Uma semana depois da fatídica história de dinheiro falsificado que virou morte, o país ainda quer entender o que aconteceu em Juiz de Fora
Lava Jato 2, as malas de dinheiro tem muito a explicar

Nesse mato tem coelho. É isso o que pensa todo mundo que tenta compreender o tiroteio em um prédio hospitalar na cidade de Juiz de Fora. E o pior é saber que quem deveria combater a transgressão de leis, está envolvido na bandalheira. Agentes, investigadores e até delegados tentavam pegar um monte de mala estufada de dinheiro.

Oito dias depois do furdunço no estacionamento de um centro médico a população continua atônita diante da falta de várias explicações. Quem falsificou a grana? Se tinham dólares na parada, qual era a origem dessas notas? Até aqui sobram perguntas e faltam muitas respostas.

A sexta-feira, 19 de outubro, caminhava para uma rotina bem típica daquelas de quem está perto de começar a aproveitar o final de semana. Os tiros e a correria em uma área que deveria ser usada apenas para pessoas envolvidas em tratamentos de saúde provocaram um alvoroço que ninguém podia imaginar. Nem mesmo os envolvidos no esquema de segurança das duas partes.

Os policiais que estavam fazendo um "bico" muito provavelmente pensavam que seria uma jogada rápida, um servicinho de escolta e meia hora depois iriam colocar uma graninha no bolso para tomar uma cerveja no domingo. Mas deu tudo errado.

Uma baixa de cada lado é o primeiro saldo aterrorizador desse caso. O policial civil mineiro Rodrigo Francisco, que morreu na hora da confusão, e o responsável pela segurança do empresário paulista, Jerônimo da Silva Leal Júnior, que faleceu uma semana depois, são as vítimas mais cruéis de uma bizarra operação oculta envolvendo moedas.

Ao morrerem os dois carregaram para o túmulo boa parte do segredo dessa história. Sem as versões das vítimas que trocaram tiros no subterrâneo do prédio a Polícia vai ter mais dificuldades para montar esse quebra cabeça. Mesmo assim, os depoimentos de quem escapou com sorte de não estar no caminho das balas foram o ponto de partida.

Já se sabe que em uma ponta da maracutaia estava um cidadão de Juiz de Fora conhecido como Antônio Vilela. Apesar de ter duas passagens na polícia por falsificação de dinheiro e estelionato, uma em 2009 e outra em 2015, tentando repassar notas falsas a terceiros, misteriosamente Antônio continuava em liberdade e disposto a aplicar mais um golpe. Dessa vez, de forma absurdamente corajosa, ele ousou empurrar cerca de 14 milhões de reais em notas de 100 porcamente impressas.

Na outra ponta desse rolo estava um empresário de São Paulo que, até aqui, de forma oficial, garante ter ido a JF em busca de um empréstimo particular para socorrer a empresa ALC Investimentos que anda mal das pernas. Mal mesmo, porque a bufunfa era muito grande.

 

Não é bem assim

 

As autoridades que estão apurando os fatos tem outra versão em mãos. As informações colhidas pelos delegados dão conta de que, na verdade, Flávio de Souza Guimarães tinha partido para Minas Gerais com cerca de três milhões de dólares disposto a fazer uma operação para lavar esse dinheiro.

Só com esses dados dá para suspeitar de uma confusão dos diabos envolvendo muita gente. Senão, vejamos. O falsário agiu sozinho para produzir cerca de 14 mil notas de 100 reais? Muito provavelmente, não. E onde essa dinheiranha foi impressa, nos fundos da casa do senhor Antônio, ou em alguma gráfica clandestina?

Humm, nesse angu tem alguns caroços. Se ele recebeu ajuda, quem são as pessoas que fizeram o desenho do dinheiro? E quem rodou o papel nas impressoras e depois cortou no tamanho das cédulas?

Do lado dos paulistas tem a complicada participação de um monte de gente identificada em poucos dias. Desde os policias que fariam a "escolta vip", advogados, pilotos do avião usado para a fuga de Juiz de Fora, sócios de Flávio Guimarães e até dois delegados.

