O teste foi feito na unidade japonesa no segundo semestre, e o resultado surpreendeu
Microsoft adota jornada com quatro dias de trabalho por semana

Você já deve ter ouvido pelo menos uma centena de vezes que o mundo mudou. Essa teoria, na verdade, não tem nada de novo.

Já pensou o que foi o homem sair das cavernas e começar a construir cabanas, que viraram tendas, se transformaram em casas e depois em edifícios? Você consegue imaginar o que a invenção da roda deve ter feito na cabeça das pessoas?

E a Revolução Industrial na Inglaterra no século XVIII, quando parte dos trabalhos artesanais passaram a ser substituídos por máquinas?

O mundo sempre mudou.

O que estamos vendo agora é uma grande corrida em busca por inovações em um mercado severamente marcado pela competição. Esse novo cenário tem feito as empresas testarem muitos formatos audaciosos e revolucionários. Nem todos darão certo, provavelmente a maioria, mas alguns irão mudar de novo a forma do mundo caminhar.

Uma dessas experiências acaba de ser testada no Japão no mês de agosto. Antes de detalharmos o formato, primeiro é preciso entender um pouco a realidade do país para compreender melhor o estudo dos asiáticos.

Os japoneses chegaram ao século XXI com escassez de mão de obra e envelhecimento da população. Essa equação tem levado as empresas imporem algumas das jornadas de trabalho mais longas do mundo.

Cerca de um quarto das organizações exigia que os funcionários cumprissem mais de 80 horas extras por mês. Esse dado foi revelado por uma pesquisa realizada pelo governo japonês em 2016.

Em uma lei sancionada pelo primeiro-ministro Shinzo Abe, e que entrou em vigor esse ano com contestações por parte das empresas, os trabalhadores estão limitados agora a 45 horas extras legais por mês e 360 horas por ano.

Diante desse quadro, a Microsoft japonesa decidiu avançar em uma experiência ainda mais restritiva. A empresa que fica em Shinagawa, um conhecido distrito de Tóquio, resolveu testar uma jornada com apenas quatro dias de trabalho em um projeto que eles chamaram de "Desafio de Verão Escolha Trabalho-Vida 2019".

Durante o mês de agosto os funcionários tiveram cinco finais de semana com três dias de folga. A turma trabalhava até quinta-feira e voltava só na segunda.

O resultado surpreendente para os executivos foi revelado agora, em um relatório divulgado no dia 31 de outubro. A produção da empresa cresceu 40% no período, enquanto os gastos reduziram sem implicar em nenhum corte na grana dos funcionários. Os dois mil e trezentos colaboradores receberam normalmente os salários, sem descontos pelos cinco dias a mais sem trabalhar.

 

Como a produtividade melhorou

 

O estudo concluiu que a semana de trabalho de quatro dias levou os funcionários a se esforçarem para usar o tempo de atividade com mais eficiência. O primeiro passo foi diminuir os deslocamentos para muitas reuniões que também foram encurtadas para 30 minutos (tempo máximo).

Outros encontros acabaram cancelados ou se transformaram em conversas on-line.

Os funcionários colaboraram e tiraram 25,4% menos dias de folga durante o mês. Eles ainda reduziram em 58,7% a impressão de páginas e consumiram 23,1% menos eletricidade no escritório. Tudo isso em comparação com agosto de 2018, segundo o relatório.

A experiência foi considerada positiva por 92,1% dos empregados. Entre os que desaprovaram estão alguns gestores que não compreenderam as mudanças no estilo de trabalho e funcionários que temem que clientes se incomodem com a redução na jornada.

O alto percentual de aprovação encorajou a Microsoft a noticiar que vai repetir a escala de quatro dias em outras épocas do ano. A empresa anunciou também um plano para subsidiar as férias dos funcionários ou cursos de aprimoramento, num valor total de até US$ 920 por pessoa.

Para o CEO da Microsoft no Japão, Takuya Hirano, o experimento foi uma importante vitória para a empresa que lançou uma campanha com o seguinte slogan: "Trabalhe um pouco, descanse bastante, aprenda muito". O objetivo da unidade asiática é tentar obter os mesmos resultados com uma meta definida.

"Quero que os funcionários pensem e experimentem como obter os mesmos resultados com 20% menos tempo de trabalho, disse o presidente e CEO da Microsoft no Japão, Takuya Hirano. “Trabalhe um pouco, descanse bastante, aprenda muito. É necessário ter um ambiente que lhe permita descobrir seu propósito na vida e como causar um impacto maior no trabalho", disse o executivo.

 

Outras experiências pelo mundo

 

O que os japoneses experimentaram esse ano também está sendo testado por mais empresas ou já faz parte do calendário de outras.

Na Nova Zelândia, a Perpetual Guardian, uma empresa de consultoria de investimentos e fundos, passou dois meses com os funcionários trabalhando 30 horas por semana. Todos continuaram sendo pagos por 37,5 horas. No final, a avaliação mostrou que o desempenho continuou sendo o mesmo e os empregados pareciam menos estressados e mais engajados.

O resultado foi tão animador que virou uma opção permanente para os funcionários.

Quem também está analisando os efeitos da redução da jornada é a rede americana de hambúrgueres Shake Shack. Por enquanto, a empresa ainda está em fase de testes.

No Reino Unido, a proposta da semana de quatro dias tem divido opiniões importantes. Alguns dos maiores sindicatos da Irlanda e da Grã-Bretanha concordam. Já o Partido Trabalhista encomendou uma análise sobre a redução de dias e o estudo não foi favorável.

Mesmo com o impasse, empresas consideradas de pequeno porte testaram a ideia e aprovaram parcialmente. Elas alegam que os trabalhadores encontraram um maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. A produtividade também aumentou, mas as organizações admitem que as novas circunstâncias podem levar os funcionários a relaxar mais nos finais de semana e aumentar a pressão nos dias trabalhados.

Outra crítica vem de analistas que temem por uma redução de salários com a queda de competitividade ao invés apenas de ser uma diminuição de "esforços".

Nos Estados Unidos, segundo o The Washington Post, o movimento trabalhista ainda não se encantou com os argumentos para o corte de dias. Os pré-candidatos democratas que estão na corrida presidencial para 2020 também não demonstraram nenhuma empolgação com a ideia.

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