As mortes aconteceram depois que os trabalhadores foram dispensados ou assediados pelos diretores de uma empresa de telecomunicações
Executivos franceses estão sendo julgados pelo suicídio de funcionários

Com certeza, você nunca ouviu falar tanto sobre demissões. Não tem nenhuma família que não esteja convivendo com esse fantasma. Entre seus amigos, provavelmente, também existe alguém que deixou recentemente um emprego por dispensa.

No Brasil, oficialmente, hoje 13,2 milhões de pessoas estão nessa situação, segundo dados da última pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no final de maio.

Isso sem falar nos desalentados, aqueles que desistiram de procurar emprego e resolveram trabalhar por conta própria. São os que estão tentando "se virar sozinhos". Eles já somam 4,9 milhões. No primeiro trimestre de 2019, esse número cresceu 4,2% (mais 199 mil pessoas) em comparação ao mesmo período do ano passado.

Mais preocupante ainda é saber que o alto desemprego não se trata de uma exclusividade do Brasil. Pelo contrário, estamos diante de uma tendência mundial. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), no ano passado cerca de 172 milhões de pessoas não tinham emprego.

Nem os países mais desenvolvidos escapam da dura realidade. Entre os integrantes da União Europeia, a França tem uma taxa de desemprego de 8,8%, enquanto a Itália aparece com 10,5%, a Espanha com 14,1% e a Grécia 18,5%.

 

França e o julgamento da Orange

 

O primeiro grande julgamento que se tem notícia sobre onda de suicídios e assédios em uma megaempresa está ocorrendo na França. Para entender melhor o caso, primeiro saiba o que desencadeou o processo do desligamento dos funcionários.

A France Telecom é uma antiga empresa estatal de telecomunicações que foi privatizada em 2004. Ao passar para as mãos da iniciativa privada, a companhia foi rebatizada de Orange

Nos últimos 15 anos, a gigante vem passando por vários processos de reestruturação. O mais impactante foi o da redução do número de funcionários.

Em 2006, a empresa decidiu encolher seu contingente e cortou 22 mil postos. Outros 14 mil colaboradores tiveram que trocar de posições. A redução representou quase 20% da força de trabalho da France Telecom - Orange. A ideia era enxugar ainda mais, mas grande parte dos empregados era de funcionários públicos e eles não perderam a estabilidade quando a empresa deixou de ser do governo.

Foi aí que começou o drama de muitos, que alegaram assédio moral depois das mudanças. Indesejados pelos novos executivos, eles teriam sofrido todo tipo de pressão para se sentirem desconfortáveis nos cargos.

Entre 2007 e 2010, sem suportar a angústia das importunações, dezenas de funcionários teriam tirado a própria vida ou chegado perto desse desespero. As investigações se concentraram em 19 suicídios, 12 tentativas de suicídio e oito casos de depressão aguda entre trabalhadores. Mais 126 pessoas alegam ainda que sofreram problemas de saúde mental por causa da cultura da empresa.

As famílias atribuem aos executivos da Orange a responsabilidade pelos atos extremos de seus parentes.

Em vários casos, as vítimas deixaram mensagens culpando a empresa pela angústia deles. Em um e-mail de despedida ao pai, uma mulher de 32 anos disse que não queria trabalhar com o novo chefe. Na frente dos colegas, ela se jogou do quinto andar do prédio corporativo.

Em Marselha, o funcionário Michel, que tinha 51 anos, escreveu: "estou tirando minha própria vida por causa do meu trabalho na France Telecom. Esse é o único motivo". No bilhete ele ainda reclamou do "permanente senso de urgência, excesso de trabalho, falta de treinamento e total desorganização da companhia", além do "gerenciamento de equipe à base de terror".

Christel tinha 37 anos e "cortou as veias" em frente aos seus superiores, depois que foi informada que seria transferida naquele dia.

Herve, de 52 anos, foi impedido por seus colegas de se jogar da janela do escritório, mas ninguém conseguiu deter Jean-Michel, de 53 anos, que se atirou na frente de um trem quando falava pelo celular com seus representantes sindicais.

Um funcionário de 57 anos, que já estava na France Telecom há três décadas, ateou fogo no próprio corpo no estacionamento da empresa. François Deschamps, do sindicato CFE-CGC Unsa, contou à agência de notícias francesa AFP que o homem trabalhava por último no call center da empresa, depois de ser obrigado a trocar de cargo repetidas vezes. "Essas mudanças forçadas fizeram com que ele tivesse que vender sua casa", afirmou Deschamps.

"Ele havia escrito para a gerência em diversas ocasiões e, no meu entendimento, não obteve nenhuma resposta. Eu o vi duas ou três semanas atrás. Eu não imaginei que ele estava prestes a cometer suicídio", narrou Deschamps

 

Quem são os acusados

 

O julgamento começou quase sete anos depois de a France Telecom - Orange ter sido acusada pela primeira vez após as investigações do sindicato Sud. Sete executivos e ex-gestores agora enfrentam um processo movido pelas famílias. Os promotores estão usando como base uma lei sobre assédio moral aprovada em 2002, depois que governo incluiu o conceito de "saúde física e mental" na legislação trabalhista francesa.

