerais emprestando bombeiros.

Do nordeste vieram reforços de Alagoas, Bahia, Maranhão e Sergipe. Do centro oeste, equipes do Distrito Federal e Goiás. Os três estados do sul do país (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e os vizinhos do sudeste (Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo) completaram a lista.

"Nas primeiras semanas, quando fizemos muita busca superficial, a possibilidade de encontrar corpos nos estratos superficiais era muito maior, a gente utilizava mais efetivo e menos máquina. Agora, como utilizamos mais máquinas e menos efetivo, não existe a necessidade tão grande de solicitar rodízio com os bombeiros de Minas", explica Aihara.

Mas a preocupação com os militares não se resume a parte física. Conviver com uma tragédia dessa exige também preparação emocional. Uma equipe de médicos e psicólogos acompanha de perto os trabalhos.

"Quando a gente tem um grande acidente, como Brumadinho, como Mariana, todos que participam das operações vão sendo monitorados durante e depois da ocorrência. Se o militar apresenta algum tipo de problema, seja médico ou psicológico, ele recebe todo acompanhamento", afirmou Pedro Aihara.

Mesmo depois que os bombeiros deixam a área de atuação eles continuam sendo observados pelos profissionais de saúde, principalmente por causa dos riscos de contaminação e problemas emocionais.

"Eles passam por consultas logo após as operações. Depois com três e seis meses e com um ano para a gente garantir que eles não desenvolveram nenhum problema em decorrência da situação. Esse acompanhamento é feito muito de perto para se evitar problemas como síndrome de burnout, estresse pós traumático, ou mesmo contaminação com metais pesados", relatou o tenente.

 

Voos, outro recorde

 

No balanço feito após um mês de trabalho, outro número que impressiona é o das operações com as aeronaves. Em média foram realizados 299 pousos e decolagens por dia. No aeroporto de Confins, por exemplo, cerca de 260 aviões levantam voos e aterrizam diariamente. Somadas todas as horas de trabalho dos helicópteros em Brumadinho se chegou a 1516. O tempo é tão extraordinário que seria possível dar quase oito voltas completas ao redor do mundo.

Trinta e uma aeronaves e sete drones do CBMMG, com recursos de imagem termal, participaram das ações. Um balão de observação e um radar de drones fazem parte da parafernália de equipamentos. O QG dos bombeiros tem ainda uma estrutura de controle de voos. Nunca se viu uma operação aérea de busca e salvamento tão grande no Brasil.

 

Enquanto milhões de brasileiros passaram 4 dias brincando no carnaval, centenas de bombeiros continuaram a procura por corpos em Brumadinho

 

O trabalho dos cães farejadores também tem sido essencial para a operação. Nos últimos dias, todos os corpos e segmentos localizados foram encontrados com o apoio dos animais. Esse recurso aumenta a capacidade de busca das equipes.

Cerca de 55 órgãos públicos atuaram em conjunto no acidente provocado pelo rompimento da barragem da Vale. Com a ajuda da Polícia Civil, dois estelionatários que inseriram nomes falsos na lista de desaparecidos foram descobertos. As equipes acabaram poupadas de fazer procuras desnecessárias. 

Atualmente, os trabalhos se concentram em 15 pontos. Algumas áreas que estavam alagadas precisaram ser drenadas para que os bombeiros pudessem avançar nas operações.

"A gente teve no Brasil tragédias maiores em número de vítimas como, por exemplo, os deslizamentos na região serrana do Rio de Janeiro (918 mortos e 99 desaparecidos). Mas, em termos de operações de busca e resgate, sem dúvida nenhuma é a maior da história, seja pelo nível de agências envolvidas, pelo efetivo empenhado, pelas horas de voo trabalhadas e pelas dimensões da tragédia humana", completou o porta-voz Pedro Aihara.

 

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Marcia Mendes

Marcia Mendes

Os bombeiros de Minas são o nosso maior orgulho!
★★★★★DIA 07.03.19 02h11RESPONDER
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Francisco. Guimarães

Francisco. Guimarães

Verdadeiros heróis da nação !
Que Deus conforte todas as famílias enlutadas , que Deus abençoe os bombeiros !!
Gratidão !
★★★★★DIA 07.03.19 00h42RESPONDER
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Fernando Henrique Cardoso

Fernando Henrique Cardoso

"Até de Israel vieram especialistas em resgates". E como ajudaram e muito.
★★★★★DIA 06.03.19 18h24RESPONDER
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