Na verdade, o camisa 10 do Santos alcançou a marca histórica dois jogos antes da partida no Maracanã
Hoje se comemora o 50.º aniversário do gol mil de Pelé. Mas o gol contra o Vasco não foi o milésimo do Rei

O ano era 1969. Os apaixonados pelo futebol no mundo inteiro aguardavam ansiosamente pela primeira vez um homem alcançar a mítica marca de mil gols na carreira. A honra estava reservada, com toda justiça, para o maior jogador de todos os tempos.

O calendário já avançava pelo mês onze. Era uma questão de tempo a maior máquina de gols do planeta conquistar a façanha. Na noite de 19 de novembro uma multidão compareceu ao maior estádio do mundo. O público oficial daquele jogo foi de 65.157 pagantes que foram ver muito mais do que um encontro entre vascaínos e santistas.

O tão aguardado momento aconteceu no segundo tempo. O cronômetro passava de meia hora quando o volante Clodoaldo lançou Pelé dentro da área. O zagueiro Fernando foi para cima, tentando impedir a progressão do camisa 10 que desabou no gramado. Sem pensar duas vezes, o árbitro pernambucano Manoel Amaro de Lima marcou pênalti.

Até aquele momento, a partida válida pela Taça de Prata, estava empatada em 1 a 1. O time carioca tinha aberto o placar com Benetti. O gol de empate saíra em uma infelicidade do zagueiro Renê, que marcara contra.

"O Pelé, que estava entre eu e o Renê, bateu na minha perna e caiu, malandramente. E o árbitro pernambucano Manuel Amaro de Lima marcou o pênalti. Nunca mais esqueci o nome desse ladrão", relembrou Fernando para o site Terra.

Não foi fácil bater aquele pênalti. Os jogadores do Vasco reclamaram muito. O lateral Fidélis ainda tentou "cavar" um buraco na marca do pênalti para atrapalhar a cobrança. O goleiro argentino Andrada e Fernando também provocaram Pelé. Tudo em vão. Ali estava um gênio que sabia o que fazer, apesar de toda pressão.

"Foi a primeira vez que senti minhas pernas tremerem dentro de campo. Ah, meu Deus! Eu não posso perder esse gol. Pensei na hora que eu não podia perder porque o Maracanã inteiro gritava 'Pelé, Pelé, Pelé'. E eu não podia decepcionar o povo brasileiro", conta o herói.

Aos 33 minutos, quase dois minutos depois de ajeitar a bola para a cobrança, Pelé correu decidido a disparar no canto esquerdo do goleiro. No meio do caminho ele fez a tradicional paradinha antes de bater com o pé direito. Andrada se atirou corretamente em direção ao balão de couro. Mas o chute havia sido forte, praticamente indefensável.

Em apenas dois segundos a bola alcançou as redes do Maracanã. O placar correu para registar: Vasco 1 x 2 Santos.

O que se viu na sequência foram reações extremamente opostas. Enquanto Andrada, com raiva, socava o gramado, Pelé comemorava sua epopeia. Pela primeira vez na história do futebol um jogador chegava a inimaginável marca de mil gols.

Na comemoração, o mineiro de Três Corações foi buscar a bola dentro do gol. Cercado e depois carregado nos ombros por uma centena de repórteres, Pelé ergueu seu troféu daquela noite.

"Não quero festas para mim. Acreditem que eu acho muito mais importante ajudar as crianças pobres, os necessitados. Vamos pensar no Natal dessa gente toda", foram as palavras que ele disse no campo do Maracanã.

Ainda hoje, quando é perguntado sobre a reação de Andrada, Pelé costuma dizer que "ele deveria se sentir orgulhoso. Ele vai ser sempre lembrado por isso. Mas ele ficou bravo porque não queria ficar conhecido como o goleiro que sofreu o milésimo gol". Andrada morreu no último dia 4 de setembro, com 80 anos.

 

Os jogos que antecederam o milésimo

 

No dia 12 de novembro, o Santos jogou contra o Santa Cruz na Ilha do Retiro. Os paulistas aplicaram uma goleada de 4 a 0, mesmo jogando na casa do adversário. Naquela noite de quarta-feira, Pelé marcou duas vezes. Pela contagem dos estatísticos da época o rei chegara a seu gol número 998.

A próxima partida pela Taça de Prata seria quatro dias depois, contra o Bahia, em Salvador. Como permaneceria no nordeste, o Santos acabou convidado para disputar um amistoso em João Pessoa, diante do Botafogo paraibano.

A CBD (Confederação Brasileira de Desportos) por muito pouco não vetou o jogo. De acordo com a entidade que coordenava o futebol nacional, um time não podia disputar duas partidas em um intervalo inferior a 72 horas. Mas os paulistas acabaram recebendo autorização. 

O amistoso serviria ainda para uma dupla comemoração. O Botafogo iria receber as faixas de bicampeão estadual e o Estádio Governador José Américo de Almeida, também chamado de Olímpico, seria reinaugurado depois de passar por uma reforma. Uma homenagem a Pelé, que receberia o título de cidadão honorário de João Pessoa, completaria o dia de festas.

O jogo estava previsto para às 20 horas. Os torcedores começaram a chegar cedo, e duas horas antes do combinado para a bola rolar os portões do estádio precisaram ser fechados. Não cabia mais ninguém no Olímpico.

Aquela noite foi preciso ter paciência para ver Pelé em campo. A cerimônia em homenagem ao rei atrasou e prendeu todo o elenco do Santos. Quando a partida finalmente começou os relógios marcavam 22 horas.

