Em tempos de denúncias diárias, vale a pena conhecer esse capítulo da vida de Abraham Lincoln
Lição para a falta de caráter

Se você nunca leu um pouco sobre a vida do ex-presidente americano, saiba que se trata de um dos personagens mais inspiradores de todos os tempos. A discussão se ainda hoje Lincoln merece ser considerado o mais brilhante chefe da nação ianque não carece ser analisada aqui. Isso pouco importa diante de exemplos que ele deixou.

Abraham Lincoln nasceu no dia 12 de fevereiro de 1809, em um casebre de madeira de uma acanhada fazenda. Foi o segundo filho de Thomas Lincoln e Nancy Lincoln. Quando ele tinha apenas nove anos sua mãe faleceu.

Senhor Thomas se casou novamente um ano depois com a viúva Sarah Bush Johnston, que tinha três filhos.

Abraham começou a ajudar a família na adolescência como lenhador. Trabalhava construindo cercas. Todo o dinheiro que ganhava era dado ao pai.

Os estudos com professores diferentes duraram apenas um ano. Mas nada impediu o jovem Abraham de seguir aprendendo sozinho. Considerado um ávido leitor, percorria povoados em busca de novos livros.

Aos 22 anos recebeu uma proposta para transportar mercadorias pelos rios Illinois e Mississippi. Foi parar em Nova Orleans onde a prática da escravidão mudaria o modo dele pensar a vida. Por um breve período foi comerciante. Serviu em uma milícia militar, trabalhou como agente do correio e inspetor do condado de New Salem. Inquieto, decidiu ser advogado. Os estudos se resumiram a um detalhado conhecimento da legislação durante dois anos. Lincoln leu vários livros sobre o assunto e se tornou um profissional autodidata. A aprovação para exercer a advocacia se deu em um exame em 1836.

Se casou com Mary Todd, uma mulher de família rica e escravista. Tiveram quatro filhos, mas apenas Robert sobreviveu até a fase adulta. Os outros três morreram quando ainda eram crianças ou na juventude.

Nessa época, Abraham já tinha se embrenhado também na política. Se tornou presidente da maior nação do mundo, mas o começo dessa trajetória foi totalmente inusitado. Lincoln tinha ideais que falavam mais alto que a vaidade. Em um trecho do livro “Dar e Receber” o autor Adam Grant descreveu assim o perfil do homem Abraham Lincoln.

 

A arte de dar mais do que receber

 

Considere, agora, as lutas políticas de um caipira que atendia pelo nome de Sampson. Ele dizia que seu objetivo era ser o “Clinton de Illinois”. Para tanto, perseguiu de início uma cadeira no Senado. Sampson, porém, era um candidato improvável a um cargo político eletivo, tendo passado os primeiros anos da carreira trabalhando numa fazenda. Mas era muito ambicioso. Concorreu pela primeira vez a uma vaga de deputado estadual quando tinha apenas 23 anos. Dos 13 candidatos, apenas os quatro primeiros se elegeriam. Com desempenho insatisfatório, Sampson terminou em oitavo lugar.

Depois de perder a eleição, Sampson voltou os olhos para os negócios, contraindo um empréstimo para abrir uma pequena loja com um amigo. A iniciativa não deu certo e, como não tinha condições para pagar o empréstimo, seus bens foram confiscados pelas autoridades locais. Pouco depois o sócio morreu sem deixar ativos, o que o tornou responsável por toda a dívida. Sampson passou a dever 15 vezes sua renda anual. Ao fim de alguns anos, acabou pagando-a até o último tostão.

Depois da falência da loja, Sampson tentou outra vez se eleger deputado estadual. Embora tivesse apenas 25 anos, terminou em segundo lugar, o que lhe garantiu uma vaga. A fim de participar da sessão de abertura, teve que tomar um empréstimo para comprar o primeiro terno. Nos oito anos seguintes, serviu na Assembleia Legislativa, ao mesmo tempo em que se formava em direito. Por fim, aos 45 anos, estava pronto para almejar uma posição no cenário nacional. E se candidatou ao Senado.

