Na véspera de completar uma semana, a tragédia de Brumadinho ainda está longe de acabar. Pelo menos duas centenas de pessoas continuam desaparecidas. Mas a cada novo corpo retirado da lama, mais uma história dilacera os nossos corações.
 Marcelle Cangussu, uma imagem que não sai da cabeça

A contagem parece regressiva. Quanto mais se chega próximo ao número das pessoas que os familiares reclamam o desaparecimento, mais se imagina que as operações de busca estão próximas de um fim. Lendo engano. O que talvez faça com que seja eterna a busca de corpos que jamais serão encontrados é a quantidade de lama. Em alguns pontos a sujeirada chegou a cerca de 15 metros de altura. Isso equivale a um prédio de cinco andares. Infelizmente, talvez alguns parentes nunca consigam fazer um sepultamento.

Entre as 99 mortes confirmadas até a noite da quarta-feira estão pessoas das mais variadas idades, profissões e motivos para estarem na região de Brumadinho.

Para várias famílias, a dor é imensamente maior (se é que conseguimos medir o sofrimento na alma de cada pessoa), por terem perdido mais de um parente.

Os relatos das histórias das vítimas são chocantes. Algumas fizeram contatos com amigos e familiares minutos antes do desastre.

Muitos tinham planos para um futuro que já batia à porta. O operador de máquinas Wanderson Soares Mota, de 32 anos, tinha avisado a família que era um dos últimos dias na mineradora. Ele tinha tomado a decisão de voltar para Goiás e estava de malas prontas. Só não partira ainda porque antes precisava acertar uma dívida.

Leonardo Alves Diniz morava em Sarzedo. Ele estava de folga. Trabalhava na Vale há 10 anos e foi convocado para o serviço. Nunca mais vai voltar para a casa. Deixa um filho de sete anos.

Eliandro Batista de Passos tinha 33 anos e trabalhava em uma empresa terceirizada. Ele também deveria estar de folga na sexta-feira. Deixou uma filha de treze anos.

O mecânico Edgar Carvalho Santos, de 45 anos, havia enterrado a mãe dele apenas há três dias.

Duane Moreira de Souza completava 33 anos no dia do desmoronamento da barragem. A tia dele, Eva Maria de Matos, de 56, que trabalhava na cozinha do refeitório, também está entre as vítimas.

Isso sem falar nos donos da pousada Nova Instância, varrida do mapa pelo tsunami de lama quando estava cheia de turistas que foram para lá com o intuito de descansar. 

Cada um tem a sua própria dor, que é a maior de todas.

Mas tem uma personagem dessa catástrofe que a história dela será lembrada para sempre com um dos tristes símbolos dessa tragédia. Seu nome: Marcelle Porto Cangussu.

 

Um dia que seria de comemoração

 

Marcelle é do dia 24 de janeiro. No dia anterior ao desastre da barragem ela havia completado 35 anos. À noite saiu para comemorar com familiares em um restaurante na cidade de Nova Lima.

"Ela estava deslumbrante. Ficou na festa até por volta da meia-noite. No outro dia foi trabalhar e morreu pouco depois do meio-dia", contou Dennyson Porto, tio de Marcelle.

Segundo relatos de amigos e parentes, na sexta-feira Marcelle não estava escalada para a jornada, mas foi chamada pela empresa de última hora. Ela chegou ao trabalho às 7h30.

Ainda de acordo com amigos, a médica planejava continuar os festejos do aniversário na noite da sexta (25), dia em que ocorreu a tragédia.

Marcelle estava em horário de almoço no lugar onde dava expediente quando a barragem rompeu. Desde 2016, era médica do Trabalho na mineradora.

Ela tinha se formada em medicina pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) há dez anos. Passou em terceiro lugar no vestibular, ao entrar na faculdade.

Solteira, não chegou a ter filhos e à noite costumava ir dormir no apartamento de sua avó. Era neta também de Exuperio Alves Cangussu, ex-prefeito de Almenara, no Vale do Jequitinhonha.

