A nova onda de ataque conhecida como "novo cangaço" está levando pânico as cidades do interior. Os bandidos explodem bancos e metralham quartéis da PM, assim como Lampião e companhia faziam no século passado
O cangaço está de volta ao nordeste

Talvez você não more no nordeste e ainda não tenha ouvido falar sobre essa modalidade de crime. O "novo cangaço" é uma reedição dos antigos ataques que bandos faziam em cidades do interior dos estados da região. Os brutais pistoleiros tinham fama de fazer justiça com as próprias armas ou simplesmente roubar de fazendeiros e comerciantes do nordeste tudo o que encontravam pela frente. Os ataques começavam normalmente pelas delegacias. É daí que vem a inspiração ou a comparação com os criminosos atuais. Os "novos cangaceiros" também tem como primeiro alvo o destacamento policial local. Enquanto o patrulhamento é "distraído" com um intenso tiroteio outra parte do bando explode caixas eletrônicos e agências bancárias. Da mesma forma os dois tipos de cangaceiros são impiedosos. Quem cruza no caminho deles tem uma grande chance de morrer. Viu no que eles se parecem?

Se você acha que o antigo cangaço nasceu com o chefe do bando mais famoso conhecido como Lampião, saiba que a verdade não é bem essa. Muito antes de Virgulino Ferreira da Silva assumir o comando outros líderes estiveram à frente do movimento violento, que vagava pelos estados nordestinos. Outro erro é rotular os cangaceiros apenas como ladrões e assassinos. Durante mais de um século eles agiram movidos por razões diferentes.

 

O início

 

O primeiro cangaceiro que se tem notícia trata-se de José Gomes, conhecido como Cabeleira. Ele teria nascido em 1751, em Glória do Goitá, cidade da zona da mata pernambucana. A fama de Cabeleira era de aterrorizar por onde passava.

Em 1828, surgiu o bando de Lucas Evangelista na região de Feira de Santana, na Bahia. Os bandidos tinham fama de roubar viajantes e estuprar mulheres.

Cinquenta anos depois a turma de João Calangro tocou o terror no Cariri. Nesse período os cangaceiros também prestavam serviço para coronéis em cobrança de dívidas.

Dali para frente as intenções dos bandos diversificaram entre roubar e matar ou fazer justiça defendendo a população pobre de pequenos lugarejos.

O método de ação deles tinha como principal característica impor o terror por onde passavam. Costumavam escolher cidades sem proteção policial, o que facilitava os saques ao comércio.

Em alguns casos eram contratados para resolver rixas pessoais entre coronéis.

O bando de Virgulino Ferreira ficou famoso nas décadas de 20 e 30 do século passado. O cangaceiro se enveredou no crime depois que o pai dele foi assassinado em disputas por terras. O filho jurou vingança e passou a perseguir os algozes da família. O apelido de "Capitão Lampião" vem da época em que ele foi convidado pelo governo do Ceará a conter o avanço da Coluna Prestes que crescia muito pelo nordeste. O grupo de Virgulino tinha a promessa de ser incorporado a Guarda Nacional caso tivesse êxito em uma operação na cidade de Juazeiro do Norte.

O certo é que Lampião e sua trupe nunca tiveram o reconhecimento do governo. O bando passou a atacar cada vez mais cidades, sempre usando muita bala, sangre frio, sem se importar com quem aparecia na reta deles e saqueando tudo o que encontrassem pela frente.

É verdade que Lampião tinha também a fama de Robin Hood. Muitas vezes o bando invadia cidades para fazer justiça ao modo deles. Mas isso hoje pouco é lembrado pela história. A maior fama do sanguinário Virgulino foi a da crueldade e o modo como agia. A Polícia era sempre o primeiro adversário a ser abatido antes de se fazer a limpa na cidade. Só depois de 20 anos de perseguição Lampião foi capturado e decapitado no chão do nordeste.


O novo cangaço

 

Quase um século depois uma nova prática de assaltos as cidades do nordeste tem repetido as estratégias dos cangaceiros. A grande diferença está nos sofisticados armamentos que os bandidos modernos usam e o objetivo deles, que não tem nada de ajuda a ninguém, a não ser de encher os bolsos. O alvo também não são mais as lojas do comércio e, sim, bancos e caixas eletrônicos.

A balbúrdia começa com a invasão a cidade escolhida. O bando ataca primeiro a delegacia ou o posto policial. Sem nenhuma economia de munição eles tentam manter os policias ocupados em um intenso tiroteio enquanto outra parte da quadrilha vai até as agências bancárias dinamitar paredes e abrir cofres.

Na fuga os assaltantes bloqueiam ainda os acessos a cidade atravessando caminhões na pista e ateando fogo em automóveis menores. Tudo é muito rápido. Essa zorra toda dura em média meia hora. Mas o planejamento é feito com muita antecedência. Quando chega para o assalto o bando já conhece muito bem os caminhos de fuga, a logística da polícia e, principalmente, quanto de dinheiro vão encontrar.

Em alguns casos, assim como Lampião e companhia faziam, parentes de responsáveis pelo dinheiro são sequestrados. Atualmente, enquanto o acuado gerente é obrigado a facilitar o acesso às agências e abrir os cofres, seus familiares estão em algum lugar sob a mira de armas de fogo. Outra característica das quadrilhas é de ser formada por cerca de 15 criminosos de vários estados. Boa parte do dinheiro carregado é para alimentar a facção do PCC.

Só na Bahia em 2017, vinte cidades foram atacadas. Segundo a Secretaria da Segurança do estado 108 agências foram alvo das quadrilhas. No Ceará o primeiro caso de novo cangaço foi registrado em 2007.

 

O Bonde do Maluco

 

Essa semana em Bacabal, no interior do Maranhão, os quadrilheiros conseguiram carregar cerca de 100 milhões de reais.

O chefe do bando é um antigo conhecido da polícia brasileira, mas que provavelmente anda escondido no Uruguai. O nome dele é José Francisco Lumes, o Zé de Lessa. O reduto do bando de Lessa, chamado Bonde do Maluco, é a Bahia.

No roubo a Bacabal cerca de 30 homens fortemente armados participaram da invasão ao Banco do Brasil depois que a agência foi dinamitada. A delegacia regional e o quartel da PM também foram alvos dos ataques. Sete carros viraram sucata e cinzas depois de serem queimados para ajudar na fuga dos criminosos.

A agência do BB de Bacabal é o centro distribuidor do dinheiro da região e ficou destruída.

Mas nem tudo saiu como eles imaginavam. Na troca de tiros com a polícia três bandidos foram abatidos, entre eles Edielson Francisco Lumes, irmão de Zé de Lessa.

A investigação do caso tem sugerido que muita gente participou da elaboração do assalto. A rede de informantes incluiu um policial militar do Piauí, um bombeiro, um delegado, um investigador da Polícia Civil do Maranhão e dois advogados.

O Bonde do Maluco é uma quadrilha que, até então, seria formada por 78 membros, entre homens e mulheres. O grupo se especializou em assaltos a instituições financeiras e explosão de veículos de transporte de valores. Em cada estado do nordeste eles tem pelo menos um representante.

Para tentar localizar Zé de Lessa estão trabalhando em conjunto a Interpol, Polícia Federal, Polícia do Uruguai, e a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão.

Está aberta mais uma temporada de caça a um rei do cangaço. Tem um novo Lampião atormentando o nordeste.

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