A última sentença tirou mais de meio milhão de reais do dirigente
Marin vai perdendo aos poucos todo o dinheiro que surripiou no futebol

A juíza da Corte Federal do Brooklin não quis saber de refrescar. Mesmo com o ex-presidente da CBF preso nos Estados Unidos a meritíssima mandou o cartola devolver mais 519 mil reais a Conmebol e a FIFA por causa da condenação de corrupção. Esse valor é relativo a salários e benefícios que ele recebeu quando ocupou cargos nas duas instituições. Em agosto, Marin já tinha recebido uma multa milionária aplicada também pela justiça americana por fraude junto a entidade máxima do futebol mundial. A nova punição não representa muito para a reputação do dirigente. Marin já é há tempos o mais desmoralizado homem do futebol brasileiro. Desde 2015, quando foi preso na Suíça, José Maria viu a vida dele ser revirada pelo avesso. O cidadão que um dia foi flagrado "embolsando" uma medalha de torneio de base, hoje é rotulado como o mafioso que participava dos maiores esquemas de corrupção na bola que o Brasil já viu. 

Tudo começou por causa da indignação dos americanos ao não serem escolhidos para sediar a Copa de 2022, que será no Qatar. Os Estados Unidos eram considerados favoritos. Perderam na votação das federações e confederações que tinham direito de eleger e passaram a suspeitar que houvesse rolado grana. Estavam certos. O pior é que tinha muito mais trapaça do que eles suspeitavam. As apurações chegaram a conclusão de que há 24 anos existia uma rede de suborno na prática ilegal de dar propina para dirigentes votarem em determinados países. Na América do Sul a corrupção corria solta também na negociação de direitos de competições. O caso passou a ser chamado de Fifagate.

No caso do brasileiro a investigação foi longe e os tiras descobriram um monte de falcatruas na venda de direitos dos nossos campeonatos. 

Aí você deve estar perguntando o que isso tem a ver com a justiça americana. É que lá, as leis são rigorosas e funcionam, mesmo. Quem estava ao encalço de Marin era nada menos do que o FBI.

 

O que diz a legislação americana

 

As leis dos Estados Unidos autorizam o Departamento de Justiça investigar estrangeiros que vivem no exterior e que tenham alguma ligação com o país. A conexão pode ser através de rede bancária e até de provedores de internet norte-americanos.

Marin foi pego a partir dessas ligações. O dirigente estava na Suíça em 2015, para participar de um congresso da FIFA quando foi detido com mais oito membros de outros países que também estavam envolvidos na venda de votos. No ato da operação as autoridades dos Estados Unidos alegaram que tinham sido cometidos três crimes com pagamentos realizados por meio de bancos americanos.

"A acusação alega que a corrupção é desenfreada, sistêmica e profundamente enraizada tanto no exterior como aqui nos Estados Unidos", resumiu na época a procuradora-geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch.

Entre ficar preso na Suíça e ser extraditado para a América do Norte, Marin preferiu a segunda opção. Provavelmente, por se sentir em casa em New York onde tem um apartamento em um dos endereços mais caros da cidade e poderia cumprir prisão domiciliar. Para ter esse benefício ele morreu em um milhão de dólares, valor exigido pela justiça americana. O que o dirigente talvez não imaginasse é que um dia fosse parar atrás das grades de verdade e perdesse muito mais. 

 

Marin vai perdendo aos poucos o dinheiro que surripiou do futebol

 

Os escândalos do cartola

 

O esquema que José Maria Marin participava funcionava da seguinte forma. Ele e seu grupo, que tinha também os ex-presidentes da CBF Ricardo Teixeira e Marco Paulo Del Nero, vendiam os direitos comerciais da Copa América, Copa Libertadores e Copa do Brasil a empresas de marketing esportivo por um valor de mercado considerado muito baixo. Depois esses direitos eram revendidos as emissoras de TV e patrocinadores por preços bem mais altos. A diferença, que era muita grana, acabava dividida entre os dirigentes de futebol e os donos das empresas que manobravam a operação. 

Em dezembro de 2017, o ex-presidente da CBF foi condenado pela Corte Federal do Brooklin em seis crimes de conspiração/formação de organização criminosa; fraude financeira e lavagem de dinheiro na Copa Libertadores; fraude financeira na Copa do Brasil e fraude financeira e lavagem de dinheiro na Copa América, tendo embolsado ilegalmente 6,5 milhões de dólares. O dirigente só escapou da acusação de lavagem de dinheiro na Copa do Brasil, mas teve que deixar o conforto de seu luxuoso ap nova-iorquino para se "hospedar" na cadeia da Pensilvânia. O total da pena definido pela juíza americana Pamela Chen foi de 48 meses, mais o pagamento de uma multa de 1,2 milhão de dólares pelo crime contra a FIFA. Ainda na sentença Pamela ordenou que fossem confiscados 3,35 milhões de dólares das contas de Marin.

Você deve estar perguntando também porque Marco Paulo Del Nero e Ricardo Teixeira, que são apontados como participantes do mesmo esquema estão soltos. É que na época das primeiras prisões eles não faziam parte da lista inicial e depois se refugiaram no Brasil. Como nosso país não extradita cidadãos nascidos aqui para serem julgados no exterior eles escaparam. Mesmo assim, os dois foram banidos do futebol pela FIFA, ou seja, não podem mais ocupar qualquer cargo.

 

O que Marin fez na política e no futebol

 

José Maria Marin teve uma longa vida dedicada ao esporte e a política. Começou como jogador do São Paulo. Era ponta direita, mas por causa das limitações técnicas acabou dispensado. Foi jogar no São Bento, Marília e Jabaquara. Se meteu na política e teve uma carreira mais relevante. Começou como vereador em São Paulo. Depois se tornou deputado estadual e pegou carona quando Paulo Maluf foi eleito governador do estado de forma indireta, sendo seu vice. Acabou ocupando a cadeira principal do Palácio dos Bandeirantes por um período de dez meses durante a ditadura militar. 

Em 1982, virou presidente da Federação Paulista de Futebol. Nos últimos tempos de Ricardo Teixeira na CBF, Marin era um de seus vices e acabou herdando o cargo quando Teixeira renunciou em 2012, alegando problemas de saúde. Ao passar o trono de empoderado no futebol nacional escolheu seu antigo parceiro Marco Polo Del Nero para ser o sucessor. Polo ganhou a eleição e assumiu a Confederação Brasileira em 2015. 

Mas o primeiro vexame de Marin foi bem antes da prisão na Suíça. Durante a premiação de entrega de medalhas da Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2012, José Maria foi flagrado, sorrateiramente, colocando uma no bolso do terno. Pelo jeito o vexame foi pouco para queimar a cara do dirigente. As lembranças que vão ficar sobre a história de Marin no futebol serão as piores possíveis. Até o nome dele, que um dia foi estampado na fachada da nova sede da CBF, já não está mais lá há tempos. É melhor mesmo apagar as lembranças do cartola que acabou na cadeia. 

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