Filme que conta os últimos dias de Tancredo Neves traz muito mais do que detalhes da doença do presidente que não tomou posse, revela grandes absurdos daqueles dias de março em Brasília

O filme que conta a história dos últimos dias de vida do ex-Presidente Tancredo Neves já está nas telonas. A produção é um misto de romance com documentário e tem boas revelações sobre os bastidores do tratamento de saúde mal sucedido daquele que também foi ex-governador de Minas.

Durante mais de três décadas a população brasileira ouviu versões fantasiosas que foram criadas na época da morte de Tancredo. As teorias de conspiração davam conta de que o futuro presidente do país levara um tiro na véspera da posse ou então teria sido envenenado. Aliás, até hoje é assim. Basta um episódio não ser imediatamente esclarecido para as hipóteses brotarem por todos os lados. Tem gente que vai assistir ao filme e ainda sairá das salas de exibição dizendo que não acredita no que foi parar na película.
O mais grave, ao ver a versão que está aí para o público, é constatar a fragilidade do nosso sistema de saúde, que, ainda hoje, não mudou nada. Apesar do episódio envolver a figura mais ilustre do país naqueles dias, os médicos que cuidaram do caso se mostraram extremamente inseguros.

Outra aberração da história foi a revelação da precariedade do Hospital de Base de Brasília, considerado o melhor da capital federal, mas que não tinha equipamentos básicos para exames e faltava até artigos cirúrgicos.

A pirotecnia dos políticos é retratada de forma surreal durante a realização da primeira cirurgia. Na sala, havia senadores, ministros e outras autoridades com um avental usado em blocos cirúrgicos por cima dos ternos. Uma plateia patética, empunhando até máquinas fotográficas em um ambiente em que as normas exigem que seja restrito só a médicos e seus auxiliares.

Os dias após o início da enfermidade se sucederam com várias trapalhadas dos doutores que arriscaram prognósticos como se fosse um jogo de loteria. Ao ver tanto absurdo, a sensação que fica é que corremos muito mais riscos em hospitais do que imaginamos. Se o presidente, que tomaria posse, passou pelas barbaridades de diagnósticos e cirurgias descabidas imaginem os reles mortais que são levados quase anonimamente para os blocos cirúrgicos?

A reprodução do desempenho do secretário de imprensa Antônio Brito, vivido no filme pelo ator Emiliano Dantas, retrata muito bem como os assessores de imprensa desempenham suas funções. Ao contrário do que muita gente possa imaginar, esse profissional não tem acesso a tudo o que acontece com o seu patrão ou na instituição em que trabalha. Brito passou maus bocados naquelas semanas porque os médicos, e a família, queriam manipular todas as informações na tentativa de preservar o senhor Tancredo Neves, no entanto, só conseguiram trazer suspeitas sobre a verdade que agora é contada.

O paciente Tancredo Neves

Mas se o filme se propõe a revelar um passado que era obscuro na nossa história, deveria ter tido mais cuidado com o desfecho. No últimos minutos a trama corre a galope com fatos que deveriam ser contados em detalhes. Das sete cirurgias feitas no político, apenas três são relatadas. Os instantes finais da vida de Tancredo são resumidos em duas breves cenas e deixam a plateia meio confusa com a real causa da morte, até que algumas frases surgem em uma tela preta com a explicação simplificada do Instituto do Coração de São Paulo.

Quem for assistir ao "O Paciente: O Caso Tancredo Neves" e espera ver ainda os bastidores dos meios políticos vai se decepcionar. Não foi feita uma única reconstituição do que se passou nos gabinetes do Planalto em 1985. O filme se restringe a mostrar apenas flashes de reportagens de tvs de alguns momentos.

Mas, no final, é possivel ver pessoas na plateia se emocionando quando toca a música Coração de Estudante, do Milton Nascimento. Realmente é um momento tocante. As imagens das ruas de Brasília e São Paulo, tomadas por uma multidão, nos fazem recordar de um momento ímpar, em que o país inteiro, estava unido em torno de uma esperança que terminou naquele 21 de abril.

Demorou trinta e três anos para a verdadeira história da doença de Tancredo Neves se tornar pública. Tomara que não precisemos esperar outras três décadas para saber sobre a verdade do que aconteceu na história recente do país. De Lula a Temer o Brasil também precisa ser passado a limpo.

Veja também

Olá, deixe seu comentário para O paciente Tancredo Neves

Já temos 4 comentário(s). DEIXE O SEU :)
Marcia Mendes

Marcia Mendes

Ótimo o blog! Fiquei muito curiosa para assistir o filme, uma época muito relevante da nossa história, de grande esperança e que teve este desfecho marcado pela falta de transparência.
★★★★★DIA 16.09.18 22h07RESPONDER
Guilherme Mendes
Enviando Comentário Fechar :/
Cláudia Romualdo

Cláudia Romualdo

Assisti ao filme e concordo totalmente com sua análise. Também assisti a recente entrevista dada por Antônio Brito ao programa "Conversa com Bial". De ambos, podemos concluir que, quando alguém decide entrar na vida pública através de um cargo eletivo, concurso público ou mesmo uma nomeação para ocupar um cargo de confiança, se há interesse do país em jogo, a transparência em tudo que ocorre é indispensável!
★★★★★DIA 16.09.18 21h17RESPONDER
Guilherme Mendes
Enviando Comentário Fechar :/
Mariana Mendes

Mariana Mendes

Excelente o blog!
★★★★★DIA 16.09.18 20h57RESPONDER
N/A
Enviando Comentário Fechar :/
Guilherme Mendes

Guilherme Mendes

Obrigado por prestigiar o blog. Abraço

★★★★★DIA 16.09.18 20h58RESPONDER
N/A
Enviando Comentário Fechar :/
Enviando Comentário Fechar :/