Sem precisar fazer muita força, a máquina santista foi logo abrindo dois gols de vantagem com Manoel Maria. Pelé estava tendo uma atuação discreta, sem aparecer muito no jogo. A torcida da Paraíba até hoje jura que o craque não queria marcar dois gols para não completar a soma milenar em um palco "pequeno".

Aos 21 minutos do segundo tempo o juiz deu um pênalti para o Peixe. O endiabrado Manoel Maria passou na corrida por três adversários e acabou derrubado na área pelo quarto-zagueiro Lando. O cobrador oficial do time era o lateral Carlos Alberto Torres. Segundo as pessoas que presenciaram o jogo, o "Capita" entregou a bola para Pelé e disse para o craque bater. Com o estádio em êxtase, Edson Arantes fuzilou o goleiro Lula com uma batida também no canto esquerdo.

Naquele momento o super-homem do futebol teria assinalado o gol 999 na carreira, de acordo com o cálculo que se fazia. Na verdade, Pelé acabara de balançar as redes pela milésima vez.

 

Porque não foi contra o Vasco

 

O erro na contagem dos gols de Pelé foi descoberto 26 anos mais tarde pelo jornalista Valmir Sartori.

Ao fazer uma reportagem para o jornal Folha de São Paulo, em 1995, o repórter passou três meses pesquisando acervos com as fichas dos jogos que o rei participou. Para a surpresa de Valmir, uma partida tinha passado despercebida para muita gente.

Em 1959, Pelé viveu um dos anos mais atribulados da carreira. Com apenas 18 anos, e já campeão do mundo com o Brasil em 1958, na Suécia, o rei precisou se desdobrar naquela temporada. Além de vestir as camisas do Santos, das seleções paulista e brasileira, ele ainda jogou pelo time das Forças Armadas porque estava servindo ao exército.

No mês de novembro foi realizado no Rio de Janeiro a primeira edição do Campeonato Sul-Americano Militar. No dia 18 o Brasil enfrentou o Paraguai em General Severiano, antigo estádio do Botafogo. Antes do apito inicial, Pelé, já com 19 anos (ele faz aniversário no dia 23 de outubro), fez o juramento do atleta. Era a estreia do time brasileiro que venceu por 4 a 1.

O primeiro tempo terminou empatado em 1 a 1. Roberto Bataglia, ponta-direita do Corinthians, fez o gol brasileiro e Apodoca igualou o placar. No segundo tempo o Brasil ficou novamente na frente. Aos 9 minutos Pelé driblou quatro adversários antes de chutar para o fundo das redes. Valter fez ainda outros dois gols.

Apesar da goleada e do belo gol do rei, esse jogo acabou "esquecido" e nunca fez parte das estatísticas.

Pelo exército brasileiro, Pelé disputou ao todo dez jogos e marcou 14 gols, todos devidamente somados na relação dos 1282 gols oficiais, menos aquele contra o Paraguai.

Ou seja, graças a um lapso na contagem dos gols de Pelé a história imortalizou um equívoco. A milésima vez que o atleta do século estufou uma rede adversária aconteceu em João Pessoa, diante do Botafogo-PB, e não contra o Vasco.

 

Porque a história não mudou

 

Apesar da descoberta do jornalista Valmir Sartori, até hoje se continua festejando o milésimo gol do rei no dia 19 de novembro. O motivo para a história não ser modificada pode estar na própria vontade de Pelé, que sonhou em alcançar a marca em um grande evento.

Ainda em João Pessoa, pouco depois de cobrar o pênalti no Estádio Olímpico, Pelé foi para o gol do Santos, depois que o camisa 1 do Peixe sofreu uma contusão. Estranhamente no banco de suplentes do time não havia goleiro reserva para substituir o titular Jair Estevão.

Cumprindo uma ordem do técnico Antoninho, pela terceira vez na carreira Pelé trocava a posição na linha pelo gol. "Eu era o goleiro substituto. Nesse caso eu era o goleiro substituto, porque, modéstia à parte, eu fazia muito gol, mas eu era um bom goleiro. Na seleção eu treinava no gol", explicou a lenda.

Jair Estevão morreu no dia 12 de agosto de 2012. Aos jornalistas ele costumava dizer que na Paraíba fora obrigado a se "contundir" para sair de campo.

Antes de enfrentar o Vasco, o Santos ainda foi a Salvador pegar o Bahia pela Taça de Prata. A peleja aconteceu na Fonte Nova no domingo, dia 16 de novembro, e terminou empatada em 1 a 1. Jair Bala fez o gol dos paulistas. Pelé teve uma grande chance de marcar, mas a finalização dele foi interceptada por um defensor em cima da linha.

"A torcida vaiou o próprio jogador do seu time que salvou um gol em cima da linha", contou o rei.

Em uma reportagem apresentada no último domingo no Esporte Espetacular, da Rede Globo, o Coordenador de Estatísticas do Santos admitiu que possa ter havido uma falha no levantamento dos gols de Pelé, mas para Odir Cunha a história contará sempre a versão que ficou consagrada. "Nós respeitamos e podemos até rever essa pesquisa dos jogos do Pelé pela Forças Armadas. Porém, hoje já está consagrado que o milésimo gol foi contra o Vasco, no Maracanã, contra o goleiro Andrada".

Para Valmir Sartori, "é correto dizer que o Pelé celebrou seu milésimo gol no Maracanã, mas não foi lá que ele aconteceu".

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