Quem conseguiu provar a inocência de Craig Coley foi um policial que abandonou a carreira para livrar o condenado da prisão perpétua
O americano inocente que vai receber uma indenização de US$ 21 milhões por ter passando 38 anos na cadeia

Se é que dá para dizer que um homem passa quase 40 anos atrás das grades e ainda teve alguma sorte, esse injustiçado chama-se Craig Coley. Sorte porque se fosse condenado à pena de morte, provavelmente ele já teria sido executado. Quem ajudou o inocente morador da Califórnia a sair da prisão foi um ex-policial, que não acreditava na culpa do homem acusado de estupro e mortes. Foram anos de brigas para que as provas levantadas na época dos crimes fossem revisadas, mas Mike Bender finalmente conseguiu e provou que Coley era um injustiçado.

Para conhecer essa história, que parece roteiro de filme policial, é preciso viajar no tempo e no espaço. Vamos começar pela pequena cidade de Simi Valley, na Califórnia. O ano era 1978.

Naquele lugar morava um veterano de guerra do Vietnã, Craig Coley. Em outra casa a ex-namorada dele, Rhonda Wicht, de 24 anos, com o filho Donald, de 4 anos.

Rhonda era garçonete e estudava cosmetologia. Ela teve um relacionamento com Coley durante dois anos, mas eles haviam terminado o namoro há pouco tempo.

Craig trabalhava como gerente noturno em um restaurante depois de ter servido à Marinha americana no Vietnã. Em três ocasiões ele participou de ações em porta aviões.

Apesar de não estarem mais juntos, Craig ainda tinha uma chave do apartamento de Rhonda.

O duplo homicídio aconteceu na madrugada do dia 11 de novembro daquele ano. Mãe e filho foram mortos em suas camas. Rhonda primeiro foi estuprada, espancada e depois enforcada com uma corda. Donald morreu asfixiado.

Na época, uma vizinha prestou um depoimento e afirmou ter ouvido uma discussão no apartamento da vítima. Em seguida, ela teria visto Craig pegar seu carro e ir embora.

Para tornar as suspeitas ainda mais fortes, as autoridades concluíram que Coley, ao ser examinado, apresentava ferimentos no corpo e no pênis. Na casa dele também foram encontrados um short de criança e uma toalha com sangue.

Em poucas horas a polícia prendeu Craig. Dois anos depois ele foi levando ao primeiro julgamento. Certos da culpa do réu, os Procuradores pediram que a condenação fosse a pena de morte.

Mas esse julgamento acabou anulado. No segundo júri o acusado acabou tendo a sentença final de prisão perpétua, sem a possibilidade de liberdade condicional. Em 1980, o ex-combatente de guerra parecia ter sua vida restrita até o último dia de vida a uma cela.

Craig Coley sempre jurou inocência.

 

O americano inocente que vai receber uma indenização de US$ 21 milhões por ter passando 38 anos na cadeiaCraig Coley, Rhonda Wicht e o filho Donald

 


O policial que acreditou em Craig

 

Essa história começou a ter um rumo diferente graças a determinação e coragem de Mike Bender. O ex-integrante do Departamento de Polícia de Simi Valley estava apenas há um mês no novo serviço quando aconteceram os homicídios e não participou das investigações.

Uma década depois, o policial do tranquilo subúrbio de Los Angeles resolveu mexer nos arquivos do caso, de tanto que Craig afirmava não ter cometido os assassinatos. Bender descobriu o que considerou falhas sérias na investigação. "Revendo como o caso foi tratado, havia muitas bandeiras vermelhas para eu acreditar que Coley era um suspeito", disse ao The Washington Post.

Mas Bender se convenceu de que o americano condenado à prisão perpétua estava dizendo a verdade. Começava uma longa batalha de um detetive para provar a inocência de um encarcerado.

Durante quase três décadas, o policial Mike fez vários apelos às diversas autoridades de justiça, política, ao FBI e até aos Governadores da Califórnia para que o caso fosse reaberto com uma nova investigação.

"O que me motivou foi que não havia mais ninguém para fazer isso. Eu senti fortemente que um homem inocente estava na prisão e o assassino estava livre", explica o detetive.

Mas dentro do departamento em que trabalhava, as indagações constantes de Bender sobre o caso Coley não eram bem-vindas. "Eu encontrei grande resistência, como você pode imaginar, porque eu estava olhando para os meus superiores", disse ele.

Mesmo assim, Mike continuou levantando provas sobre a inocência de um homem e chegou a levar as descobertas para um grande júri, que se recusou a investigar.

A gota d’água para a desobediência do detetive aconteceu em 1991. Certo dia ele foi à prisão de segurança máxima para se encontrar com Coley pela primeira vez. No retorno recebeu um ultimato: pare de investigar se você quer manter seu emprego.