Sampson sabia que a batalha era árdua. Seus oponentes, James Shields e Lyman Trumbull, haviam sido juízes da Suprema Corte estadual e tinham antecedentes muito mais privilegiados que os dele. Shields, titular que concorria à reeleição, era sobrinho de um deputado federal. Trumbull era neto de um eminente historiador de Yale. Em comparação, Sampson tinha pouca experiência e desfrutava de reduzida influência política.

Na primeira pesquisa de opinião pública, Sampson se destacou no primeiro lugar, com 44% da preferência popular. Shields vinha logo atrás, com 41%, enquanto Trumbull ficava num distante terceiro lugar, com 5% do eleitorado. Na pesquisa seguinte, Sampson ganhou terreno, conquistando 47% de apoio, mas a maré começou a mudar quando um novo candidato entrou na corrida: o então governador do estado, Joel Matteson, muito popular e capaz de tirar votos de Sampson e Trumbull. Quando Shields se retirou da disputa, Matteson rapidamente assumiu a liderança, com 44%, enquanto Sampson caía para 38% e Trumbull subia para não mais que 9%. Horas depois, contudo, Trumbull ganhou a eleição alcançando 51% do eleitorado, com estreita vantagem em relação aos 47% de Matteson.

Por que será que Sampson despencou e como será que Trumbull disparou tão rapidamente? A mudança súbita de posições foi consequência de uma escolha de Sampson, que parecia sofrer de generosidade patológica. Quando Matteson entrou na corrida, Sampson começou a duvidar da própria capacidade de conquistar apoio suficiente para vencer. Ele sabia que Trumbull contava com um séquito de eleitores pequeno mas leal que não o decepcionaria. A maioria das pessoas nas condições de Sampson tentaria convencer os eleitores de Trumbull a mudar de lado. Afinal, com apenas 9% de apoio, Trumbull era um caso perdido.

A principal preocupação de Sampson, porém, não era se eleger, e sim evitar que Matteson saísse vitorioso. Ele acreditava que o governador vinha adotando práticas questionáveis. Alguns observadores o acusavam de tentar subornar eleitores influentes. No mínimo, Sampson tinha informações confiáveis de que o novo candidato tentara cooptar até alguns de seus principais apoiadores. Caso parecesse que Sampson não tinha chances de vencer, supunha Matteson os eleitores virariam a casaca e votariam nele.

As preocupações de Sampson com os métodos e os motivos do adversário revelaram-se premonitórias. Um ano depois, no fim de seu mandato como governador, Matteson descontou velhos cheques do governo que já estavam vencidos ou que já tinham sido sacados, mas que nunca foram cancelados. Desviou, assim, centenas de milhares de dólares, o que o levou a ser indiciado por fraude.

Além de suspeitar de Matteson, Sampson acreditava em Trumbull, uma vez que tinham pontos em comum no trato das questões mais importantes. Durante vários anos, Sampson se empenhara em promover mudanças na política social e econômica que considerava vitais para o futuro do estado, e nisso ele e Trumbull eram aliados. Portanto, em vez de tentar converter os seguidores leais do antigo adversário, resolveu sacrificar a própria candidatura e disse ao gerente de campanha, Stephen Logan, que abandonaria a corrida e pediria aos eleitores que votassem em Trumbull. O gestor não acreditou no que ouvira: por que um candidato com mais eleitores entregaria a eleição a outro candidato com menos eleitores? Logan não conteve as lágrimas, mas Sampson se mostrou irredutível. Renunciou à candidatura e pediu aos eleitores que votassem em Trumbull, garantindo-lhe a vitória, às custas do autossacrifício.