Vamos admitir que o empresário esteja falando a verdade. Ok! Então, não seria muito mais razoável contratar uma empresa de transporte de valores do que usar um avião e mais 10 tiras para carregar o dinheiro? Se ele desconfiava de algo, óbvio que o certo era ter feito uma denúncia, além do mais Flávio estava fazendo um vultuoso empréstimo fora do sistema financeiro nacional.

Se a negada versão dos dólares vier a ser confirmada um dia, quem seriam os donos dessa fortuna de três milhões em moeda americana? Como esse dinheiro entrou no Brasil e em que tipo de negócio?

 

Juiz de Fora, rota de falsificações

 

Nessa rede de intrigas tem ainda uma coincidência no mínimo estranha.

Essa foi a segunda vez em menos de um ano que se tenta esquentar uma montanha de notas falsas de 100 reais em Juiz de Fora. Em novembro de 2017, dois pernambucanos foram presos em uma agência da Caixa Econômica Federal da cidade quando faziam um depósito de 5 milhões de reais. Na época eles alegaram que tinham vindo a Minas pegar a grana com um agiota. Seria só uma casualidade?

Veja as malas apreendidas no ano passado.

 

Lava Jato 2, as malas de dinheiro tem muito a explicar Malas apreendidas em 2017 com dinheiro falso durante depósito na Caixa Econômica

 

Agora compare com as malas de 2018.

 

Lava Jato 2, as malas de dinheiro tem muito a explicar Malas encontradas em 2018 com dinheiro falso no estacionamento do centro médico

 

A Polícia Federal, que essa semana também passou a fazer parte das investigações, apura se as malas de Vilela tem alguma ligação com uma quadrilha da Zona da Mata mineira que aplica golpes com cédulas falsas em pessoas de todo o país. Segundo o delegado Ronaldo Campos, da PF de JF, um inquérito foi aberto em novembro e está em sigilo.

A Polícia suspeita que mais pessoas podem ter caído no golpe de trocar gato por lebre. O problema é que as vítimas muitas vezes ficam em silêncio porque entraram com dólares na transação que tem origem ilícita e, portando, não eram declarados junto a Receita Federal. Ao serem enganadas optam pelo silêncio com medo de ter que responder a processos.

 

Lava Jato 2

 

A sugestão do título desse texto, Lava Jato 2, é para refrescar a nossa memória. Quando os policias federais começaram a investigação da operação 1 eles tinham na mira a origem de um carro importado Land Rover Evoque. A PF, ao puxar a ponta do novelo, levou dezenas de pessoas a serem arroladas em vários desdobramentos.

Talvez ainda seja cedo para a Polícia de Juiz de Fora, as Corregedorias das Polícias Civis de Minas e de São Paulo e a Polícia Federal, atualmente responsáveis pela investigação das malas, anunciarem que os tiros no estacionamento de um hospital atingiram fatalmente bem mais do que apenas dois seguranças.

O estrago pode ser muito maior. É esperar para ver.

 

Lava Jato 2, as malas de dinheiro tem muito a explicar

(Delegados de Juiz de Fora que deram as primeiras informações à imprensa)

 

* ao comparar o episódio de Juiz de Fora com a Lava Jato, o blog não está fazendo nenhuma insinuação de que tenham políticos envolvidos, mas apenas mostrando ao leitor que um crime pode ter muitas ramificações e arrolar bem mais pessoas que o simples boletim de ocorrência registou na consumação do fato.

Veja também

Olá, deixe seu comentário para Lava Jato 2, as malas de dinheiro tem muito a explicar

Já temos 3 comentário(s). DEIXE O SEU :)
Fernando Mendes

Fernando Mendes

Torcendo para a elucidaçao rápida desse caso sinistro e misterioso! !!!!
★★★★★DIA 27.10.18 23h42RESPONDER
Guilherme Mendes
Enviando Comentário Fechar :/
Fernando Mendes

Fernando Mendes

Mais uma maracutaia nacional.....Até quando?????
★★★★★DIA 27.10.18 23h21RESPONDER
Guilherme Mendes
Enviando Comentário Fechar :/
Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Fernando, o que a gente espera é agilidade na apuração e rigor nas penalizações. Abraço 

★★★★★DIA 27.10.18 23h35RESPONDER
N/A
Enviando Comentário Fechar :/
Enviando Comentário Fechar :/