Em jogo estava uma carreira de sonhos. Bender sempre quis ser um policial em sua cidade natal. Mas ele acabara de tomar uma decisão radical. Para provar a inocência de Coley e não se arrepender no seu leito de morte de que não tinha lutado contra a injustiça, Mike deixou o emprego em Simi Valley.

Desgostoso com o que estava acontecendo dentro de um Departamento de Polícia, ele se mudou para o norte da Califórnia e foi trabalhar em uma empresa que investigava pedidos de seguro.

"Não parecia ir a lugar nenhum. Era muito poder, muita política, muitas pessoas tentando defender o que fizeram, em vez de tentar investigar a verdade. Fiquei desanimado. Eu entrei no setor privado, vendi todas as minhas armas. Eu não queria nada com isso”, disse ao jornal The Post.

Naquele ano, o pai de Craig, um policial aposentado, já havia morrido e a mãe dele, uma professora, estava sozinha. Era Bender que levava a senhora à prisão para ver o filho nas visitas permitidas. O detetive acabou virando uma espécie de membro da família Coley.

 

A verdade

 

Finalmente, em 2016, Bender encontrou a luz no fim do túnel. A cidade de Simi Valley contratou um novo Chefe de Polícia e Dave Livingstone aceitou examinar as evidências que Mike havia reunido para provar que Craig era um injustiçado.

O primeiro desafio da polícia da cidade foi localizar, nos arredores de Los Angeles, algumas provas que eles imaginavam não existir mais.

As amostras biológicas colhidas do corpo de Wicht durante as investigações tinham sido analisadas em um laboratório público. O juiz do caso ordenou que, depois do julgamento, as provas fossem destruídas. Mas todas continuavam lá.

O laboratório acabou comprado por uma empresa privada e os novos donos guardaram o material, contrariando a determinação do Tribunal. Era o "primeiro gol" a favor de Coley.

O segundo foi a possibilidade de uma análise forense que não existia em 1978: vestígios de DNA encontrados nos corpos das vítimas. Todo o material que foi coletado do corpo da mulher, como sêmen e saliva, não correspondia ao perfil do homem que há mais de trinta anos cumpria pena por duplo homicídio. O jogo já tinha virado a essa altura. 

A polícia também visitou o local do crime, e percebeu que o testemunho da vizinha que garantia ter visto Craig não fazia sentido. Ela não tinha visibilidade para isso.

O terceiro ponto avaliado foi a tese que o detetive Bender defendia há anos. Na noite do crime, Coley trabalhou no restaurante e depois deu carona a um amigo, antes de ir para casa, tomar banho e dormir.

Em um intervalo de 20 a 30 minutos ele não teve tempo para ter dirigido até o apartamento de Wicht, estuprado e estrangulado a ex-namorada. Em seguida, o assassino ainda teria sufocado o filho, saqueado a residência e voltado para casa.

Estava provada a inocência de Craig Coley.

No dia 20 de novembro de 2017, o Departamento de Polícia de Simi Valley e o Promotor Distrital anunciaram que acreditavam que Coley era inocente e que estariam apoiando a petição por clemência. O documento pedindo a revogação da prisão foi encaminhado ao Governador da Califórnia, Jerry Brown.

"Revendo o caso à luz das novas evidências, não temos mais confiança no peso da evidência usada para condenar o Sr. Coley", escreveram as duas agências em uma carta encaminhada ao Gabinete do Governador. "Também acreditamos que as evidências, como sabemos agora, satisfariam o padrão legal para a descoberta de inocência factual".

A resposta de Jerry Brown foi rápida: "Concedo este perdão porque Coley não cometeu estes crimes".

Desde que ganhou a liberdade Craig deu poucas declarações. Uma delas resume bem a dor que ele sentiu: "Passei quatro décadas sem poder chorar a mulher e o garoto que eu amava".

Coley viveu os primeiros sete meses na casa do ex-detetive em San Diego, reintegrando-se, lentamente, ao mundo e começando a reconstruir sua vida.

"Se não fosse por Mike, eu ainda estaria na prisão", declarou Craig ao jornal Simi Valley Acorn.


Indenização e reconhecimento

 

Ao assinar o termo que tirou Craig da cadeia, o Governador Jerry Brown descreveu o detento como um "preso modelo".

"A honra com que Coley suportou esta prisão prolongada e injusta é extraordinária", escreveu o Governador no documento de soltura.

Mas a liberdade foi pouco para Craig. Depois que voltou para casa ele moveu um processo contra a cidade de Simi Valley. Na última semana a prefeitura local fez um acordo com o ex-presidiário e vai pagar uma indenização de 21 milhões de dólares (cerca R$ 78,3 milhões).

Nada mal. Ainda mais porque o ex-marinheiro já tinha recebido 2 milhões de dólares (R$ 7,4 milhões) quando foi libertado em 2017 (140 dólares por cada dia que ficou preso). Craig colocou também a mão em uma grana paga por algumas seguradoras pelo tempo todo que passou na cadeia injustamente.

