Vai ser a primeira vez na história do concurso que uma mulher que nasceu homem poderá concorrer ao título
Mulher transgênero é favorita para ganhar o concurso de Miss Universo

Não precisa se assustar. Você não leu nada de errado até aqui. Ángela Ponce, na verdade, foi batizada com o nome de Ángel Mario Ponce por ter nascido homem no dia 18 de janeiro de 1991, na cidade de Pilas, em Sevilha. Para conquistar o direito de fazer parte de uma lista das mulheres mais bonitas do mundo, Ángela passou literalmente por muitas transformações na vida. Não foi só a constituição física dela que mudou depois que resolveu encarar as cirurgias e os tratamentos hormonais para ter um corpo feminino. A vida dessa espanhola também virou de cabeça para baixo, da mesma forma que Ponce está revolucionando um dos mais tradicionais concursos de beleza do planeta. No próximo domingo, pela primeira vez em 66 anos, o Miss Universo pode ser faturado por um transgênero.

Pilas é um município bem pequeno, com uma população que não chega a quinze mil habitantes. Fica na província de Sevilha, na região da Andaluzia espanhola. Foi nessa cidade que nasceu a mulher que vai ser o centro das atenções no próximo domingo. Só que não será na Espanha a tão aguardada aparição de Ángela Ponce, mas na Tailândia. 

A sexagésima sexta edição do concurso de Miss Universo arrastou para a Ásia um momento histórico para a humanidade. Histórico porque vai jogar por terra em definitivo um conceito milenar. A conversa de que só pode ser considerada mulher quem nasceu em um corpo com órgão genital feminino e hormônios próprios deixou de ser uma verdade absoluta. Um transgênero está inscrito no concurso. 

A caminhada de Ángela Ponce até as passarelas de Bangkok foi cheia de circunstâncias difíceis de superar. A família conta que com apenas três anos o garotinho Ángel já se comportava como uma menina. Mas só depois de completar 16 anos ele começou a fazer tratamento a base de hormônios para mudar de sexo. 

A cirurgia chamada de vaginoplastia só aconteceu quando Ángela estava com 24 anos e já era uma mulher muito bonita. Ela justifica assim a decisão de se submeter ao procedimento médico: "É uma decisão pessoal, mas não é essencial para ser mulher".

Os pais de Ángela são donos de um bar em Pilas. Eles tiveram três filhos, a miss espanhola é a do meio. Na juventude ela também trabalhou com a família. Formou-se em um curso de informática, mas nunca se interessou em investir na carreira. Passou um ano em uma escola da cidade como professora de educação física. Seus alunos eram crianças. Depois fez um curso de cabeleireira e se meteu no mundo da moda.

Nas passarelas finalmente começou a se realizar. Participou de vários desfiles e ganhou prêmios em concursos de beleza. Incentivada por amigos resolveu encarar o Miss Cádiz 2015. E ganhou. O passo seguinte era o Miss Espanha, mas aí as barreiras ficaram gigantes para a menina que já era considerada a mulher mais linda de Andaluzia.

 

Ganhou, mas não levou

 

O concurso de beleza máxima espanhola também aconteceu em 2015. Ángela Ponce tinha tudo para ser eleita novamente a mais bela, mas como o Miss Universo não aceitava candidatas transgênero o título foi dado a Mireia Lalaguna. 

"Nasci em um mundo, em uma sociedade que realmente não estava preparada para mim. Tive o apoio da minha família, mas mesmo assim sofri discriminação e não tinha modelos a seguir", hoje justifica a musa.

No dia 29 de junho de 2018, na cidade de Tarragona, na Catalunha, Ángela voltou a desfilar pelo título que não pode conquistar três anos antes e acabou eleita. "As mulheres trans vêm sendo perseguidas e apagadas há muito tempo. Estou mostrando que as mulheres trans podem ser o que quiserem", disse Ángela depois de ser escolhida Miss Espanha.

O que ajudou Ponce a realizar o sonho foi outra transgênero, que mora bem longe de Pani e nem conhece Ángela, mas que foi fundamental na aceitação de mulheres como elas.


A canadense que Trump vetou

 

A história de Jenna Talackova tem muita coisa em comum com a de Ángela. A canadense, que nasceu em Vancouver no dia 15 de outubro de 1988, foi a primeira a tentar quebrar o tabu de que transgênero não podia participar do concurso de Miss Universo. Em 2012, ela se enfiou em uma passarela com mais 11 beldades brigando pelo posto de Miss Canadá. Jenna ganhou, mas não pode seguir a diante. 

O que fretou o sonho da loira foram as regras inflexíveis do Miss Universo. Na época, o concurso pertencia a uma das empresas do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O manda chuva não aceitava transexual concorrendo ao título de mulher mais linda do mundo. 

Talackova não pode ir ao Miss Universo, mas iniciou uma campanha para que o conceito conservador de Trump fosse revisto. A mudança da regra restritiva do concurso tem tudo a ver com a eleição presidencial americana. Ao entrar para a política, Donald Trump vendeu a franquia do miss para a WME-IMG. A empresa passou a ser chamar Endeavor. 

A nova holding assumiu todas as marcas do grupo, incluindo o Miss Universo e o Miss Estados Unidos, e aceitou a participação de transgêneros. Para Trump, Ángela manda o seguinte recado sonhando com a consagração na Tailândia: "Mais do que uma mensagem para ele, seria uma vitória para os direitos humanos", declarou.

