A morte de Ricardo Boechat colocou fim a uma das figuras mais sensacionais da imprensa atual
Foi embora o professor

A rotina de Boechat não era fácil. Todos os dias ele se levantava ainda de madrugada para se preparar para o programa na rádio Band News. Pouco depois das 7h30, Ricardo dava o famoso "Bom Dia" que milhares de pessoas bem cedo aguardavam. O que viria dali para frente era uma verdadeira caixinha de surpresas.

Ao mesmo tempo em que era informativo e opinativo, o jornalista abusava também de ironias para criticar as barbaridades produzidas no mundo.

A acidez característica de Boechat no combate as injustiças, a corrupção, a ladroagem, a violência e a tantas outras crueldades se misturava a uma alegria incontrolável em fazer jornalismo.

No radar de comentários do profissional, muitos foram voltados de forma impiedosa para decisões incompreensíveis do STF (Supremo Tribunal Federal).

Boechat tinha a língua afiada. Mas também tinha uma dose de humor e uma rara visão das coisas do mundo.

Os colóquios matinais com o colunista José Simão se tornaram a marca de outra face do jornalista. Não tinha como não rir da ironia da dupla, que conseguia transformar os mais bizarros fatos do cotidiano em um fino humor.

Boechat nos deixou algumas heranças das mais preciosas. Não só a escola de jornalismo que ele fundou e a referência para quem se propõe a ser um profissional de redações, mas também lições de vida.

 

Uma brilhante carreira por "acaso"

 

Ao narrar seu início de carreira ao site NaTelinha, em 2013, Ricardo contou com enorme humildade seu despreparo ao ingressar nas redações.

"Eu não fiz jornalismo como um projeto pré-elaborado. Eu fiz jornalismo como poderia ter feito outras coisas. Tanto que eu tentei formação em atividades completamente diferentes, como ser vendedor de material de escritório, mas isso eu estou falando de uma fase da vida em que eu tinha 16 anos.

Por volta dos 17, meu objetivo era muito específico, muito focado, que era independência suficiente pra poder pagar minhas continhas, tomar meu chopp, ir ao cinema com minha namorada e tal. Essas coisas que os jovens que não tem mesada têm que conseguir por conta própria pra poder fazer o básico ou atender às demandas da adolescência, que apesar de serem relativamente baratas, são muitas.

É isso, mas a minha ansiedade era mesmo trabalhar, quem sabe morar sozinho mesmo.

Comecei meio que por acidente. Eu já tinha parado de estudar, estava de saco cheio da escola, estava vendendo livros. Na verdade minha mãe e meu pai vendiam livros e eu pegava material de propaganda de algumas coleções mais baratas, mais simples, mais geral, e procurava pais de amigos de escola.

Então eu ia à casa deles e tentava vender uma coleção ou outra e ganhava um trocadinho nessa atividade.

Até que um dia o pai de uma amiga minha reclamou que eu estava dedicando o meu tempo a uma atividade que não correspondia às minhas vocações naturais, que ele enxergava, mas eu não.

Eu gostava de escrever, escrevia com relativa facilidade, e tinha algumas características que o pai dessa minha amiga gostava muito.

Ele me disse que eu precisava trabalhar em algo que eu precisasse escrever e tal. Ele era do departamento comercial do “Diário de Notícias” e se chamava Kleber Savoia. O Kleber disse para eu ir à redação do jornal falar com o chefe de reportagem. Eu já tinha feito um curso para tentar duas ou três vagas no “Jornal do Brasil”, mas não consegui. Não só por que o JB estava a léguas de distância da minha capacidade àquela altura, como também a própria idade não me permitiria ficar com alguma das vagas.

Enfim, ele me arrumou essa apresentação e o chefe de reportagem do jornal disse "fica aí então anotando essas coisas". Fui ficando.

Não me imaginei chegando aonde chegou. O máximo foi ganhar uma grana para pagar as minhas coisas.

Sou realizado. às vezes quando eu paro pra pensar, eu acho que o destino me deu mais do que eu fiz por merecer. Eu sempre trabalhei demais, sempre fui obcecado por trabalho, mas tenho que reconhecer que a vida me deu bastante coisa. Não tive formação, nunca remei a favor da corrente, tomei uma porrada no auge de minha carreira (demitido do grupo Globo), mas estou no mercado, ganho bem. Sou realizado sim".

 

A depressão e a lição

 

Outro momento de grande ensinamento de simplicidade de Ricardo Boechat foi ao relatar a doença que o afetou em 2015.

A depressão não só atingiu em cheio a Ricardo como se tornou uma bandeira para o jornalista. Ao regressar aos microfones depois de duas semanas de afastamento, ele fez questão de narrar os momentos em que quase "saiu do ar".

No dia 27 de agosto, quando retornou a Band, Boechat não abriu mão de descrever o que tinha se passado com ele.

"Acho que devo uma explicação às centenas de pessoas que me escreveram nos últimos dias perguntando o que eu tinha e desejando minha pronta recuperação.

Pois bem, queridos amigos, o que eu tive foi um surto depressivo agudo.

Minutos antes de começar o programa de rádio da quarta-feira retrasada eu simplesmente sofri um colapso, um apagão aqui no estúdio.

Nada na minha cabeça fazia sentido. Nenhum texto era compreensível. Os pensamentos não fechavam e uma pressão insuportável dava a nítida sensação de que o peito ia explodir.

