Os casos aconteceram esse ano no México, Colômbia, Equador, Myanmar, Sri Lanka e na Índia. As falsas notícias davam conta de que homens sequestravam crianças. Pelo menos nove pessoas morreram nesses países.
Fake news leva a onda de ataques e mortes de inocentes em vários países

Quem cria esse tipo de notícia talvez não imagine o fim que essa história possa ter. Em todos os países a mentira foi contada da mesma forma, através de mensagens de WhatsApp que se espalharam rapidamente. O texto dizia que uma determinada cidade estava infestada de sequestradores de crianças. Depois de raptadas elas eram mortas e tinham órgãos retirados. Em vários lugarejos a informação trouxe pânico aos moradores. Antes mesmo de procurar saber se era verdade muitos foram para as ruas e sacrificaram inocentes apostando que eram suspeitos. As fake news estão mostrando o lado mais perverso que as falsas notícias podem ter de consequência ao homem. 

No México uma das barbaridades aconteceu em uma pequena cidade chamada Acatlán, que fica no estado de Puebla. Foi no dia 29 de agosto. Ninguém sabe ao certo como a falsa notícia se espalhou pelo WhatsApp, quem foi o primeiro a divulgar. Os boatos diziam que havia no lugarejo homens que estariam sequestrando crianças. 

"Por favor, estejam todos atentos porque uma praga de sequestradores de crianças entrou no país. Parece que esses criminosos estão envolvidos com o tráfico de órgãos. Nos últimos dias, crianças de quatro, oito e catorze anos desapareceram e algumas foram encontradas mortas com sinais de que seus órgãos foram removidos", contava a mensagem que em momento algum foi checada, apenas compartilhada. 

 

A fatalidade dos Flores

 

Ricardo Flores, um estudante de direito de 21 anos que morava em Xalapa e tinha ído visitar familiares, e seu tio Alberto Flores, um agricultor de 43 anos que morava em uma comunidade nas cercanias de Acatlán, tinham saído de casa para comprar material para terminar a construção de um poço quando a mentira começou a correr de celular em celular. 

Até hoje não está claro porque algumas pessoas suspeitaram que Ricardo e Alberto seriam os sequestradores. O certo é que os dois reagiram mal diante das insinuações de populares de que poderiam ser eles e acabaram detidos pela polícia sob a justificativa de "perturbar a paz". 

A notícia da prisão dos Flores se espalhou da mesma forma que os boatos das crianças sequestradas. Em poucos minutos uma multidão enfurecida foi parar na porta da delegacia querendo fazer justiça com as próprias mãos. Dali para frente o que se viu foi um verdadeiro filme de terror. Os protestos ficaram incontroláveis. Em vão os policiais gritavam que os detidos não eram sequestradores, que se tratavam apenas de delinquentes. "Eles são pequenos infratores", repetiam à medida que a concentração aumentava.

O líder da baderna seria um senhor chamado Francisco Martinez, antigo morador de Acatlán, conhecido como "El Tecuanito". A polícia conta que Martinez ajudou a compartilhar mensagens no Facebook e no Whatsapp acusando Ricardo e Alberto. Ainda mais exaltado na delegacia, "El Tecuanito" teria feito uma transmissão ao vivo pelo Facebook.

"Povo de Acatlán de Osorio, Puebla, por favor, venha dar seu apoio, mostre seu apoio", dizia ele para a câmera. "Acreditem em mim, os sequestradores estão aqui agora".

Outro personagem macabro dessa tragédia é Petronilo Castelan, que tem o apelido de "El Paisa". Ele usou um alto-falante para pedir dinheiro aos moradores com o intuito de comprar gasolina e atear fogo nos suspeitos. 

A covardia se deu da seguinte forma. A delegacia foi invadida e Ricardo e Alberto foram arrastados para o lado de fora por pretensos justiceiros. Na entrada do prédio primeiro os dois foram brutalmente espancados. Depois a gasolina foi derramada sobre os corpos e o fogo aceso.  

 

Fake news leva onda de ataques e mortes de inocentes em vários países Enquanto os corpos eram queimados, moradores faziam transmição ao vivo pelo Facebook

 

A tragédia foi acompanhada ao vivo pelos familiares dos Flores através de imagens do Facebook. Hoje, cinco pessoas estão sendo acusadas de incitação ao crime e outras quatro de assassinato. Martinez e Castelan estão entre os denunciados. 