 

Mulher transgênero é favorita para ganhar o concurso de Miss Universo Ángela Ponce (fotos Instagram)  

 

A miss e os trabalhos sociais 

 

Para ser miss na Espanha não basta apenas ser dona de uma beleza muito acima da média. A organização do evento exige que as candidatas tenham participação ativa em movimentos de assistência social. 

Ángela Ponce é voluntária em uma organização sem fins lucrativos que trabalha com famílias e crianças que lidam com questões ligadas à identidade de gênero.

"Crianças transgênero muitas vezes enfrentam a depressão e pensamentos suicidas", disse à agência Reuters. "Tantas crianças sofrem discriminação por serem diferentes. É importante dizer a elas que elas têm direito de ser quem são, quem quiserem ser", concluiu Ponce. 

 

Mulher transgênero é favorita para ganhar o concurso de Miss Universo Ángela Ponce (fotos Instagram)

 

Uma vida cheia de contestações

 

Quem comunga da teoria de que mulher bonita consegue tudo pode estar enganado. Nem mesmo quando já tinha um corpo bem feminino Ángela teve todas as portas abertas. Ela explica que já foi vetada em vários trabalhos de modelo por causa da condição de transexual.

Depois de ser eleita Miss Espanha, Ponce sofreu um bombardeio de críticas e questionamentos nas redes sociais. Tudo bem que a maioria apoiou a escolha da modelo, mas não foram poucos os que fizeram questão de detonar a escolhida. 

Muitas eram mulheres que usaram como argumento um "desequilíbrio" provocado pelo corpo original de Ángela. Elas alegam que uma mulher transexual tem menos celulite e estrias do que uma mulher cisgênero (que tem identidade de gênero correspondente ao sexo biológico), o que torna injusto um concurso que avalia a beleza.

"Não sou um homem querendo ser uma mulher. Sou uma mulher trans e tenho o direito de estar lá, as regras do Miss Universo me permitem participar", disse Ángela no programa Don Francisco, da TV espanhola. 

Mas o assunto rendeu. Até a miss Colômbia entrou nessa discussão e em tom provocativo. "O reino da beleza, como é o Miss Universo, foi feito para mulheres que nascem mulheres. Acho que para ela [Ángela] também seria uma desvantagem", disse Valéria Morales. 

A espanhola reagiu rápido e mandou a resposta via Instagram. Ángela postou no perfil da conta dela a seguinte declaração: "Nunca tentarei mudar sua opinião, essa não é a minha função. Meu propósito é tornar minha realidade conhecida e falar ao mundo um pouco sobre educação para a diversidade, que é um fator importante e que, sem dúvidas, acabaria com tanto bullying, preconceito e violência. Peço respeito", escreveu. 

 

Mulher transgênero é favorita para ganhar o concurso de Miss Universo Ángela Ponce (fotos Instagram) 

 

Motivos para tanta rivalidade

 

Em Bangkok, Ángela não vai chamar a atenção só por ser a primeira transexual na competição com outras tantas belezas. A Miss Espanha é apontada nas bolsas de aposta da Europa como uma das favoritas para ganhar o concurso. Na casa de apostas virtual "My Bookie" ela aparece em primeiro lugar. 

Não vai ser nada fácil. A modelo terá que superar outras 94 concorrentes se quiser sair de lá como a coroa de rainha. A disputa desse ano, que será transmitida para mais de 190 países e tem um público estimado em meio bilhão de espectadores, vai ter uma comissão de seleção só de mulheres. 


A segunda transgênero e a brasileira

 

A nova fase do Miss Universo poderia estrear com uma dupla de transgêneros na disputa. Na Mongólia, Belguun Batsukh, uma jovem de 25 anos, também se esforçou para ser a representante do país dela na Tailândia, mas não passou do décimo terceiro lugar.

 

Mulher transgênero é favorita para ganhar o concurso de Miss Universo Belguun Batsukh, a transgênero que concorreu na Mongólia

 

Se você quer saber quem é a brasileira e se ela tem chances, pode ficar empolgado. A nossa Miss é uma amazonense de 26 anos, uma morena de encher os olhos. 

Mayra Dias é jornalista e acabou com um jejum de mais de 60 anos sem o Amazonas ter a miss do estado escolhida como a mulher mais bonita do Brasil. A última foi Terezinha Morango, em 1957. Mayra é também a quarta mulher negra brasileira a levar o título.  

Ela nasceu em Itacoatiara, município localizado a 271 km de distância de Manaus. Atualmente, a musa trabalha em um programa na televisão chamado Dulcila em Revista.

 

Mulher transgênero é favorita para ganhar o concurso de Miss Universo Mayra Dias, a amazonense que vai defender o Brasil

 

* apesar das previsões dos especialistas, Ángela Ponce não se classificou nem para a rodada de 20 finalistas. Mesmo assim, a espanhola disse que "estar no Miss Universo" já foi uma grande conquista. 

A brasileira Mayra Dias avançou um pouco mais, mas não conseguiu ficar entre as 10 escolhidas para a final. 

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Marcia Mendes

Marcia Mendes

Aposto minhas fichas nela. É lindíssima!
★★★★★DIA 13.12.18 22h49RESPONDER
Guilherme Mendes
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

As canidatas já estão na Tailândia desde o início da semana e participaram de algumas sessões de fotos. É possível encontrar em buscas na internet. Tem várias que são muito bonitas também. Abraço e venha sempre nos visitar por aqui. 

★★★★★DIA 14.12.18 09h03RESPONDER
N/A
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