Enquanto os campeonatos não mostram nada de diferente, e a seleção vive sob total desconfiança, fora das quatro linhas temos bons motivos para nos envergonhar

No próximo final de semana terminam os campeonatos de quase todos os estados. Qualquer que seja o campeão nos principais centros da bola no país não haverá nenhuma surpresa.

No Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais novamente as finais estão sendo disputadas por times que tem "camisa".

Em Goiás, Pernambuco, Ceará e Santa Catarina, que frequentemente tem representantes na Série A, também não aconteceu nada de novo em 2019. As duas únicas exceções foram na Bahia, onde o Tricolor está jogando a decisão contra o xará de Feira de Santana, ao invés do Vitória, e no Paraná, que viu o Coritiba ficar de fora. O título está entre Atlhetico e Toledo.

Para não esquecer do CSA, que também vai disputar a elite do futebol nacional esse ano, em Alagoas deu o clássico mais tradicional do estado. O adversário do Azulão está sendo o CRB.

A falta de novidades recolocou em cena a velha discussão sobre o fim dos estaduais. Nos últimos dias, muitos analistas já escreveram sobre o tema e diversas propostas bem interessantes foram sugeridas. A CBF deveria olhar com carinho sobre o tema, com a responsabilidade que a matéria merece visando salvar o futebol brasileiro, ao invés de ficar fazendo política para dirigentes se manterem nos cargos.

Um grande problema do futebol nacional, que passa diretamente pela manutenção dos campeonatos estaduais, é a forma de escolha dos presidentes de federação e da CBF. Enquanto na primeira os representantes de ligas e clubes têm direito a voto, na entidade máxima participam da eleição clubes e federações. Ou seja, para se eleger o presidente tem que agradar aos interesses de muita gente. O tradicional "toma lá dá cá" da política brasileira está sempre em campo na hora de decidir os rumos também do nosso futebol.

Outro ponto que leva as federações a manterem suas competições no formato atual é o dinheiro que elas ganham com a realização de seus campeonatos. Mas não é preciso acabar com os certames, apenas que se organize usando outros critérios e regulamentos.

O futebol mundial hoje exige fisicamente muito mais dos atletas. Um jogador não deveria entrar em campo mais do que 60 vezes ao longo da temporada, segundo os fisiologistas. Só no Campeonato Brasileiro necessita-se de 38 rodadas para jogar toda a competição. Sobrariam 22 para estaduais, Copa do Brasil, Libertadores e Sul-americana.

De todos os times, de norte a sul do país, até hoje o único que tem contestado o abusivo calendário brasileiro é o Atlhetico. Vira e mexe o Furacão joga o paranaense com o time Sub 23. E ainda chega na decisão, como fez agora.

A esperança de uma mudança está na televisão, que já falou em cortar as cotas dos estaduais. Sem a grana que vem das transmissões, as competições regionais ficariam cem por cento deficitárias.

 

Enquanto isso...

 

O torcedor paga para ver jogos tecnicamente fracos e com resultados ilusórios. Constantemente, os grandes times da capital emplacam goleadas retumbantes nos frágeis adversários do interior.

Não tem nenhuma surpresa quando esses placares acontecem, pelo contrário, é o que deveria ocorrer até com mais frequência. Mas o que faz a diferença não é a questão geográfica e, sim, o orçamento de cada um.

Enquanto os principais clubes do Brasil não têm menos de 120 milhões por ano para investir em seus times, equipes pequenas mal conseguem juntar 80 mil reais para jogar um campeonato estadual. O que recebem de salários os maiores ídolos dos grandes clubes em um único mês, dá para pagar as folhas das equipes do interior de Minas ao longo de todo o campeonato.

 

Fora de campo uma rodada de horrores

 

As diferenças no futebol brasileiro não se restringem ao aspecto financeiro. A organização muda também de estado para estado, sem nenhuma padronização. No final de semana, enquanto estava apenas começando as decisões na maioria deles, no Piauí e no Maranhão os campeões já foram conhecidos. Deu River e Imperatriz, respectivamente.

Em Santa Catarina o domingo foi ainda para se conhecer os finalistas. Avaí e Chapecoense avançaram na semifinal local e se enfrentarão agora em jogo único. A decisão será no estádio da Ressacada no último domingo antes da abertura do Brasileirão.

Outra triste constatação foi saber que a violência e deploráveis comportamentos de alguns torcedores insistem em fazer parte dos grandes jogos.

Em São Paulo teve até tiroteio. A briga entre tricolores e corintianos, seis horas antes da partida, foi uma das mais brutais do ano. O saldo foi de seis pessoas gravemente feridas, sendo 3 por tiro e 2 esfaqueadas. Outros 12 torcedores também se machucaram na confusão em Ferraz de Vasconcelos, na região metropolitana da capital.

Segundo a PM, durante a arruaça quatro carros tiveram os vidros quebrados. Um deles era de um motorista de aplicativo e os outros de fieis que participavam de um culto religioso.

Belo Horizonte teve o registro de pelo menos três ocorrências. A mais grave foi a tentativa de estrangulamento de um torcedor atleticano por um grupo de cruzeirenses. Mais 27 bombas de fabricação caseira e outros artefatos foram apreendidos.

No Recife, um torcedor do Náutico foi pisoteado por um cavalo da PM durante a baderna no estádio dos Aflitos. 

Na Arena Condá, em Chapecó, dois torcedores do Figueirense, ao verem o time eliminado e diante de provocações dos adversários, protagonizaram outra cena lamentável. Eles "imitaram" voo de aviões para relembrar do acidente aéreo que matou 71 pessoas em 2016, na Colômbia (veja o vídeo no alto da página).

Um deles fez o gesto de um avião caindo ao ouvir gritos de "Série B". A triste cena foi gravada pelos torcedores da Chapecoense, que publicaram as imagens nas redes sociais.

O Figueirense logo se manifestou através de uma nota repudiando a manifestação. "O clube ratifica que atitudes como essa são isoladas e não representam, em nada, o reconhecido padrão da gigante torcida do Furacão. Dentro da esfera administrativa, os participantes, após a identificação, serão banidos do quadro social, caso sejam membros, e também de qualquer ação e local vinculados ao Alvinegro", diz o comunicado oficial.

Mais triste ainda é constatar que a tragédia com a delegação da Chapecoense, vira e mexe, se torna motivo de provocação nos estádios.

Três outras situações similares aconteceram em jogos no Brasil e no exterior. Em 2018, no Uruguai, em uma partida da Copa Libertadores, torcedores do Nacional "imitaram" aviões durante jogo contra a equipe catarinense.

No ano anterior, em dois momentos distintos, torcedores cantaram músicas zombando do acidente ou provocando rivais. Em Portugal, torcedores do Porto quiseram irritar os do Benfica durante um jogo do Campeonato Português de handebol com o canto: "Quem me dera se o avião da Chapecoense fosse do Benfica".

Em Criciúma, torcedores do Tigre cantaram "ão ão ão, abastece o avião", em um jogo do campeonato catarinense contra a Chapecoense.

 

Veja também

Olá, deixe seu comentário para O futebol de desrespeito e violência

Enviando Comentário Fechar :/