Atualmente, trabalhava na Vale e no Hospital Metropolitano de Betim. Mas apesar de ter atividades em outras cidades ela continuava morando em Belo Horizonte, no bairro do Belvedere.

Para chegar até Brumadinho, na área da mineradora, Marcelle precisava dirigir 25 km. Amigos contam que a maior preocupação da família era em relação à segurança de Marcelle na estrada.

"Minha filha era agraciada em todos os sentidos. Orgulhava-se demais do trabalho, desdobrava-se em horários e plantões longos. Às vezes, entrava às 7h e saía às 20h. Era uma pessoa brilhante", conta a mãe.

 

               Marcelle Cangussu, uma imagem que não sai da cabeça

 

Marcelle foi o primeiro corpo encontrado pelas equipes de resgate. Ao ver a foto da doutora estampada em todos os sites o mundo caiu na real.

O acidente em Brumadinho não era apenas o desmanche de uma barragem. Era a consumação de uma das maiores tragédias provocadas pelo próprio homem.

Mal sabiam os pais da médica que o grande perigo que cercava a doutora era outro muito maior do que a violência nas estradas. 

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Andréa Santos

Andréa Santos

Perdir um. Filho num acidente faz 3 anos. E até hoje sofro muito.uma jovem linda cheio de vida que um dia antes se divertiu, riu, brincou, estava feliz demais. E no outro dia está morta,e difícil tirar da cabeça mesmo.Principalmente para todos que estavam com ela no dia mais alegre de sua vida,seu ANIVERSÁRIO nossa isso doi na minha alma, meu filho tbm foi assim, feliz num dia no outro morto.não suporto tanto sofrimento que nem o tempo faz passar.que Deus conforte a mãe e a familia, os amigos dessa jovem.
★★★★★DIA 05.02.19 00h55RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Andréa, tem mistérios da vida que a gente nunca vai entender. Por que pessoas já não tem nenhuma saúde, idosas, vivem sob efeito de medicações e com a ajuda de aparelhos, por exemplo, passam anos em leitos enquanto jovens cheios de saúde partem cedo? Acho que um dia vamos entender. Abraço e força.

★★★★★DIA 05.02.19 08h23RESPONDER
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WAGNER ALMEIDA

WAGNER ALMEIDA

Uma perguntinha apenas.....E a VALE, até quando irá matar seus funcionário? Isso não foi acidente, isso foi crime! Triste realidade ocorrida MAIS UMA VEZ aqui em MG!
★★★★★DIA 04.02.19 12h08RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Concordo, Wágner, um crime sem prescedentes na história. E até agora o Governo não fez nada, a não ser o anúncio de um monte de multas, como aconteceu em Mariana, e nenhuma foi paga até hopje. Abraço. 

★★★★★DIA 04.02.19 14h20RESPONDER
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Anderson Figueiredo

Anderson Figueiredo

A ganância do homem, fez com que esse crime acontecesse!! Vidas seifadas !!!
★★★★★DIA 31.01.19 16h41RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Anderson, sua frase resume tudo. Muito obrigado por escrever nesse espaço. Abraço 

★★★★★DIA 31.01.19 16h44RESPONDER
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José Mercês Souza

José Mercês Souza

Pois é, Marcelle, você se foi só porque cumpria com seu dever profissional. Você não precisava ter ido (se não fosse convocada) ao trabalho naquele dia, porém foi. Você tinha idade para ser minha filha; tenho um filho que trabalha ali, porém, Deus, o destino, sei lá o quê o livrou. Deveria ter retornado ao trabalho após suas férias, ouvindo uma sugestão da esposa que o pedira para fazer jus às folgas ( dois dias) que tinha, não foi ao trabalho e se livrou da tragédia. Que você, Marcelle, assim como os outros que pereceram sob a lama da gula de empresários irresponsáveis, esteja bem e em paz. Aos familiares entristecidos, o meu carinho, abraço e orações. Que Deus abençoe a todos.
★★★★★DIA 31.01.19 16h00RESPONDER
NATALIA NETO
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

José Mercês, os mistérios da vida são incompreensíveis. Todos os que se foram deixaram para trás família, histórias e uma saudade que não vai passar nunca. Tudo isso ocasionado pela gula do poder econômico. Muito obrigado por escrever no nosso blog. Abraço. 

