Quanto vale um show e a vida de um ser humano?
Mesmo com modelo quase morto na passarela, grife mandou o desfile seguir

O show não pode parar. O chavão antigo não sai de moda nunca. Está sempre desfilando em eventos artísticos. Doa em quem doer, o espetáculo precisa continuar.

Inúmeros são os exemplos de casos em que nem as tragédias interromperam o espetáculo. O mais emblemático está completando 25 anos nesse 1º de maio.

Há um quarto de século o piloto Ayrton Senna sofreu um gravíssimo acidente em San Marino, logo nas primeiras voltas de uma corrida de Fórmula 1, e a direção mandou a prova prosseguir. Na véspera já havia morrido outro piloto, o austríaco Roland Ratzenberger, de 33 anos, e ninguém "ousou" cancelar a etapa do Campeonato.

O desfecho do acidente com Senna todo mundo sabe. Poucas horas depois da batida na curva Tamburello foi decretada a morte cerebral do brasileiro, e nos minutos seguintes o falecimento do grande ídolo do automobilismo.

Até hoje o esporte se envergonha de não ter encerrado a corrida logo após o acidente. Os pilotos continuaram em alta velocidade na pista como se nada tivesse acontecido.

Teoria da conspiração ou não, muito se fala que os organizadores esperaram o GP ser concluído para que a notícia do falecimento de Ayrton fosse divulgada.

No último sábado (27/04), o mundo da moda viu uma situação bem parecida.

O modelo Tales Cotta era contratado da Base MGT. Mineiro de Manhuaçu, ele morava em São Paulo em um apartamento da agência com mais quatro rapazes. Na sexta-feira, Tales já havia desfilado na SPFW para a grife Ratier.

No último dia do evento, Cotta participava da apresentação da grife Ocksa quando caiu desacordado na passarela. Nos primeiros instantes, muitos na plateia pensaram que se tratava de uma performance do mineiro. Como ele usava sandálias com várias tiras, o público imaginou que poderia ser também um tropeço do manequim.

Mas o caso era sério. Foi preciso que uma equipe de socorristas entrasse em cena para acudir o rapaz. Tales recebeu os primeiros socorros de oficiais do Corpo de Bombeiros ali mesmo. Cotta foi levado ainda com vida para a ambulância, onde a equipe de resgate tentou uma reanimação antes de encaminhá-lo ao Pronto Socorro Municipal da Lapa.

Ao dar entrada no hospital o modelo já estava morto. A equipe ainda tentou manobras para ressuscita-lo sem êxito.

Com o modelo fora dos holofotes, o evento continuou como se nada tivesse acontecido. Ainda faltavam os desfiles de quatro grifes - Flávia Aranha, Piet, Ponto Firme e Cavalera. A programação foi mantida, mas desde domingo tem sobrado críticas para todos os elegantes do evento. Nas redes sociais os comentários sobre a falta de sensibilidade e respeito pela morte de Tales viralizaram.

Também desde o final de semana virou um jogo de empurra-empurra a responsabilidade pela continuação dos desfiles. O jovem passou mal antes das 17h30. A organização da São Paulo Fashion Week teria sido informada oficialmente da morte perto de 19h e deixou a decisão de seguir ou não com o roteiro nas mãos das grifes. Essa é a versão oficial divulgada em uma nota no Facebook.

"Estamos todos muito tristes. Como é sabido, o modelo Tales Cotta teve um mal súbito no desfile da Ocksa e foi prontamente atendido pelos socorristas. Foi levado ao hospital com vida, sem indicação de que viria a falecer.

Com a informação de que ele estava sendo atendido, ficamos juntos com a agência Base acompanhando e dando toda a assistência necessária.

Fomos informados oficialmente pelo hospital do falecimento às 18:50 - 1h30 depois que Tales precisou ser atendido. O atestado de óbito registra horário da morte às 18:40. Neste horário, ainda faltavam três marcas a desfilar: Piet, Ponto Firme e Cavalera.

Com esta notícia, a organização se reuniu com as marcas, diretores de desfiles, stylists e modelos próximos de Tales, que tinham desfiles na programação, e foi dada a opção de cancelar os mesmos. Mesmo abalados, decidiram manter os desfiles. Todos os envolvidos foram acompanhados de perto.