Na argumentação, os promotores bateram na tecla que os executivos decidiram "tornar a vida dos empregados intolerável". Eles alegam que os chefões promoveram "condições de trabalho degradantes que colocam em risco os direitos e a dignidade dos indivíduos, alterando a saúde mental ou física, ou comprometendo o futuro profissional dos mesmos". Todos são acusados de promover um sistema de "assédio moral institucionalizado", com o objetivo de forçar funcionários a pedirem demissão, segundo a agência de notícias Associated Press.

Diante da impossibilidade de demissão, já que os funcionários foram contratados quando a companhia era pública e, portanto, tinham a estabilidade garantida por lei, os executivos decidiram "tornar a vida deles intolerável", disseram os promotores do caso.

Em uma reunião de gerentes em 2006, o ex-CEO da France Telecom - Orange, Didier Lombard, teria dito: "Eu vou tirá-los daqui de um jeito ou de outro". Em uma fala mais dura ainda ameaçou: "Pela porta ou pela janela".

 

Executivos franceses estão sendo julgados pelo suicídio de funcionáriosDidier Lombard, ex-CEO da Orange

 

As oitivas do julgamento duraram dois meses. No banco dos réus estiveram, além de Didier Lombard, o ex-diretor de RH Olivier Barberot e o ex-diretor executivo adjunto Louis-Pierre Wenes.

Na sexta-feira (12/07) foram colhidos os últimos depoimentos. As testemunhas dos parentes falaram invariavelmente sobre a pressão que seus entes sofreram por parte dos gerentes. Em muitos momentos, os familiares se emocionaram com os relatos que fizeram.

A filha do homem que colocou fogo no próprio corpo no estacionamento da sede da Orange, em Bordeaux, disparou contra os acusados: "Vocês mataram meu pai".

Lombard, que saiu da empresa em 2009, em meio ao escândalo de suicídios, negou qualquer responsabilidade pelas mortes. Ele reconheceu apenas que o processo de reestruturação frustrou a muitos funcionários.

"As transformações pelas quais um negócio precisa passar não são agradáveis, mas é assim que funciona. Não tinha nada que eu pudesse ter feito", disse. Os suicídios foram causados ​​por "dificuldades locais, sem vínculos" e sem relação com a empresa.

O advogado de Lombard, Jean Veil, argumentou que é "surpreendente" o cliente dele ser "suspeito de assédio a pessoas que ele nunca viu".

Apesar de Didier negar ter falado que iria infernizar a vida de seus comandados, a promotora Françoise Benezech insistiu na tese do assédio. "Não há dúvida de que, ao reestruturar a empresa, com grandes cortes de empregos e transferências, os gestores sabiam que estavam desestabilizando seus funcionários", disse Françoise. "Na realidade, vocês queriam desestabilizá-los", completou a promotora.

A advogada da Orange baseou a defesa no argumento de que as evidências não provam que qualquer das vítimas tenha sido intencionalmente assediada. Claudia Chemarin fez um apelo para que os juízes analisem o caso de maneira "objetiva".

Mas um executivo sênior, que representou a direção da Orange, admitiu no julgamento que a companhia falhou em zelar pelos funcionários "mais vulneráveis".

Se os executivos da companhia forem condenados, eles podem pegar um ano de cadeia e pagar, cada um, uma multa de US$ 16.800 (cerca de R$ 62,8 mil). A empresa também pode ser multada em US$ 84.000 (R$ 314,1 mil).

 

Mais casos na França

 

A France Telecom - Orange não é a única acusada em promover uma política criminosa de assédio a funcionários. A lista inclui ainda as montadoras Renault e Peugeot, o serviço de correios da França, empresas de energia, bancos, supermercados, polícia e centros de pesquisa. No total, 294 funcionários se mataram entre 2005 e 2015, segundo cálculos da professora Sarah Waters, da Universidade de Leeds, no Reino Unido.

O julgamento da Orange está sendo considerado emblemático porque foi a primeira vez que promotores públicos entram com ações contra uma empresa pelo suicídio de funcionários. Analistas acreditam que a sentença, caso seja desfavorável a empresa de telecomunicações, tem potencial para gerar amplo impacto na França e no exterior.

 

O que fala a Orange

 

O site da BBC News entrou em contato com a Orange para que a empresa pudesse se manifestar. Um porta-voz explicou que é um "momento muito difícil para as famílias dos empregados" e que o julgamento analisou "alguns dos momentos mais difíceis da história da empresa".

Em defesa da instituição, ele disse que a Orange acredita que "o progresso econômico e o progresso social andam de mãos dadas". Por fim, usou os dados internos da pesquisa anual de satisfação que apontou um índice de 88% favorável a empresa quando os funcionários são perguntados se têm orgulho de trabalhar na Orange.

O veredito do mediático julgamento, que virou um dos principais assuntos na França nas últimas oito semanas, só será conhecido no dia 20 de dezembro.

 

Veja também

Olá, deixe seu comentário para Executivos franceses estão sendo julgados pelo suicídio de funcionários

Enviando Comentário Fechar :/