★★★★★DIA 31.01.19 16h20RESPONDER
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José Mercês Souza

José Mercês Souza

A alegria é muito minha também, caro Guilherme Mendes, além de uma honra, é claro. Fraterno abraço
★★★★★DIA 01.02.19 00h09RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Venha sempre nos visitar. Será um prazer ter a sua leitura. Abraço.

★★★★★DIA 01.02.19 00h20RESPONDER
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Robson Santos

Robson Santos

Não acho que ela seja um símbolo, antes mesmo de aparecer a foto dela estampada nos jornais, já haviam várias histórias de famílias inteiras desaparecidas, mas é claro que o fato dela ser médica, branca e de elite fez toda a diferença, dessa vez não foram apenas as pobres e empregados de baixo escalão os afetados. Não considero ela um símbolo, símbolo mesmo foi a morte de mais de 300 pessoas causada pela ganancia do ser humano.
★☆☆☆☆DIA 31.01.19 15h52RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Robson, boa tarde! Todas as opiniões aqui são respeitadas. Muito obrigado por enviar a sua. Venha sempre nos visitar. Abraço 

★★★★★DIA 31.01.19 16h24RESPONDER
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lo silveira

lo silveira

MAS PORQUE SÓ NOS INDIGNAMOS APÓS O FATO CONSUMADO?
ESTA BARRAGEM JÁ ESTAVA LÁ, ASSIM COMO TODAS AS MAIS DE 500 BARRAGENS NO BRASIL
AS PALAFITAS JÁ ESTÃO LÁ, ESPALHADAS NOREDESTE AFORA
AS FAVELAS JÁ ESTÃO LÁ, CIRCUNDANDO OS GRANDES CENTROS URBANOS
AS CRIANÇAS EM VEZ DE ESCOLA, ESTÃO NAS RUAS CHEIRANDO DROGA, PEDINDO ESMOLA
ENFIM, A HUMANIDADE É INSANA
★★★★★DIA 31.01.19 15h30RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Silveira, o Brasil vive grandes calamidades sociais. Temos hoje cerca de 52 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza. Isso significa que elas recebem cerca de 18,50 reais por dia. No final do mês não chega a 550 reais. Mas a população muitas vezes prefere simplesmente ignorar situações com essa. Só em BH, atualmente cerca de 3 mil pessoas mora nas ruas da capital. Em compensação, tem sites que estão hoje estampando varias matérias sobre a preparação das escolas para o carnaval. Abraço. 

★★★★★DIA 31.01.19 15h55RESPONDER
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lo silveira

lo silveira

SIM GUILHERME, SÃO MILHARES DE IMAGENS
A QUE ME CORTA O CORAÇÃO É AQUELA MÃE RESGATADA SEM O FILHO DE 02 ANOS...
LÁGRIMAS AGORA
★★★★★DIA 31.01.19 15h21RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Silveira, muito bem lembrado. A imagem da mãe e filho me fez recordar de outra recente tragédia nas chuvas de dezembro, em que uma mãe morreu abraçada a filha dentro do carro. Vivemos momentos duríssimos nos últimos meses. O que a sociedade espera em todos os casos é que seja feita justiça. Abraço 

★★★★★DIA 31.01.19 16h29RESPONDER
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agnaldo .

agnaldo .