Foi decidido também pelo minuto de silêncio na abertura de cada desfile, o retirar do som da vinheta de abertura nas salas de desfiles, a pausa na cobertura oficial do evento, o encerramento da música no evento e foi pedido que as marcas considerassem o ocorrido em suas celebrações no backstage.

Mais uma vez, lamentamos profundamente a morte de Tales, e prestamos nossas condolências a família por aqui e pessoalmente. Estamos prestando toda assistência necessária neste triste momento.

Precisamos ainda pontuar três assuntos que chegam até nós como questionamento:

- Havia comida no backstage?
Todos os backstage tem comida com opções vegetarianas durante todo o tempo que está em funcionamento.

- Houve algo além do mal súbito?
Ainda não temos o laudo oficial e não é possível afirmar a causa.

- Porque o desfile continuou?
Tales saiu do evento sendo socorrido e com vida. A organização e a marca Ocksa decidiram por seguir, pois não esperávamos este desfecho”, diz o comunicado.

Mas estilista Flavia Aranha, que foi à passarela logo após o ocorrido, garante não ter sido informada do que acabara de acontecer diante do público. Incomodada, Flávia correu para se justificar em uma publicação no Instagram. A estilista alega que estava no backstage preparando sua equipe. "Eu não fazia ideia do que havia acontecido. Até quase uma hora após o término do nosso desfile. Se soubesse não teria desfilado. E sinto necessário tornar essa informação pública", escreveu Aranha.

Diante de toda a repercussão negativa, a Ocksa usou as redes sociais e assumiu o erro de não ter encerrado seu desfile imediatamente. "Jamais poderíamos imaginar que o nosso desfile de estreia seria marcado por uma tragédia: a perda de um amigo especial, Tales Cotta. Em nome de toda equipe pedimos desculpas por termos dado continuidade ao desfile, independente das informações que dispúnhamos naquele momento, no backstage. Independente se tivesse sido uma queda ou ele desmaiado, jamais deveríamos ter dado continuidade ao desfile. Tudo aconteceu muito depressa", escreveu.

 

Mesmo com modelo quase morto na passarela, grife mandou o desfile seguir

 

A diretora de arte Glaucia Cechinel, que estava na sala de desfile quando Cotta desmaiou, também lamentou: "Não consigo me sentir menos culpada que todas as pessoas que lá estavam e nada fizeram. Organização do evento, equipe da marca, agências de modelos. Não existe um culpado, essa não é a problemática. Todos somos responsáveis por corroborar com um sistema que alimenta a desvalorização do ser humano".

Segundo o responsável pela Base MGT, Rogério Campaneli, os médicos do hospital que atenderam o rapaz suspeitam da existência de uma doença congênita. "Os médicos que conversaram com a gente falaram que quando o Tales caiu a morte cerebral já existia. Tentaram durante uma hora e 20 minutos a reanimação do coração. Mas o socorro não iria adiantar", disse Campaneli.

No desfile da Cavalera, o rapper Rico Dalasam subiu à passarela dizendo que foi convidado pela grife para falar, mas que não era para ninguém estar ali. "Me chamou porque quis. Não era para ninguém estar aqui, o garoto acabou de morrer e vocês estão aqui como se a vida não valesse nada. Não era para ninguém estar aqui, certo? Enquanto os vivos não lamentarem a morte dos negros, dos brancos e da humanidade das pessoas, a agonia vai estar no travesseiro de todo mundo", disse.

Rico Dalasam tinha sido contratado pela marca para falar o que quisesse no desfile. "Dei o papo e sai fora" explicou.

A família do modelo parece conformada com o que aconteceu. A mãe de Tales, Heloísa Cotta, defendeu a marca Ocksa pelas redes sociais: "Não se culpem. Tales era profissional. Vocês não fizeram mal nenhum. No momento ninguém sabia realmente o que tinha acontecido. O certo era seguir o desfile pra não desestabilizar o restante".

 

Mesmo com modelo quase morto na passarela, grife mandou o desfile seguir

 

O caso está sendo investigado pelo 14º Distrito Policial (DP), em Pinheiros, também na Zona Oeste da cidade.

Tales Cotta estava prestes a iniciar uma carreira internacional quando a tragédia aconteceu no final de semana. O modelo de 25 anos tinha sido selecionado por uma agência de Milão.

 

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