Fiquei completamente desnorteado e achei melhor me refugiar no meu camarim e esperar socorro médico.

Quando finalmente minha doce Veruska me levou ao doutor e eu descrevi o que estava sentindo ele foi categórico em dizer que era depressão.

Que o estado de pânico, a balbúrdia mental, a insegurança e tudo mais eram sintomas clássicos do surto depressivo. Quem cai num quadro desses perde qualquer condição de continuar ativo, de pensar as coisas mais simples. A pessoa morre ficando viva.

E eu fiquei impressionado nestes dias com a quantidade de gente que sofre do mesmo problema.

Quando contei a alguns ouvintes que me ligaram o que estava acontecendo, muitos disseram já ter passado por isso, ou conhecer alguém que ainda passa ou já passou. O Barão me mostrou um vídeo produzido pela ONU indicando que esse fenômeno é global.

Uma amiga minha citou números da Organização Mundial da Saúde afirmando que a depressão é a doença que mais cresce no mundo. E o Bruno Venditti me mandou um texto muito bom do pregador Élder Holland sobre o assunto.

Tanto o vídeo da ONU quanto esse texto deixam claro que é importante não esconder a doença, não esconder a depressão.

Não tratá-la na clandestinidade. É importante aceitá-la para combatê-la – e todo o silêncio, do próprio doente ou de quem está à sua volta, dificulta a recuperação. Essa necessidade de não fazer segredo, além da sinceridade que faço questão de manter na relação com os ouvintes, é a razão deste depoimento pessoal.

O texto que eu li fala do ‘transtorno depressivo maior’ lembrando que isso não significa apenas um dia ruim, ou um contratempo, ou momentos de desânimo ou ansiedade, que são coisas que todos temos normalmente.

A depressão é muito mais que isso e muito mais séria.

É uma aflição tão severa que restringe a capacidade de uma pessoa funcionar plenamente, um abismo mental tão profundo que ninguém pode achar que vai se safar apenas endireitando os ombros ou pensando coisas positivas. Não, minha gente, essa escuridão da mente e do estado de espírito é mais do que um simples desânimo.

É um desequilíbrio da química cerebral, algo tão físico quanto uma fratura óssea, ou um tumor maligno.

O texto que eu li ensina que para prevenir a doença da depressão é preciso estar atento aos indicadores de estresse em sua própria vida. Assim como fazemos com nosso carro, é fundamental observar a temperatura do nosso motor interno, os limites de nossa velocidade, ou o nível de combustível que temos no tanque.

Quando ocorre a ‘depressão por exaustão’, que foi o meu caso, é preciso fazer os ajustes necessários.

A fadiga é o inimigo comum e recuperar forças passa a ser uma questão de sobrevivência. A experiência mostra que, se não reservarmos um tempo para nos sentirmos bem, sem dúvida depois teremos que dispender tempo passando mal.

E foi o que aconteceu. Mas a cura existe.

Às vezes requer tratamentos demorados. Mas, como está no texto que eu li, “mentes despedaçadas também podem ser curadas, assim como corações partidos”.

Eu sei que quem liga o rádio numa estação de notícias quer receber informações de interesse geral, quer saber da política, da economia, dos acidentes, do engarrafamento nosso de cada dia.

Então peço desculpas por não entregar nada disso a vocês neste papo inicial no dia de minha volta. Nada de impeachment, de renúncia, de Cunha, de Renan, de inflação, do ajuste fiscal e de tantas outras coisas que só tem feito infernizar nossas vidas mas que são as manchetes do momento.

Não falei neste bate-papo nem mesmo das abobrinhas de que eu gosto tanto e que nos ajudam a cumprir a jornada diária sofrendo menos.

Este papo de hoje é sobre depressão. Um mal que afeta milhões de pessoas, milhares delas no Brasil, um mal sobre o qual é preciso estar informado e não fazer segredo.

Como eu agora me descobri fazendo parte dessa população doente, pensei muito nas noites sem dormir dos últimos dias e tomei a decisão de dividir essa experiência com vocês. Se com isso eu conseguir ajudar algum ouvinte a prevenir a depressão ou a curá-la, já me dou por satisfeito".

Que falta você vai fazer, professor.

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Wilson Melo

Wilson Melo

O cara era muito bom. Fez a diferença.
Parabéns pelo artigo. Eu desconhecia o texto sobre depressão, muito interessante. Recomendo a todos o vídeo da mãe do Ricardo, no velório. Mulher fantástica.https://www.google.com/amp/s/www.metropoles.com/brasil/emocionada-mae-de-boechat-destaca-simplicidade-do-filho/%3famp
★★★★★DIA 13.02.19 10h38RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Bom dia! A mãe dele também foi muito feliz ao falar para a televisão. Sinônimo de uma educação bem construída. Abraço, Wilson!

★★★★★DIA 13.02.19 12h00RESPONDER
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Victor Chaves

Victor Chaves

Respeito! Simplesmente isso! Fará muita falta a "voz do povo", aquele que dizia o que tínhamos preso no peito!
★★★★★DIA 13.02.19 09h22RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Bom dia! Alguém disse que muitas vezes ele parecia dizer exatamente o que o brasileiro pensava. Eu completaria dizendo que ele desabafava as nossas angústias. Abraço, Victor.  

★★★★★DIA 13.02.19 09h43RESPONDER
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