A declaração dramática de Fernando Ricksen está comovendo torcedores no mundo todo

Talvez você ainda não tenha ouvido falar em Fernando Jacob Hubert Hendrika Ricksen. Ele é um ex-jogador de futebol que tinha uma boa técnica. Chegou a defender a seleção holandesa em 12 partidas, entre 2000 e 2003. Mas Fernando ficou muito mais conhecido por causa das arruaças que aprontou durante toda sua carreira.

Se você quiser conhecer boa parte delas, uma dica é ler o livro com a autobiografia do jogador. O título é Fighting Spirit (Espírito de luta).

A trajetória na bola começou pelo Fortuna Sittard. Depois Fernando defendeu o AZ Alkmaar, também na Holanda, o escocês Glasgow Rangers, o russo Zenit St Petersburg e, por último, retornou ao Fortuna, onde encerrou a carreira em 2013.

Não ganhou muitos títulos. Em 2008, foi campeão da Copa da UEFA como reserva do Zenit. Na final os russos derrotaram, justamente, o Rangers. O meio-campista conquistou, ainda, por duas vezes, o Campeonato Escocês (2002/2003 e 2004/2005) e uma vez o certame Russo (2008).

A melhor fase aconteceu na temporada 2004-2005 na qual Ricksen ganhou o prêmio de jogador do ano conferido pela SPFA. Ele havia marcado nove gols em 40 jogos pelo Rangers, além de conquistar o título da Liga.

 

Jogador holandês que tem doença incurável anuncia a última noite

 

No histórico dele constam 464 partidas e 33 gols assinalados. Não é muita coisa para uma carreira como profissional que durou 19 anos. Os números poderiam ser bem mais expressivos se não fosse o comportamento do homem e atleta Fernando Ricksen.

Entre as confusões que aprontou, em novembro de 2000, em uma partida do campeonato escocês, Ricksen deu um golpe de lutas marciais em Darren Young, do Aberdeen. O juiz não viu, mas as imagens foram usadas em um julgamento posterior da Federação, e Fernando pegou cinco jogos de suspensão. Em seu site pessoal, ele justificou a agressão com a seguinte frase: "alguém tinha que endireitá-lo".

Ainda no Rangers, em outubro de 2003, Ricksen empurrou o Presidente do clube, John McClelland, para dentro de uma piscina antes da partida contra o Panathinaikos, em Atenas.

Na mesma semana, ele foi banido da seleção holandesa durante uma convocação por ter quebrado uma porta de um hotel depois de uma noitada. Nessa época, Fernando já era um alcoólatra.

Na preparação para a temporada 2006, em um voo com o time do Rangers, Fernando se envolveu em uma briga com um passageiro e com a aeromoça. A equipe seguia para uma fase de treinos na África do Sul. Ricksen acabou desligado e teve que voltar para a casa.

Se transferiu para o Zenit St Petersburg e brigou duas vezes com o capitão do time, Vladislav Radimov. A primeira foi durante uma partida contra o Rostov. A segunda em um amistoso diante do Málaga. As agressões começaram em campo. Os dois acabaram expulsos e continuaram a troca de murros e chutes fora das quatro linhas. Foi necessária a intervenção do técnico Dick Advocaat para a pancadaria terminar.

Cansado das indisciplinas de Ricksen, em agosto de 2009, o Zenit optou pela rescisão de contrato com o jogador.

Foi uma fase dura para o beberrão e brigão. Fernando passou um ano sem clube. Em dezembro de 2010, ele retornou ao Fortuna Sittard.

No futebol dá para dizer que Ricksen colecionou muitos desafetos. Certa vez, o zagueiro José Fortes Rodriguez, ex-companheiro no Alkmaar, definiu assim Fernando: "Durante todo o meu tempo no futebol profissional, ele foi a pessoa mais anti-social que já conheci. Durante o treinamento houve tantos incidentes com ele, coisas que você não acreditaria. Ele está perdendo algo em sua cabeça. Ele era imprevisível e incontrolável, e todos ficaram felizes quando ele foi transferido", afirmou.

 

Longe da bola, agarrado em confusões

 

Não foi só com o futebol que Ricksen aprontou um monte. Na noite de Natal de 2000, ele bateu com o carro em um poste de luz. O jogador foi acusado de direção perigosa, de estar embriagado e de ter provocado um grande tumulto, gritando e falando palavrões no meio da rua.

Em 2003, foi condenado por dirigir alcoolizado. Ele recebeu uma multa de £ 500 e uma proibição de condução de carros por 12 meses. No mesmo ano, Fernando foi multado em £ 7.000 em outra condenação por violação da paz e agressão, durante uma festa noturna em casa.

Inicialmente, ele negou as acusações, mas no Tribunal acabou admitindo um comportamento de desordem.

