Colocar uma foto antiga de um incêndio na floresta Amazônica não foi a primeira pisada de bola do presidente francês

Na última semana, a preocupação mundial com a maior floresta do planeta serviu para chamar a atenção de todos os habitantes do mundo para um grande problema ecológico. Mas, também, como bem disse o jornalista Jorge Pontual, na GloboNews, as manifestações viraram uma “histeria e muitos erros”.

Muitos desatentos usaram imagens de incêndios que aconteceram em outras épocas e lugares. A foto mais vista nas primeiras horas em redes sociais realmente tem um alto apelo emocional. Mas o registro é bem antigo. Foi feito pelo fotógrafo Loren Mclntyre, que morreu em 2003. O piloto da Mercedes, Lewis Hamilton foi um dos que postou a foto.

 

Macron: um presidente falastrão que deveria cuidar do seu umbigo

 

A foto está disponível no banco de imagens Alamy.

Nessa onda de equívocos embarcou mais gente famosa. O jogador Cristiano Ronaldo caiu em outra cilada. O atacante da Juventus, da Itália, postou um incêndio que ocorreu na Reserva Ecológica do Taim, no Rio Grande do Sul, em 2013.

 

Macron: um presidente falastrão que deveria cuidar do seu umbigo

 

Ninguém fez mais barulho do que o chefão francês

 

Antigo filiado do partido Socialista, em 2016, Emmanuel Macron resolveu criar sua própria legenda, o Em Marcha! Um ano depois ele foi eleito presidente da França, e como o mais jovem da história do país, com apenas 39 anos.

Mas a popularidade dele caiu rapidamente. Em setembro de 2018, a taxa de aprovação de Macron despencou para 23%. Em meio a queda de prestígio, Emmanuel teve que encarar outra enorme dor de cabeça, as manifestações dos coletes amarelos.

A zorra em várias cidades começou em outubro e se arrastou por longos meses. Todo final de semana era a mesma confusão de ruas fechadas, patrimônios públicos depredados e carros queimados.

A fúria contra Macron começou porque a classe trabalhadora das periferias e da zona rural acusava o mandachuva de ser um defensor das elites. No começo, Emmanuel ainda se manteve irredutível na sua política econômica tão combatida por boa parte da população. Depois acabou cedendo em alguns pontos, como na diminuição dos impostos agregados no preço dos combustíveis.

Como demorou para reagir, o presidente assistiu às manifestações crescerem com outras reivindicações ligadas ao poder aquisitivo e a uma insatisfação generalizada com o “custo de vida”. A população passou a pedir a reintrodução do imposto sobre fortunas, aumento do salário mínimo e mais justiça social e fiscal.

No auge da crise, Macron precisou enfrentar ainda o pedido de renúncia feito pelos coletes amarelos. O presidente e sua equipe se defendiam, alegando que entre os manifestantes tinha muita gente infiltrada em "um bloco radical de 1.500 a 2 mil" pessoas determinadas a semear o caos.

Mesmo com o sufoco que passou, em recente encontro com o presidente Vladimir Putin, Emmanuel Macron sugeriu ao colega russo que fosse mais acessível às manifestações populares em seu país também. A resposta não deve ter sido das mais agradáveis de se ouvir.

"Todos nós sabemos sobre os eventos ligados aos chamados coletes amarelos, durante os quais, de acordo com nossos cálculos, 11 pessoas foram mortas e 2.500 ficaram feridas", disse Putin.

Pelo visto, assim como na América do Sul, não é nada fácil ser presidente também na Europa e manter a política da boa vizinhança.

 

Uma sucessão das gafes

 

A resposta atravessada de Putin se soma a várias gafes que Macron já cometeu com apenas metade do mandato. O comandante de uma das nações mais poderosas do mundo tem se especializado em dar caneladas em partidas em que se espera mais jogo de cintura por parte de um presidente.

Em maio de 2018, durante uma visita à Austrália, Macron quis fazer uma gentileza para a primeira dama do país usando o seu inglês, e diante do colega disse que a mulher do primeiro-ministro, Malcolm Turnbull, era uma delícia.

Foi bem assim. Empolgado, Macron falou na frente da plateia e das câmeras que queria aproveitar a oportunidade para "agradecer a você [Turnbull] e a sua deliciosa esposa pela calorosa acolhida", (confira o vídeo no alto da página).

Turnbull deu um largo sorriso, mesmo parecendo desconcertado, enquanto Macron demorou para perceber a gafe que tinha cometido.

Claro que o antenado Macron se expressou mal. Provavelmente ele gostaria de ter dito que a senhora Lucy era muito delicada, mas a derrapada foi feia e correu o mundo.

O problema é que não foi a primeira e nem a última. Em agosto, Macron chutou outro pênalti para fora.

O presidente virou o centro de uma enorme polêmica após afirmar que os franceses não passam de "gauleses resistentes a mudanças".

A declaração foi dada em um discurso em Copenhague endereçado aos franceses que moram naquele país. Macron prosseguiu elogiando o modelo dinamarquês de "seguridade social flexível", mas disse que as diferenças culturais entre franceses e dinamarqueses o impediam de adotar as mesmas medidas na França.

“Este povo protestante [os dinamarqueses], que viveu transformações nos últimos anos, não é exatamente um gaulês resistente à mudança”, disparou.