se você fosse:
- namorado;
- parente..............
talvez, esta "imagem" justificasse o seu texto.
porém, esta idéia de escolher uma musa para a tragédia foi muito infeliz.
★☆☆☆☆DIA 31.01.19 14h43RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Agnaldo, tenho idade para ser pai da Marcelle. Sou ainda pai de uma médica que, assim como a doutora da mineradora, também já trabalhou em plantões de alto risco. Minha filha já salvou algumas dezenas de vidas socorrendo em unidades do SAMU ou atuando em longas madrugadas nos hospitais. Todas as vítimas, sem nenhuma exceção, merecem o nosso total respeito. Todas as famílias, sem nenhuma exceção, merecem a nossa solidariedade. Obrigado por participar do blog com a gente. Abraço 

★★★★★DIA 31.01.19 16h34RESPONDER
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Gleiber Rabelo

Gleiber Rabelo

Se esse fato fosse em um país sério como a China, que executa pessoas metidas em crimes de corrupção, esses engenheiros que foram presos seriam fuzilados
★★★★★DIA 31.01.19 13h48RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Gleiber, a impunidade que reina no Brasil é o crime mais difícil que precisamos combater. Obrigado pela mensagem. Abraço 

★★★★★DIA 31.01.19 16h26RESPONDER
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Gleiber Rabelo

Gleiber Rabelo

Tudo culpa da ganância dessas empresas, que só pensam no lucro e não pensam na segurança
★★★★★DIA 31.01.19 12h54RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Gleiber, a ganância aliada ao poder econômico que eles possuem. As reportagens que mostram o quanto as assembleias e câmaras travaram aprovação de leis mais rígidas porque tem parlamentares que são financiados por esses grupos mostram como o “Brasil” conduz seus interesses. Abraço 

★★★★★DIA 31.01.19 13h03RESPONDER
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Melissa do Carmo

Melissa do Carmo

Por que ela é a imagem que não sai da cabeça, diante de outros que deixaram filhos pequenos, perderam casas? Uma mulher foi retirada da lama, perdeu marido e um filho de 1 ano. Ela foi engolida pela lama achando que estava segurando o filho e era um escombro. Mas porque esta é o simbolo? Pq é branca, de elite, loira e médica??? Será que é pq estamos acostumados a ver pobre em deslizamentos, em enchentes, mas não médicos brancos???
★★★★★DIA 31.01.19 12h43RESPONDER
João Castanho
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Melissa, bom dia! Todos, sem nenhuma exceção, deixaram uma dor nos parentes e amigos que não tem tamanho. Acho que deixei isso claro no texto. A analogia no caso da médica, foi o fato de ser a primeira apresentada. Naquele momento (independente de quem fosse), caímos na realidade de que não era só um grave acidente ambiental. Nessas tragédias tem sempre uma imagem que se torna marcante. Em Mariana, o carro em cima de uma casa, se tornou um símbolo do desastre. Toda vez que a tv relembra o episódio repetem a cena. Tenho certeza que ainda vamos conhecer as histórias de muitas outras vítimas que nos deixarão tão chocadas quanto a que você citou. Abraço 

★★★★★DIA 31.01.19 13h00RESPONDER
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Diego Santana

Diego Santana

Não consegui entender o porque da Marcelle ser "a imagem que não sai da cabeça"....
★☆☆☆☆DIA 31.01.19 10h31RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Diego, assim que saiu a notícia do rompimento da barragem todos imaginávamos que era um gravíssimo acidente ambiental. Mas, no fundo, tínhamos esperanças de que não houvessem vítimas. Quando vimos a primeira foto, o primeiro corpo retirado e as estatísticas nossa dimensão passou a ser outra. Assim como foi a imagem da doutora, poderia ter sido de uma criança, de um idoso ou de um trabalhador qualquer. Outras imagens ainda não deixaram muito impactados, infelizmente. Tomara que todo esse episódio não caia no esquecimento em breve quando o Brasil tiver um outro grande problema. Abraço 

★★★★★DIA 31.01.19 13h09RESPONDER
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