A suspeita de que a força militar do país derrubou o avião ucraniano somado ao caos do enterro do general Qasem Soleimani mostram que o Irã começou 2020 metido em uma grande enrascada
Irã, como explicar que o míssil que derrubou o avião não era seu?

 

Quando o drone americano abateu a comitiva do general Soleimani, a opinião pública se dividiu (difícil dizer se em partes iguais). As manifestações de reprovação pela operação do exército de Trump e as comemorações pelo uso da força exterminadora povoaram noticiários e debates.

Entre os mais receosos, passou a correr a versão de que a terceira guerra mundial acabara de ser iniciada. O planeta se assustou logo na primeira semana de janeiro.

Mas a morte do comandante da Força Quds (unidade de elite da Guarda Revolucionária do Irã) e de sua escolta era só o começo de uma grande tragédia. Nos funerais do general, um número muito maior de vidas foi perdido. Segundo as agências internacionais, 56 pessoas morreram e 210 ficaram feridas por pisoteamento.

A confusão começou quando o corpo de Qassem Soleimani chegou à cidade natal dele, Kerman. Quando o tumulto se espalhou, um milhão de iranianos aguardavam pelo cortejo em diversas ruas.

A comoção em torno da morte de Soleimani é justificada pela figura que ele representava no país. O comandante militar era tido como um herói nacional e apontado como o segundo homem mais poderoso do Irã, atrás apenas do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

Durante a cerimônia fúnebre, as principais autoridades iranianas deixaram claro que haveria vingança. "O mártir Qasem Soleimani está mais poderoso... agora que está morto", afirmou Hossein Salami, líder da Guarda Revolucionária do Irã, à multidão presente em Kerman.

Enquanto isso, o parlamento iraniano aprovava a liberação de uma verba adicional de R$ 900 milhões à Força Quds. O dinheiro era para combater o comando central das Forças Armadas americanas, uma "organização terrorista internacional", de acordo com os políticos.

Para os americanos, o general não passava de um terrorista e uma ameaça para as tropas dos Estados Unidos.

 

A resposta

 

Quatro dias depois da morte de Soleimani, os iranianos saíram da promessa para o ataque. Dez mísseis balísticos foram disparados contra duas bases militares americanas. O bombardeio provocou apenas estragos nas instalações. Ninguém se feriu.

O clima de tensão continuou no país persa. Os Estados Unidos orientaram os cidadãos americanos para que deixassem imediatamente aquela região do Golfo.

No amanhecer do dia 8 veio uma nova notícia aterrorizante do Irã. Um avião da companhia Ukrainian International Airlines, que partiu de Teerã em direção à Ucrânia, caíra nas proximidades do aeroporto logo após a decolagem. O voo seguia com 176 passageiros e tripulantes. Ninguém tinha sobrevivido.

Não demorou muitas horas para o mundo suspeitar que o acidente aéreo poderia ter sido causado por um erro militar. Por retaliação política ou medo de que as autoridades internacionais descobrissem algo diferente de uma falha de equipamentos do avião, o governo iraniano avisou que os Estados Unidos não teriam acesso às caixas-pretas do Boeing.

O chefe do Conselho de Investigação de Acidentes da Organização de Aviação Civil do Irã , Hassan Rezaeifar, disse que a análise dos destroços e do conteúdo das caixas do Boeing 737- 800 seria feita apenas no laboratório do aeroporto Mehrabad. Durou pouco a convicção de Hassan.

Diante da pressão internacional por explicações convincentes, Rezaeifar admitiu no mesmo dia pedir ajuda para Rússia, Ucrânia, França ou Canadá.

Ao mesmo tempo em que recuou em fazer somente uma investigação interna sobre a queda da aeronave, o Irã viu um bombardeio de acusações surgirem contra o sistema de segurança do país. Canadá, Reino Unido e Estados Unidos informaram que a vigilância por satélite e outros mecanismos de inteligência detectaram o disparo de um míssil na região do aeroporto de Teerã no mesmo horário em que o avião ucraniano foi atingido.

O Irã negou de pés juntos, mas ficou difícil desmanchar a versão dos adversários americanos e europeu. Pior ainda é mostrar agora que o país tem condições de entrar em uma "guerra" contra os Estados Unidos.

Afinal, se o Irã não tem sequer um sistema confiável de defesa do aeroporto da capital (que foi comprado dos russos), como os ex-comandados do general Qasem Soleimani podem querer encarar uma das maiores potências bélicas do planeta?

Se as investigações comprovarem que foi mesmo um erro o disparo de um míssil contra o avião, o Irã estará dizendo ao mundo que suas defesas são muito mais frágeis do que se poderia imaginar.

O regime dos aiatolás poderia estar mostrando que está seriamente debilitado, incapaz de ter um sistema automático de defesa confiável, que seja capaz de distinguir um avião civil de uma aeronave de combate.

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