Guillermo Torres vai comandar a cidade de Turbaco nos próximos quatro anos
Guerrilheiro das Farc é eleito prefeito na Colômbia

No último final de semana, os colombianos foram às urnas para escolher 32 governadores, mais de mil prefeitos e milhares de deputados estaduais e vereadores. 

A eleição era muito aguardada desde que o Congresso aprovou em 2016 um acordo de paz entre o Estado colombiano e as Farc. A mais temida guerrilha do país, depois de décadas de terror, aceitou ser desmobilizada. 

Mas os meses que antecederam o plebiscito foram marcados por ameaças e atentados. Um imenso esquema de segurança precisou que ser preparado para proteger políticos. O governo nacional chegou a oferecer coletes à prova de bala, veículos blindados e escoltas a 1.074 candidatos.

Houve "230 registros entre ameaças, homicídios e sequestros", explica Ariel Ávila, vice-diretor da Fundação de Paz e Reconciliação.

Além da violência, a falta de transparência no financiamento das campanhas, compra de votos e interferência indevida de funcionários eleitorais eram sérias ameaças a eleição, segundo analistas.

Foi nesse cenário perturbador que os eleitores da cidade de Turbaco, no norte do país, escolheram para prefeito um homem acusado de vários crimes e um dos mais conhecidos líderes das Farc. O ex-guerrilheiro Guillermo Enrique Torres Cueter, de 65 anos, teve nas urnas 21.466 votos (50,07%). O candidato Leonardo Enrique Cabarcas, do partido Radical Change, ficou em segundo lugar com 13.682 votos (32,16%).

Com a escolha de Torres, pela primeira vez um integrante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia irá assumir a prefeitura de uma cidade. 

Guillermo Torres nasceu em Tubarco no dia 17 de agosto de 1954. Com 21 anos se tornou membro de grupos comunistas e esquerdistas. Entrou para a guerrilha na década de 80. Julián Conrado Marín, Julián Ariza Fandiño e Mario foram alguns dos codinomes que adotou como integrante das Farc. 

A atuação de Conrado nas Forças Armadas Revolucionárias não era pequena. Segundo o governo americano, ele era membro do Estado-Maior das Farc. Participou diretamente das operações de tráfico de drogas do grupo guerrilheiro e nas decisões do "assassinato de centenas de pessoas que interferiram na política de cocaína". 

Os Estados Unidos chegaram a oferecer 2,5 milhões de dólares para quem desse informações sobre o colombiano. Em seu país, ainda existiam oito mandados de prisão contra ele. Julián deveria cumprir sentença pelos crimes de homicídio, sequestro, extorsão, rebelião e porte ilegal de armas. 

Em 2008, o exército colombiano fez um ataque aéreo no acampamento das Farc em território equatoriano. A operação considerada bem sucedida resultou na morte do procurado guerrilheiro Raúl Reyes. Inicialmente, Conrado também foi dado como morto. 

No dia 31 de maio de 2011, as forças armadas da Colômbia e Venezuela finalmente conseguiram capturar Julián em uma fazenda no estado de Barinas, no país vizinho. O traficante ficou três anos preso na sede do Serviço Nacional de Inteligência Bolivariano (Sebin), em Caracas. 

A libertação dele aconteceu no dia 9 de janeiro de 2014, depois que o governo colombiano cancelou o mandado de prisão contra Conrado. A Câmara de Cassação do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela também suspendeu o mandado e declarou que o preso iria fazer um tratamento de saúde na capital cubana Havana. 

Pouco depois, Julián Conrado foi liberado para se juntar ao grupo de negociação no processo de paz entre o governo e os guerrilheiros das Farc. O acordo assinado em 2016 deu ao ex-combatente a condição de homem livre. 

No processo de paz na Colômbia, o tráfico de drogas acabou relacionado como crime político, um dos pontos mais controversos do acordo. 

 

O guerrilheiro cantor 

 

Julián Conrado não é famoso na Colômbia apenas por causa da ligação com o tráfico. O ex-combatente se tornou conhecido também por interpretar e compor músicas do gênero vallenato, um tipo de canção popular no país. 

As letras de cunho social, chamadas de "a nova Colômbia" pelos guerrilheiros, são consideradas pelo político a sua "melhor arma". Ele já teve até uma orquestra chamada "Julián Conrado e os Companheiros". 

Logo depois de ser anunciado o resultado da eleição, Torres fez uma aparição com uma guitarra na mão. As músicas dele até hoje são muito escutadas em acampamentos.

Como era de se imaginar, a iniciação de Guillermo na carreira política deveria ter sido pelo partido Força Alternativa Revolucionária do Comum, que nasceu depois dos acordos de paz que resultaram no desarmamento de 7 mil guerrilheiros. Mas a legenda das Farc tem uma aceitação muito baixa.

Guillermo Torres preferiu concorrer por uma coalizão formada por Colômbia Humana-União Patriótica. Durante a campanha ele prometeu combater a corrupção e ajudar aos mais pobres. Com o slogan "Amados, venceremos", o prefeito eleito de Turbaco disse que apoiava o processo de paz com o uso da  mensagem "amor contra a guerra". Quando sofria críticas, Torres se defendia dizendo que era de pessoas que queriam "devolvê-lo à montanha".

A campanha do ex-guerrilheiro foi baseada ainda na recuperação do meio ambiente e na melhoria do fornecimento de água potável para Turbaco. A cidade tem cerca de 70 mil habitantes e é a sede do governo do departamento de Bolívar.

"Eleitoralmente, nós turbaqueiros, estamos dando uma tremenda surra nos corruptos", comemorou o prefeito em seu perfil no twitter.

"Guillermo Torres, artista da paz e poeta da vida, é o primeiro ex-guerrilheiro das ex-Farc-EP a conquistar o cargo de prefeito. O povo de Turbaco celebra esta conquista do processo de paz. Muitas felicidades, amamos a paz e venceremos!", declarou a Força Alternativa Revolucionária do Partido dos Comuns.

 

Guerrilheiro das Farc é eleito prefeito na Colômbia

 

O partido das Farc

 

Criado para ser a representação política da guerrilha, o partido das Farc tem ido mal nas eleições. Até hoje conseguiu eleger apenas um senador que nunca tomou posse. 

Iván Márquez, um dos ex-líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, foi eleito no ano passado, mas alegando falta de garantias para poder viver em sociedade com segurança, ele nunca apareceu no Senado e acabou perdendo o mandato.

Na eleição de domingo, o partido oficial das Farc não inscreveu candidatos a nenhum dos 32 cargos de governador. Na disputa pelas prefeituras apareceram 16 nomes, sendo sete de ex-guerrilheiros, mas nenhum deles venceu.

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