Essa não foi a primeira vez que Sampson pôs os interesses alheiros à frente dos próprios. Antes, embora fosse aclamado por seu trabalho como advogado, seu sucesso profissional era prejudicado por uma restrição muito séria: não conseguia defender clientes de cuja inocência não estivesse convencido. De acordo com um colega, os clientes sabiam que “Sampson ganharia a causa - se fosse justa; do contrário era perda de tempo procurá-lo”. Em um caso de um cliente acusado de roubo, Sampson procurou o juiz e disse: “Se você puder fazer algo por ele, faça-o - eu não posso. Se eu tentar, o júri perceberá que o considero culpado, e o condenará”. Em outro, durante um processo criminal, Sampson se voltou para um colega e disse: este homem é culpado; você o defende; eu não consigo”. E, assim, abandonou o caso e renunciou a vultosos honorários. Essas decisões lhe renderam respeito, mas suscitaram dúvidas sobre ser ou não forte o bastante para tomar decisões políticas difíceis.

Sampson “é quase um homem perfeito”, disse um de seus adversários políticos. “Só tem um defeito”. E explicou que não se podia confiar em Sampson, pois seus julgamentos eram facilmente comprometidos pela preocupação com os outros. Na política, atuar como doador deixava-o em posição de desvantagem. A relutância em se colocar em primeiro lugar custou-lhe a eleição para o Senado e fez os observadores duvidarem de que fosse forte o suficiente para o mundo impiedoso da política. Trumbull era um debatedor feroz; Sampson era um conciliador. “Lamento a minha derrota”, admitiu, mas insistiu em que a vitória de Trumbull ajudaria a promover as causas que os dois adversários defendiam. Depois da eleição, um repórter local escreveu que, em comparação com Sampson, Trumbull era “um homem mais talentoso e poderoso”.

Mas Sampson não estava disposto a ceder sempre. Quatro anos depois de ajudar Lyman Trumbull a conquistar uma vaga no Senado, candidatou-se mais uma vez. Perdeu novamente; porém, nas semanas anteriores à eleição, um de seus aliados mais fervorosos era ninguém menos que Lyman Trumbull. O autossacrifício lhe rendera o apoio do antigo adversário, que não foi o único a se converter em aliado, em resposta ao seu altruísmo. Na primeira corrida para o Senado, quando Sampson tinha 47% dos votos e parecia próximo da vitória, um advogado político de Chicago, Norman Judd, contava com 5% de eleitores fiéis, que não vacilaram em transferir sua lealdade para Trumbull. Na segunda disputa de Sampson ao Senado, Judd o apoiou sem hesitação.

Dois anos mais tarde, depois de duas derrotas, Sampson finalmente venceu sua primeira eleição em nível nacional. De acordo com um comentarista, Judd jamais esqueceu o “comportamento generoso” de Sampson e fez “mais que qualquer outro” para garantir a vitória do ex-adversário.

Em 1999, a C-SPAN, rede de televisão a cabo dedicada à política, fez uma pesquisa com mais de mil telespectadores esclarecidos, com o propósito de avaliar a competência de Sampson e de mais de 30 outros políticos que concorreram a cargos semelhantes. Sampson se destacou no topo da lista, recebendo as mais altas avaliações. Apesar de suas derrotas, era o mais popular dentre todos os políticos da lista. Sampson’s Ghost (Fantasma de Sampson) era o pseudônimo que o caipira usava em suas cartas.

Seu verdadeiro nome era Abraham Lincoln.

No dia 4 de março de 1861, Lincoln se tornou o décimo sexto presidente da história dos Estados Unidos. Abraham governou o país até o dia 15 de abril de 1865 quando foi assassinado.

Várias frases de Abraham ditas em discursos e pronunciamentos se tornaram célebres. Uma delas merece ser lida e relida para uma oportuna reflexão no momento de tantos escândalos no dia a dia da humanidade: 

 

Lição para a falta de caráter

Veja também

Olá, deixe seu comentário para Lição para a falta de caráter

Já temos 1 comentário(s). DEIXE O SEU :)
Marcia Mendes

Marcia Mendes

Excelente e oportuna reflexão
★★★★★DIA 05.06.19 19h39RESPONDER
N/A
Enviando Comentário Fechar :/
Enviando Comentário Fechar :/