Mesmo com o país localizado na região de maior incidência de acidentes naturais no mundo, o governo não investe em equipamentos que poderiam emitir alertas e salvar vidas
Indonésia cruzas os braços e assiste a morte de milhares de pessoas em tsunamis

Só esse ano foram duas tragédias. Em nenhuma a população foi avisada da chegada das grandes ondas. A última, no sábado, já contabiliza a morte de mais de 400 pessoas. As autoridades tentam se eximir de responsabilidade alegando que o episódio foi muito rápido. Em apenas 24 minutos as ondas se formaram e chegaram às praias. Mas se os sucateados equipamentos de monitoramento estivessem funcionando ou o país tivesse investido em outras formas de vigiar os desastres naturais muitas vidas poderiam ter sido salvas. 


A mesma região da tragédia de 2004

 

Foi também perto de um Natal que o mundo ficou chocado com o mais devastador tsunami da história. 

No dia 26 de dezembro de 2004, ondas de até 30 metros de altura saíram do Oceano Índico e invadiram a costa de 14 países diferentes, matando 230 mil pessoas. O que provocou a catástrofe foi um terremoto no fundo do oceano.

O que dá origem a esses maremotos é o que cientistas chamam de subducção. Uma placa tectônica desliza para debaixo de outra em uma zona de convergência.

Os países mais atingidos foram Sri Lanka, Índia, Tailândia e, principalmente, a Indonésia com 167 mil vítimas fatais. 

Enquanto contava seus mortos o governo admitiu que nenhum alarme tinha sido disparado para avisar a população que foi pega de surpresa. 

Temendo novas tragédias as autoridades correram em busca de equipamentos que pudessem monitorar o deslocamento de grandes ondas quando ainda estivessem longe do continente. O país comprou 22 boias com sensores de alerta de movimentos sísmicos. Cada equipamento custa em torno de um milhão de reais. 

Mas todas viraram sucata há tempos por falta de conservação e vandalismo. Em setembro, quando um novo tsunami atingiu as ilhas Celebes, o porta-voz da Agência Nacional de Gestão de Desastres, Sutopo Purwo Nugroho, disse que o "sistema de alerta não estava operacional, aproximadamente, há 6 anos, devido à falta de fundos e manutenção das infraestruturas".

Na verdade o abandono dura mais tempo. Em 2010, as Ilhas Mentawai, no oeste do país, tinham sido atingidas também por um tsunami sem nenhum aviso. Na época, duas boias do sistema que ficam no arquipélago próximo à costa da Ilha de Sumatra não funcionaram porque tinham sofrido depredação. 


A desculpa agora foi o vulcão

 

O que provocou o tsunami dessa vez foi o deslocamento de uma das paredes do vulcão em direção ao oceano depois que o Anak Krakatoa entrou em colapso. 

Toneladas de rochas caíram nas águas formando ondas de quatro a cinco metros. Em vinte quatro minutos, sem que nenhuma sirene fosse ouvida, cidades das ilhas de Sumatra e Java foram devastadas pelas violentas inundações. 

Há meses o Anak Krakatoa tem tido atividade vulcânica significativa. A erupção de sábado foi considerada pequena e, por isso, não teria aparecido nos monitoramentos com relevância para alarme, segundo os especialistas. 

Sobre as boias não estarem funcionando, as autoridades da Indonésia garantem que elas não fariam muita diferença. O governo explica que o tsunami se formou muito perto da costa e não haveria tempo de avisar a população. 

Mas ao mesmo tempo todos reconhecem que o país tem errado feio em não investir em outros equipamentos que façam o monitoramento de uma forma eficiente. 

"A Indonésia tem que construir um sistema de alerta precoce para tsunamis causado por deslizamentos de terras submarinos e vulcões", disse Sutopo em sua conta no Twitter depois da última tragédia. 

Ultimamente, estações de monitoramento de maré e modelagem de dados são as ferramentas que a Indonésia usa para prever tsunamis. O sistema tem limitações e sofre muitas críticas por detectarem as ondas já próximas da costa, o que dá pouco tempo para as pessoas fugirem.

A destruição parcial do Anak Krakatoa também não ativou os alarmes que registram os movimentos sísmicos. 

Na segunda-feira, em uma entrevista, o porta-voz finalmente admitiu a culpa do governo: "A ausência e o fracasso dos primeiros sistemas de alerta de tsunamis contribuíram para as enormes baixas porque as pessoas não tiveram oportunidade de serem deslocadas", disse Sutopo Purwo Nugroho.

Outro erro grosseiro que pode ter elevado o número de mortos foi o governo ter postado nas redes sociais informações de que o país não corria risco de tsunami. Minutos depois as ondas chegaram deixando um rastro de destruição. Os posts foram logo apagados. 

O tsunami do último sábado destruiu 882 casas, 73 hotéis, vilas, comércio e edifícios localizados no litoral. De acordo com as autoridades 16.082 pessoas precisaram ser deslocadas.

O desastre também danificou um porto marítimo e 434 navios e embarcações.

 

Krakatoa pai e filho

 

O vulcão Krakatoa era um dos maiores de uma ilha da Indonésia que tem o mesmo nome. No dia 26 de agosto de 1883, uma grande erupção vulcânica provocou um tsunami com ondas de 40 metros que chegaram até a península Arábica, que fica a 7 mil quilômetros de distância.

A explosão foi tão grande que pode ser ouvida na Austrália, a quase 5 mil quilômetros. Naquele ano foram registradas 36 mil mortes. Somente em Sumatra e Java foram destruídas mais de 165 aldeias.

Com a explosão parte da ilha entrou em colapso e deixou de existir. Mas com o tempo se formou no mesmo lugar um outro vulcão, batizado de Anak Krakatoa, ou filho do Krakatoa, com 300 metros de altitude. 

Existem hoje na Indonésia 127 vulcões ativos. 

Se você quiser ler um pouco mais sobre como vulcões e ilhas desaparecem e depois são formados de novo, aqui está a dica de um bom artigo. 

https://super.abril.com.br/ciencia/quem-e-o-pai-do-krakatoa-o-vulcao-do-tsunami-na-indonesia/amp/

 

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