O Catar já avisou que não dá conta de sediar um mundial com 48 seleções, mas o presidente da FIFA articula sem parar para defender seus interesses políticos
 FIFA tenta colocar inimigos na mesma mesa para organizar uma Copa do Mundo gigante

Sabe aquela história de colocar um time inteiro de futebol dentro de um fusquinha? É isso o que a FIFA quer fazer no mundial de 2022. Mas o Catar, país sede da Copa, não concorda porque já gastou uma baba de dinheiro para construir oito estádios e até uma cidade inteira para receber torcedores de toda parte do planeta. O valor divulgado pelos cataris é de 210 bilhões de dólares. Você não leu errado. Nunca se investiu tanto para a realização de um mundial. Mas a estrutura desenhada não comporta mais jogos, locais de treino e hospedagem que atenda o crescimento da competição. Só que Gianni Infantino não desiste da ideia de engordar a próxima Copa com 48 seleções. O motivo para tamanha volúpia passa longe da bola. O poderoso chefão do futebol quer agradar as federações e garantir a reeleição na FIFA. Para isso, ele vai ter que fazer inimigos se unirem para ajudar na realização das partidas.

Que as próximas Copas terão 48 seleções já está certo desde janeiro de 2017. A mudança foi decidida pelo Conselho FIFA e comunicada a todos os filiados.

A alegação seria de se fazer justiça com a inclusão de mais países no mundial, evitando que seleções tradicionais fiquem de fora. Na Rússia, camisas como as da Itália e Holanda não foram vistas nos gramados.

A FIFA tá de olho grande também na hipótese de ganhar mais dinheiro com o inchaço de jogos. Segundos projeções, o aumento do número de partidas de 64 para 80 pode representar quase um bilhão de dólares a mais de receita. Na Copa de 2018, a entidade faturou cerca de U$ 6,1 bilhão.

Esses são os motivos aparentes para a FIFA defender tanto o crescimento da competição.

O combinado é que esse novo modelo seria adotado para o mundial de 2026, quando os jogos serão realizados nos Estados Unidos, México e Canadá. Mas desde o ano passado, o presidente Gianni Infantino vem defendendo com unhas e dentes que a Copa de 2022 já seja disputada por 48 seleções.

Segundo os especialistas que acompanham os bastidores da Federação Internacional, o que está por trás da pressão incansável da FIFA é um forte interesse político.

A eleição para escolher o próximo presidente da entidade está marcada para o dia 5 de junho. Os candidatos tem até o dia 5 de fevereiro para inscrever as chapas. O único nome certo no momento é o do atual presidente Gianni Infantino.

Com a confirmação de que mais países participariam da Copa do Catar, Infantino poderia conquistar votos importantes na urna, apesar da resistência dos clubes da Europa que são contra a um mundial ainda maior.

Nessa quarta-feira, Gianni voltou à carga nesse tema durante a reunião da Conferência Internacional de Esportes de Dubai.

"A Copa do Mundo será disputada no Catar, com 32 equipes. Obviamente, se pudermos aumentá-la para 48 equipes e tornar o mundo feliz, devemos tentar", afirmou.

"A discussão não é mais, 'É bom ou é ruim que vá para 48 times', é, 'podemos fazer isso antes'?", afirmou Infantino durante a Conferência.

 

A negativa do Catar

 

Querer é uma coisa, poder é outra. Essa frase resume bem o que os dirigentes do Catar pensam sobre a gordura a mais no prato do Mundial. O país vem se organizando com grande competência há alguns anos para realizar a primeira Copa na região do Golfo. Um mega projeto foi desenvolvido com a construção de oito estádios super modernos, que custarão em torno de 10 bilhões de dólares.

Uma cidade inteira também está ficando de pé para ser uma das sedes. Os gastos com as obras para erguer Lusail do zero, em pleno deserto, foram calculados em cerca de U$ 45 bilhões.

A cidade ficará a 25 km da capital Doha. Em Lusail está o estádio que receberá os jogos de abertura e da final, com capacidade para 86 mil pessoas. A estrutura contará ainda com 22 hotéis, quatro ilhas artificiais, parques, marinas e residências para uma população de 250 mil pessoas.

 

 FIFA tenta colocar inimigos na mesma mesa para organizar uma Copa do Mundo gigante Lusail será a cidade dos principais jogos

 

Tanto dinheiro vem das reservas de petróleo e gás natural, que fazem jorrar bilhões de dólares na economia. O país ocupa uma área de apenas 11,5 mil quilômetros quadrados – do tamanho da região metropolitana de Porto Alegre, ou da metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. A população é de 2,7 milhões de habitantes.

Em um território tão reduzido, nenhuma seleção vai precisar viajar de avião durante a Copa para se deslocar de uma cidade para outra. As concentrações devem ser ocupadas por quase todas as delegações em um sistema de rodízio, em função dos jogos e das fases.

"No Catar os jogadores não se desgastarão com longas viagens e poderão render um futebol melhor", explicou o chefe do Comitê Organizador, Nasser Al-Khater.

Os Centros de Treinamento, que também estão sendo construídos, terão uma infraestrutura idêntica, com dois campos e arquibancada para 500 torcedores. A previsão é de que sejam preparadas vinte e quatro unidades para as seleções.

Comodidade é o que não vai faltar para os torcedores. Eles poderão ir a todos os jogos de metrô. Cerca de 300 km de linhas ligarão 100 estações. Graças às distâncias curtas, será possível assistir a mais de um jogo por dia.

O custo de toda a preparação do Catar deve ficar em U$ 200 bilhões. Se o cronograma for cumprido, em 2020, dois anos antes da Copa, quase todas as obras estarão prontas.

Tudo estaria perfeito se a FIFA não cismasse em enfiar mais 16 países em um mundial que o Catar não se preparou para ser o maior de todos os tempos. As autoridades locais alegam que não tem como construir mais estádios e centros de treinamento.

O uso de apenas oito arenas para as oitenta partidas seria também um risco muito grande para os gramados, que ficariam sobrecarregados. Sem contar na logística dos jogos. A solução seria incluir países vizinhos também como sedes. É aí que entra um grande imbróglio diplomático.

 

 FIFA tenta colocar inimigos na mesma mesa para organizar uma Copa do Mundo gigante Estádio Fundação Catar, em Doha, para 40 mil pessoas


A briga com os vizinhos


Em junho de 2017, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito lançaram um boicote diplomático e comercial contra o Catar. Os vizinhos acusam os anfitriões da Copa de apoiar o terrorismo. Todos romperam relações.

Mesmo diante de tanta animosidade, Infantino se mantém otimista acreditando em uma Copa do Mundo no Golfo.

"Eu não sou ingênuo", disse o presidente no encontro em Dubai. "Eu leio as notícias e assisto a mídia. Então, conheço as manchetes de que há tensões nessa região específica".

Apostando no poder do esporte em unir povos, Gianni usa um discurso bem diplomático: "Há tensões nesta região em particular e cabe aos seus respectivos líderes lidarem com isso, mas talvez seja mais fácil falar de um projeto de futebol em conjunto do que de coisas mais complicadas".

A reunião do Conselho da Fifa para decidir se a Copa do Catar vira a Copa do Golfo está marcada para os dias 14 e 15 de março, em Miami, nos Estados Unidos.

 

 FIFA tenta colocar inimigos na mesma mesa para organizar uma Copa do Mundo gigante Estádio de Lusail, palco da abertura e final
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