No meio da noite, Fernando passou a estourar fogos e gritar palavrões. Um vizinho foi abordá-lo, pedindo que parasse com a bagunça. A discussão terminou em outra briga.

Em julho de 2006, Ricksen se internou em uma clínica para tratamento contra a dependência de álcool e controle de reações de raiva.

"Eu sabia que poderia perder tudo: minha família, meu futebol, na verdade toda a minha vida", explicou anos mais tarde em um documentário feito pelo canal Sky Sports. "Eu tive uma escolha: posso continuar e pensar que estou me sentindo bem, e nesse caso eu perco tudo, ou, como dizem os holandeses, eu mordo a maçã azeda, me responsabilizo e luto por mim mesmo", completou.

 

O fim da carreira e o início da doença

 

Foi tudo muito rápido. Ao final da temporada 2012-2013, Ricksen anunciou a aposentadoria dos gramados. Ele tinha 37 anos. Dali para frente, a expectativa era de poder curtir a vida livremente, sem as obrigações do futebol. Mas poucos meses depois, em outubro, Fernando tomou conhecimento que era portador de uma doença incurável. O diagnóstico de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) veio acompanhado de uma dura previsão. Ele teria mais 18 meses de vida, segundo o médico.

Alegando ser um homem de coragem, e pronto para desafios, Ricksen reagiu assim ao saber da gravidade da doença: "Eu não posso ficar sentado e dizer: por que eu? Em minha cabeça, eu jogo todos os dias, mas meu corpo não quer mais isso. Você precisa dar ouvidos a seu corpo, mas acho que todo mundo que me conhece sabia que eu não escutava", declarou o holandês.

No ano seguinte, mesmo sabendo do pouco tempo que lhe restava, Fernando se casou com a russa Veronika. Ele já tinha uma filha, que se chama Isabella.

 

Jogador holandês que tem doença incurável anuncia a última noite

 

A mulher conta que no início da doença do marido, ela temia que Ricksen sofresse de algo muito grave, mas nunca passou pela cabeça do casal que pudesse ser uma enfermidade terminal. "Eu estava rezando para que não fosse câncer. Mas agora ... eu não posso dizer que eu poderia desejar que ele tivesse câncer, mas ELA é algo que você nunca desejaria para ninguém. É uma coisa tão horrível. Pelo menos com o câncer você é capaz de falar, você ainda pode se mover e pode estar em remissão. Com ELA, não há chance", afirmou.

Contrariando as previsões pessimistas do médico, Ricksen seguiu em frente. Lá se vão 5 anos e meio. Nos últimos meses Fernando viu a situação dele piorar fortemente.

Como a doença degenerativa - que ataca o sistema nervoso e vai paralisando os músculos do corpo - avançou rapidamente, Ricksen passou a sofrer várias limitações. Hoje ele vive em uma cama, e, para se comunicar, utiliza um programa de computador para emular a fala.

No último final de semana, Fernando usou uma conta no Twitter para fazer um comunicado que chocou os fãs. Ele afirmou que está perto de sua última aparição pública. No vídeo publicado no perfil @broxi63 (veja no alto da página), o holandês faz uma convocação para o que chamou de a "última noite".

"Olá. Terei uma noite especial no dia 28 (de junho). Uma vez que as coisas estão ficando muito difíceis para mim, esta será minha última noite. Venha e faça desta uma noite inesquecível. Espero vê-los logo", comunicou.

A conta da rede social divulgou também como será o evento citado pelo holandês: um jantar, com apresentações musicais e show de humor, com convites a 70 libras, mais ou menos R$ 345.

 

Fim de vida sem dinheiro

 

Com 42 anos, Ricksen convive com uma doença incurável e também com a falta de dinheiro. No livro com sua autobiografia, ele conta que sempre gastou quase tudo o que ganhava. O estilo de vida extravagante custou caro. "Sim, eu queimei um monte Everest de dinheiro", escreveu Ricksen, "mas pelo menos eu me diverti fazendo isso".

A extravagância incluía farras, noitadas e beritas. Ricksen afirmou que "queria rock e roll a noite toda e festejar todos os dias". Ele admitiu ainda que pode ter "exagerado um pouco com a bebida, com as drogas e com as meninas".

A esbornia levou a família a viver em dificuldades. Segundo a esposa Veronika, atualmente o casal tem uma renda reduzida. "Nós só temos a pensão dele, €1.300, e é só com isso que estamos a viver", disse a mulher.

Nas últimas vezes em que foi perguntado se tem medo de morrer, Ricksen respondeu: "É difícil dizer isso. Eu não tenho medo de morrer. Mas quando não consigo respirar por causa da ELA sinto medo. Quando estou sufocado, receio, sim".

 

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