No último sábado o Governador Brown assinou também a indenização.

"Ainda que nenhuma quantidade de dinheiro possa compensar o que aconteceu com o senhor Coley, resolver este caso é o correto para ele e para nossa comunidade", disse em um comunicado Eric Levitt, representante da administração municipal de Simi Valley.

Levitt ressaltou, ainda, que o acordo foi feito porque uma solução por meio judirídico seria ainda mais onerosa e longa. "A despesa para levarmos o caso a julgamento seria astronômica, e seria irresponsável seguirmos nessa direção", explicou Eric. Caso a disputa judicial prosseguisse, a administração acredita que a indenização poderia chegar a 80 milhões de dólares.

A prefeitura assumirá cerca de 4,9 milhões de dólares dos custos do acordo. O restante será pago pelo seguro e outras fontes.

O período de prisão de Coley foi o mais longo já revogado na Califórnia.

 

Afinal, quem é o assassino

 


Com a reviravolta do caso a polícia retomou as investigações para saber quem realmente matou Rhonda e Donald Wicht.

Uma dúvida que paira no ar há tempos é se o policial que prendeu Craig agiu maliciosamente ou apenas cometeu um erro.

Em seu perdão, o Governador Brown observou que vários ex-oficiais de polícia que testemunharam perante a Junta de Audiências afirmaram que "o detetive que originalmente investigou o caso extraviou a investigação que enquadrou o Sr. Coley".

O promotor local achou que os investigadores decidiram que Craig era culpado muito rapidamente.

Livingstone, o atual Chefe de Polícia, afirmou que não há evidência de má conduta deliberada.

Bender, agora com 63 anos e morando em San Diego, entende que a pressa para o julgamento pode ter influenciado no resultado da investigação. "Muito poder, muita política, muitas pessoas tentando defender o que fizeram, em vez de tentar investigar a verdade", definiu o ex-detetive.

Coley, atualmente com 71 anos, quer viajar e trabalhar com instituições de caridade de veteranos, disse Bender. "É um final decente. É definitivamente um presente maravilhoso sob circunstâncias horríveis", completou o homem que fez a história de Craig ter um final bem diferente.

 

O americano inocente que vai receber uma indenização de US$ 21 milhões por ter passando 38 anos na cadeiaO investigador Mike Bender e o Craig Coley
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Já temos 7 comentário(s). DEIXE O SEU :)
Alden Etefferson

Alden Etefferson

O detetive merece uma medalha! A vítima, nem há palavras para expor o que realmente ele merece.
Este foi um caso que conseguiram provar a inocência de um homem, quantos foram condenados injustamente e não tiveram a mesma "sorte"?
★★★★★DIA 01.03.19 16h20RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Alden, infelizmente a justiça falha também. Desde que publiquei o texto já apareceram várias pessoas relatando outras casos bem parecidos que eu não conhecia. É muito doloroso você ser culpado por algo que não fez, ainda mais com uma pena tão dura e longa. Venha sempre nos visitar. Grande abraço.

★★★★★DIA 01.03.19 23h50RESPONDER
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José Arnaldo Castro

José Arnaldo Castro

Aqui no Brasil teve um caso muito semelhante ao acima narrado. Ficou conhecido como "O caso dos irmãos Naves". Tudo começou em 1937 na cidade mineira de Araguari. Para quem quiser saber mais é só digitar no Glooge O caso dos irmãos Naves. Depois de constatado o erro judiciário foi rodado até um filme sobre o assunto na década de 1970. Acredito que no YouTube tem o vídeo. Vale a pena ver como a justiça é cega em um caso que poderia ter sido resolvido mais facilmente se tivéssemos na época uma polícia mais bem aparelhada e se não fosse o regime de exceção porque passava o Brasil. 

★★★★★DIA 01.03.19 01h44RESPONDER
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Cleverson Castro

Cleverson Castro

Ainda há vários casos similares em prisões de diversos países. Mas parabéns ao detetive.
★★★★★DIA 28.02.19 20h50RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Cleverson, a injustiça dói em proporções muito menores, agora imagina ficar 38 anos em uma cadeia sendo penalizado por crimes que você não cometeu. Sem contar a revolta com o verdadeiro criminoso, bárbaro pelos assassiantos que cometeu e cruel em permanecer calado vendo um inocente pagar por algo que não fez. Grande abraço.

★★★★★DIA 28.02.19 21h26RESPONDER
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Renan Castro

Renan Castro

Legal, isto é que é um homem de fé. Largou o serviço e foi ajudar uma pessoa que nem conhecia direito.
★★★★★DIA 28.02.19 18h11RESPONDER
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Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Renan, o mundo está precisando de mais pessoas assim, concorda?. Obrigado por participar do blog. Volte sempre. Grande abraço.

★★★★★DIA 28.02.19 19h47RESPONDER
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