A oposição francesa logo reagiu, acusando o presidente de fazer uma caricatura dos franceses num país estrangeiro. "Na Grécia, já nos chamou de preguiçosos, e agora, na frente da rainha da Dinamarca, nos caricatura como gauleses resistentes à mudança", critou Laurent Wauquiez, líder do partido Republicanos. "É inadmissível ouvir um presidente da República criticando e caricaturando os franceses quando está no exterior", completou Wauquiez.

Macron se defendeu dizendo que a expressão foi apenas "um toque de humor" no discurso. "Se há uma coisa que caracteriza a França e o povo francês, é gostar da inteligência, da ironia, de rir de si mesmo", disse o presidente.

A esquerda radical também atacou o presidente. Um deputado do partido A França Insubmissa disse que o comentário de Macron foi "muito desdenhoso com seu próprio povo". A ultradireitista Marine Le Pen escreveu em um tuíte: "Como de costume, [Macron] deprecia os franceses no exterior! Os 'gauleses' se darão ao prazer de responder a tal arrogância e desapreço". Já os sindicatos disseram que os franceses eram resistentes a mudanças "quando elas são impostas".

A bronca dos franceses contra as declarações de seu presidente no exterior tinha começado em 2017, quando a língua solta de Macron provocou o primeiro estrago com suas gafes.

Durante uma visita à Grécia, Emmanuel disse que não cederia "nem aos preguiçosos, nem aos cínicos, nem aos extremistas", em uma referência aos que se opunham às novas medidas do governo.

Agora o presidente deu outra pisada na bola ao pegar a primeira foto dramática de fogaréu nas árvores amazônicas (a mesma do fotógrafo que já morreu) e correu para colocar na rede social com um texto mostrando a preocupação dele.

 

Macron: um presidente falastrão que deveria cuidar do seu umbigo

 

Aqui, é preciso separar o joio do trigo. É louvável a preocupação dos moradores de todos os continentes com a saúde de nossas florestas, mas é inaceitável que um chefe de estado de um país do primeiro mundo, que se imagina estar cercado dos melhores assessores, cometa uma gafe dessas. Cuidar da harmonização do planeta é um dever de todos. Agora, criar espetacularização de fatos com recursos errados, é no mínimo perda de credibilidade.

Pior ainda foi Macron ter ficado sozinho na reunião do G7, realizado no fim de semana no balneário de Biarritz, quando disse que gostaria que as maiores potências fizessem um boicote ao Mercosul.

A ideia era suspender o pacto comercial entre o Mercosul e a UE, assinado em junho após duas décadas de negociações. Porém, os demais integrantes do G7 não concordaram.

Mais vexatório ainda foi o presidente francês, anfitrião do encontro, ordenar que os manifestantes fossem mantidos a mais de 10 quilômetros do local das reuniões.

"É um hipócrita. Abraçou a causa ambiental esta semana, há poucos dias do início do G-7, mas promoveu recortes na renda mínima francesa, é amigo das grandes corporações que poluem e exploram os países mais pobres e se move por pesquisas eleitorais. Além disso, se diz democrata, mas promove reações cada vez mais violentas da polícia aos protestos. E agora quer se beneficiar eleitoralmente das manifestações ecologistas que vêm ocorrendo na França. Ao falar de meio ambiente, espera pescar alguns votos", criticava a cozinheira Céline.

Geneviève Legay, 73 anos, é uma ativista na França. Em março, durante uma manifestação contra a visita do presidente chinês Xi Jinping a Nice, ela apanhou da polícia.

Por causa das agressões, Geneviève hoje anda de muletas, e nos protestos contra o encontro do G7 engrossou as falas que recriminaram o oportunismo do presidente.

"Macron, em entrevista na época sobre o meu caso, disse que uma senhora de 73 anos deveria estar em casa, e não na rua protestando. Incrível. O mundo que quero deixar aos meus netos se constrói no espaço público, é um mundo com água potável disponível, com florestas que impeçam a desertificação dos continentes, com dignidade para trabalhadores e pessoas que contribuíram uma vida inteira para o sistema e que hoje, com tantos recortes e austeridade, quase passam fome, seja nos países desenvolvidos, seja no mundo em desenvolvimento. Não, não fico em casa enquanto a democracia acaba e aqueles senhores brindam lá em Biarritz", disparou a crítica de Emmanuel Macron.

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Junio Silva

Junio Silva

Será que o Macron é pior mesmo? Pior do que um presidente que se elegeu defendendo acabar com os órgãos ambientais federais?
Para conhecimento, visto que estão sendo veiculadas informações inverídicas sobre a destinacao dos recursos do Fundo Amazônia . O relatório consolidado de 10 anos de recursos do Fundo, demonstram que cerca de 60% dos recursos são destinados aos órgão federais e estaduais. Grande parte das operações de combate ao desmatamento realizadas pelo IBAMA foram imprescindíveis com o auxílio do Fundo. São mais de 600 operações realizadas e cerca de 9000 autos de infração lavrados.
O combate aos incêndios também foi primordial com os recursos do fundo, foram mais de 23 mil incêndios florestais combatidos com ação dos Corpos de Bombeiros de todos os estados, o PrevFogo do IBAMA e ICMBio com verificação de focos ilegais de incêndios.
Não se engane, estar ao lado de Bolsonaro não é ser patriota, é se aliar ao que há de mais nefasto para a destruição de nossos recursos naturais.
★☆☆☆☆DIA 31.08.19 00h28RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Junio, muito obrigado pela gentileza em  participar do blog. E parabéns pelo seu posicionamento, argumentos e respeito. O mundo precisa de mais pessoas como você. Grande abraço 

★★★★★DIA 31.08.19 18h12RESPONDER
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