 

Onda de violência propagada pelos boatos do WhatsApp

 

Mas não pense que a imbecilidade de Acatlán se trata de um fato isolado. Há vários outros registros de episódios parecidos também no México e em outros países. Um dia depois do assassinato de Ricardo e Alberto, um grupo de sete pintores de casas, igualmente acusados de serem sequestradores infantis, por muito pouco não foram linchados por moradores da cidade de San Martin Tilcajete, no sul de Oaxaca. Os policiais conseguiram resgatar a tempo as vítimas que eram inocentes. 

Mas no mesmo dia, em Tula, no Estado de Hidalgo, um casal não teve a mesma sorte. Mesmo inocentes foram acusados de raptar crianças. Os dois acabaram espancados e queimados até a morte.

 

Fake news leva onda de ataques e mortes de inocentes em vários países Violência em Tula. Uma vítima morreu queimada na rua. A segunda no hospital da cidade

 

A história dos sequestros mentirosos fez vítimas também no Equador. No 16 de outubro, dois homens e uma mulher foram mortos por uma multidão após serem falsamente acusados em boatos que circularam pelo Whatsapp de sequestrar crianças. No dia 26 de outubro, em Bogotá, na Colômbia, um grupo matou um homem pelo mesmo motivo.

Tragédias parecidas aconteceram na Índia, em Myanmar e no Sri Lanka graças a boatos e notícias falsas divulgadas no Facebook e no WhatsApp. 

Em Assam, um estado indiano, no dia 9 de julho, dois homens foram espancados até a morte porque moradores de um vilarejo suspeitaram que o engenheiro de som Nilotpal Nath e o artista digital Abijeet Nath eram traficantes de crianças. Eles voltavam de uma viagem onde foram gravar sons da natureza e pararam em Assam para pedir informação. Deram azar de encontrar uma população amedrontada com um vídeo editado a partir de um filme de segurança infantil paquistanês que alarmava que pessoas estranhas "estavam indo até a sua cidade" sequestrar crianças. Nilotpal e Abijeet não falavam o idioma local.

 

Fake news leva onda de ataques e mortes de inocentes em vários países Nilotpal Nath e o artista digital Abijeet Nath

 

As atrocidades provocadas a partir da disseminação dos boatos trouxeram à tona novamente o debate sobre a política do WhatsApp em manter as mensagens criptografadas, o que torna impossível rastrear a origem de qualquer conteúdo compartilhado no aplicativo. 

O governo indiano fez vários apelos para que o sistema fosse modificado, mas a empresa não concordou. Enquanto isso, irresponsáveis continuam espalhando falsas noticiais de sequestro levando medo a comunidades na Índia e no México. 

Para combater as fake news de violência, 10 governos estaduais mexicanos criaram campanhas para chamar a atenção da população. As autoridades alertam para as pessoas não caírem na onda de mensagens falsas nas redes sociais sobre sequestros de crianças. Na capital a polícia criou grupos de WhatsApp para falar diretamente com os moradores de 300 bairros e desmentir os boatos. 

"Acreditamos que, de cada dez crimes, a tecnologia é usada em nove", diz Jose Gil, vice-ministro de Informações e Inteligência Cibernética da Cidade do México, ao site da BBC News.

"As redes sociais podem realmente afetar uma comunidade por meio da disseminação de informações falsas que muitos de nós percebem como verdadeiras, porque são enviadas por pessoas em quem confiamos", completa. "A sociedade precisa realmente avaliar o que é verdadeiro e o que é falso, e decidir o que é confiável e o que não é."

Dona Maria del Rosario Rodriguez, mãe de Ricardo Flores, o estudante de direito assassinado em Acatlán, resumiu em uma só frase o que levou uma parte grande da vida dela. 

"Tudo isso aconteceu por causa dos rumores e porque as pessoas foram levadas por esses rumores."

 

Fake news leva onda de ataques e mortes de inocentes em vários países  Enterro dos Flores em Acatlán

 

 

 

 

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Marcia Mendes

Marcia Mendes

Uma loucura mesmo!
★★★★★DIA 15.11.18 21h51RESPONDER
Guilherme Mendes
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

A falta de responsabilidade de algumas pessoas tem levado a humanidade viver grandes pesadelos. Pior é saber que podemos passar por problemas muito maiores devido a insanidade de alguns homens.

★★★★★DIA 16.11.18 15h05RESPONDER
N/A
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Marcia Mendes

Marcia Mendes

Uma loucura mesmo!
★★★★★DIA 15.11.18 21h51RESPONDER
Guilherme Mendes
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

O ser humano precisa enteder que a vida é feita de limites. Não podemos tudo. Obrigado por vistar o nosso blog 

★★★★★DIA 16.11.18 15h02RESPONDER
N/A
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